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JF fará transporte de sangue e derivados por drone

Hospital Albert Sabin e serviço de entrega Tá na Escuta farão primeiro voo em novembro com transporte de hemoderivados


Por Gabriel Silva, estagiário sob supervisão de Luciane Faquini

16/10/2019 às 07h00- Atualizada 16/10/2019 às 07h29

drone em jf by olavo
Drones farão trajeto entre Hemominas e Albert Sabin, tendo como referência a linha férrea e o Rio Paraibuna (Foto: Olavo Prazeres)

O serviço de entrega por drones poderá revolucionar o sistema de fornecimento de insumos médicos em Juiz de Fora. Em iniciativa pioneira no Brasil, a empresa de entregas por aplicativo Tá na Escuta e o Hospital Albert Sabin pretendem inaugurar, em novembro, um projeto de transporte de hemoderivados a partir dos dispositivos aéreos. O trabalho, que está sendo planejado há um ano, deverá agilizar a chegada de sangue e derivados aos pacientes do hospital, com possibilidade de ser adotado também por outras instituições da cidade.

Inicialmente, o transporte será realizado de forma experimental com o trajeto fixo entre o Hospital Albert Sabin e a Fundação Hemominas Juiz de Fora que, pela rota tradicional, tem a distância de cerca de quatro quilômetros. Com a utilização do drone, conforme o observado nos primeiros testes realizados pelas instituições, o tempo estimado para entrega é de dois a três minutos. Com os veículos terrestres, o mesmo trabalho leva cerca de uma hora.

A partir do primeiro voo em cenário real, previsto para o próximo mês, será possível atestar a viabilidade do serviço e a manutenção ou não da qualidade dos materiais hemoderivados que serão transportados, quesitos que foram aprovados nos testes embrionários. O Tá na Escuta, que é parceiro de outros quatro hospitais juiz-foranos, possui as autorizações exigidas pela Vigilância Sanitária para o manuseio de hemocomponentes. No entanto, é necessária a criação de infraestruturas específicas e autorizações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para cada trajeto.

Greve dos caminhoneiros

A ideia de utilização dos drones pelo Tá na Escuta – que trabalha junto a hospitais com motocicletas – surgiu durante a greve dos caminhoneiros de 2018, a qual levou à falta de combustíveis nos postos brasileiros e a consequente impossibilidade de utilização dos veículos para o atendimento. “A partir da crise, nós procuramos procurar uma saída nova para não ficar à mercê desse tipo de cenário novamente”, explica Fabiano Nejaim, um dos criadores do programa por aplicativo.

Desde então, o desafio para a implementação do novo sistema de transporte passou por adquirir os equipamentos, treinar a mão de obra necessária para conduzir os voos e dispor de infraestrutura devidamente regularizada. Com os drones adquiridos, podem ser realizados transportes de cargas de até 15 quilos, com o maior veículo medindo 1,5 metro de envergadura e possuindo oito hélices.

“A chegada dos drones se tornou mais prática com a regulamentação da Anac em 2017. Os drones, inicialmente utilizados na área militar, começaram a ganhar força em áreas fora das militares, em que você consegue fazer esse trabalho com menos custo e maior facilidade”, conta Nejaim. No entanto, a regularização do serviço junto à agência ainda passa por procedimentos burocraticamente complexos.

Primeiros dronepontos do Brasil

Na Hemominas, um droneponto já foi construído com investimento do Tá na Escuta e outro deverá ter sua construção iniciada na próxima segunda-feira, no Albert Sabin. As coordenações dos dois parceiros iniciaram as tratativas com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), para a homologação dos espaços, o que os tornariam os primeiros dronepontos devidamente regularizados no país, de acordo com o diretor presidente do hospital, Célio Chagas.

A existência dos pontos de referência no trânsito dos drones é necessária para se ter maior controle do espaço aéreo e excelência na execução do serviço, de acordo com Nejaim. “Imagine enviar uma pizza para um bairro, um cachorro-quente para o outro, quem são as pessoas que estão tendo contato com o equipamento? O grau de dificuldade para fazer um transporte nesse sentido hoje é enorme. Por isso, a necessidade de ter os dronepontos como referência”, explica.

Outros hospitais

Para o diretor do Albert Sabin, após o início da nova modalidade de transporte, a tendência é de que outras instituições adotem o recurso após verificarem a viabilidade, o que deve gerar diminuição no custo do serviço e o progressivo desenvolvimento da utilização de drones em entregas. “Cada hospital novo que contratar, são novas rotas e, naturalmente, vão requerer toda a documentação para autorização. Na medida em que forem autorizadas novas rotas, você vai ter essa frequência maior de entrega”, projeta Célio.

A adoção do sistema inédito, de acordo com Chagas, dependerá do perfil de quem dirige as instituições de saúde, mas deverá resultar em uma revolução fundamental no atendimento ao público. “Imagine você trazer o tempo de entrega para dois minutos e o sangue estar ali para quem está precisando, enquanto normalmente demora mais de uma hora. Isso é a diferença entre sobreviver ou não sobreviver”.

Cadastro e apólice de seguro

A autorização dos transportes via drones é realizada individualmente para cada voo. Também são necessários uma certidão de cadastro com certificado de matrícula com manual de voo e apólice de seguro. Atualmente, não é permitido o voo completamente autônomo, necessitando de um piloto de prontidão e com condição de visão de todo o percurso para que assuma o controle do dispositivo em caso de emergência. “É uma burocracia muito grande para se fazer um voo”, afirma Fabiano.

Para atender a todas as exigências da agência reguladora, o trajeto entre o Albert Sabin e a Hemominas é tido como privilegiado pela possibilidade de utilização do Rio Paraibuna e da linha ferroviária, percursos com espaço livre para o trânsito dos drones. “Temos muita facilidade para chegar no Hemominas sem que tenhamos um volume muito grande de pessoas desavisadas nesse processo, gerando segurança”, analisa Nejaim, que também apontou o espaço aéreo pouco utilizado de Juiz de Fora como aliado ao procedimento.

A expectativa do Tá na Escuta é contribuir com a regulamentação do transporte por drones no país, recurso que ainda carece de legislatura que torne mais viável sua execução de modo rotineiro. “A lei não nasce antes da necessidade da população, não é possível criar uma lei para algo que não existe. Primeiro, você deve fazer existir algo que você possa regulamentar. Dessa forma, além de fazer esse transporte de sangue, nosso objetivo é contribuir com uma legislação para que isso ocorra com mais facilidade”, planeja Fabiano.

A Fundação Hemominas Juiz de Fora também irá aguardar o resultado dos primeiros testes para discutir a possibilidade de sediar o serviço de forma frequente. De acordo com o coordenador do hemocentro juiz-forano, João Paulo Baccara, será necessária a aprovação da central belo-horizontina para que o transporte se torne regular. “Nós vamos trabalhar para validar o transporte com a empresa privada (Tá na Escuta). Depois da aplicabilidade do projeto, vamos discutir o assunto a partir da questão da logística”.