Comitê da Verdade de JF revela histórias não oficiais

Na verdade, sou mais linharense do que juiz-forano, de Gilney Viana, que ficou preso sete anos
O padre João Bosco Burnier, que nasceu em Juiz de Fora em 1917, foi assassinado em outubro de 1976, em Mato Grosso, ao defender, ao lado do bispo Dom Pedro Casaldáliga, duas mulheres que estavam sendo torturadas na delegacia de Ribeirão Cascalheira. Em 1982, o advogado juiz-forano Gabriel Pimenta, na época com apenas 27 anos, foi morto em Marabá, no Pará, a mando de Manoel Cardoso Neto, ou Nelito Cardoso, irmão do ex-governador de Minas Newton Cardoso (PMDB). No início daquele ano, Pimenta havia ganhado ação na Justiça pela permanência de 260 famílias camponesas da Vila Pau Seco na área, onde já moravam havia mais de 20 anos. O nome de padre Burnier consta na lista de mortos e desaparecidos da ditadura militar, mas o de Gabriel Pimenta não.
"A lista de mortos e desaparecidos tem 475 casos oficiais, mas há centenas de pessoas que foram assassinadas por motivações políticas e cujas mortes não foram reconhecidas. Pessoas que sofreram repressão independentemente de ideologia", enfatizou o coordenador do projeto Direito à Memória e à Verdade, Gilney Viana, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ele esteve nesta segunda-feira (23) na cidade para receber das mãos do Comitê da Verdade de Juiz de Fora o material reunido em pouco mais de um ano de trabalho, durante o qual foram coletados 17 depoimentos sobre as perseguições político-ideológicas, as restrições à liberdade e as torturas ocorridas no município ou que atingiram juiz-foranos durante o Governo militar.
A documentação áudio-visual será repassada pelo ex-deputado à Comissão Nacional da Verdade.
Os casos do padre Burnier e de Gabriel Pimenta foram citados pelo próprio Gilney, que na década de 1970 passou sete anos e três meses preso na Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora. "Sou juiz-forano. Na verdade, sou mais linharense do que juiz-forano", brincou. Segundo ele, iniciativas como o comitê de Juiz de Fora, assim como os outros que surgiram em todo o Brasil, mostram que há um movimento em todo o país pela revelação das histórias dessas vítimas "não oficiais". Por mais que se argumente que o assassinato do advogado juiz-forano, por exemplo, tenha ocorrido já nos últimos suspiros do regime ditatorial, após a Lei da Anistia, ele se enquadra – assim como os confrontos enfrentados pelos camponeses do Pará – no que é preconizado pela Comissão da Verdade: investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil.
"Há um clima no Brasil de contar essas histórias. A ideia é buscar a história dos que sofreram, aquelas que não foram contadas", declarou o diretor de Promoção dos Direitos Humanos da mesma secretaria, Gabriel dos Santos Rocha (Biel, PT). A tarefa, porém, ainda esbarra em dificuldades. Vinte e cinco anos depois de publicar o relato "Memorial da prisão política", Gilney pensou em reeditá-lo e voltou a Linhares a fim de ver como estava a penitenciária após esse tempo. Lá, pediu acesso à sua ficha carcerária. Achou apenas uma pasta vazia, como vazias estavam as de diversos outros presos políticos de sua época. "Perguntei: ‘O que vocês fizeram com elas?’. E o encarregado me respondeu: ‘Nós não fizemos nada. Eles levaram tudo logo depois que vocês saíram daqui’", relatou. "Fizeram isso para que, 25 anos depois, eu não pudesse ter memória da minha vida. Quem fez isso era gente que pensava uma década para frente. Isso não é coisa de uma pessoa, de um indivíduo Só o sistema é que pensa assim."









