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Internet reforça ação do jovem na política


Por Fernanda Sanglard

27/12/2012 às 07h00

Guilherme Imbroisi, Débora Gonzales e Douglas da Silva,representantes das gerações Y e Z

Guilherme Imbroisi, Débora Gonzales e Douglas da Silva,representantes das gerações Y e Z

Pintar o rosto é uma brincadeira praticada por crianças de qualquer parte do mundo, mas a transformação desse gesto em protesto e atitude política marcou no Brasil um grupo de jovens que atuou em defesa do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Vinte anos depois, as atuais gerações – como as chamadas Y e Z – usam a tecnologia para expor suas ideias ou participar de algum movimento. Não nasceram com celular no ouvido e tablet na mão, mas esses aparelhos estão muito mais próximos do berço do que para os "caras pintadas", nascidos no início da década de 1970 ou antes disso (seja qual for o título que se dê para os integrantes das gerações revolucionárias, X e baby-boomers). Com as novas possibilidades de interação proporcionadas pela internet, muitos dos que hoje estão na faixa dos 12 aos 29 anos fazem política on-line.  Mas será que a tecnologia mudou o comportamento político da juventude?
Para estudiosos do assunto, apesar da crescente desvalorização de instituições tradicionais, como os partidos políticos, outras formas de participação não-convencionais têm atraído a juventude, como a atuação em associações comunitárias, grupos religiosos e artísticos, entre outros formatos. E esse engajamento também é uma forma de exercer a cidadania e participar politicamente, como revela a pesquisa nacional "Retratos da juventude brasileira", publicada pelo Instituto Cidadania e pela Fundação Perseu Abramo.
Organizadora do livro, a socióloga Helena Wendel Abramo, que é assessora da Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-geral da Presidência da República, explica que as novas tecnologias colocam outras possibilidades de participação e expressão política, seja por meio das redes sociais, das petições on-line ou de outros espaços de informação e interação. No entanto, ela não acredita que o engajamento na rede elimine as formas tradicionais, como os movimentos nas ruas. "São espaços que se combinam."
"Certamente os jovens de hoje têm capacidade de usar a tecnologia a favor da participação de forma mais rápida e intensa. A temporalidade ganha outra dinâmica e existe a capacidade de expansão territorial. Mas não consigo imaginar a participação via web como substituta à participação mais direta. Elas têm dinâmicas diferenciadas, no entanto, representam a convergência de movimentos e canais mais clássicos buscando mecanismos das novas tecnologias e vice-versa", explica a socióloga.
Helena também esclarece que a melhor forma de tentar compreender a juventude e sua relação com a política é não ficar focado apenas na comparação com o que foi realizado por outras gerações. "A chave das possibilidades de pensar a participação dos jovens é a mesma daquela que a gente tinha na década de 1990. É preciso olhar os modos de organização e participação dos jovens deste período não em comparação com as gerações anteriores, mas em função das questões que estão colocadas nesta conjuntura histórica. Faz pouco sentido buscar saber se participam mais ou menos, vale mais procurar quais questões mobilizam os jovens, que tipo de tema faz com que eles queiram interferir."

Iniciativas buscam estimular envolvimento

Ainda que use, e muito, a internet para integrar movimentos, acompanhar notícias e fazer contatos, o envolvimento da estudante de pedagogia Débora Gonzales (Geração Z), 18 anos, com a política ainda tem traços bem tradicionais. "A internet veio para ajudar e auxilia muito as coisas, em qualquer área, o que não é diferente na política. Hoje, temos mais possibilidades, como participar de abaixo-assinado eletrônico, reivindicar alguma coisa, trocar informações com pessoas dos grupos que fazemos parte. Mas ela não substitui tudo."
Débora foi vereadora mirim aos 14 anos, atuou nos movimentos estudantis e participou como candidata a vereadora "de verdade" – pelo PSB – nas últimas eleições, integrando o time dos mais novos no páreo. "Quando fui vereadora mirim, estudava na Escola Estadual Francisco Bernardino e já me interessava por política. Um dia vi no site da Câmara o projeto e comentei com a diretora. Eles aceitaram inscrever a escola, e eu me candidatei. Posso dizer que sempre participei politicamente, mas algumas vezes senti falta de mais apoio da escola. Acho que falta estímulo para que haja maior envolvimento, para organizar as agremiações estudantis, por exemplo."
 Apesar de toda a força da internet, o papel das instituições de ensino no processo de iniciação política é crucial na avaliação do professor de filosofia Francisco Juceme Rodrigues. Nesse sentido, um programa que tem rendido bons resultados na cidade é a Câmara Mirim (realizada pela Câmara Municipal), que busca incentivar a compreensão e o envolvimento dos jovens nas atividades do Legislativo. Os eleitos vereadores mirins não só atuam fazendo proposições para os temas em voga, como têm o papel de levar para as comunidades escolares o dever de casa. "A participação política é como a célula-mãe do sentido de educar. Por isso, o entendimento de que o aluno é um protagonista na escola deve prevalecer, para que ele possa contribuir com a construção de um espaço democrático não só na instituição, mas nos outros setores da sociedade", contextualiza Juceme, que é docente do Colégio Santa Catarina e coordenou a participação da escola na Câmara Mirim.
 A experiência vivenciada por Douglas Washington da Silva (Geração Z), 17, confirma o que é defendido pelo professor. Ele é militante do PSTU e diz que, apesar de gostar de política desde quando era criança, sua interação maior ocorreu quando entrou no ensino médio no Instituto Estadual de Educação (Escola Normal). Nesse sentido, o colégio teve papel importante. "Os professores estimulavam o debate político. Hoje nós temos mais abertura, ainda que não seja a ideal, porque não vivemos a ditadura militar, mas enfrentamos a ditadura capitalista." Acostumado a participar de movimentos populares, Douglas discorda da visão de que os jovens de hoje não são engajados. "Pode ser diferente, mas há quem participe. Eu mesmo integrei a manifestação contra o aumento da passagem e de apoio aos professores em greve, e vou participar de qualquer outro ato em defesa dos estudantes e dos trabalhadores ."
 

 

Diversidade é a marca desta geração

Ao contrário dos jovens que são militantes partidários, há grupos que preferem não manter vínculo com qualquer partido. É o caso do Manifesta, um coletivo que reúne amigos em prol da causa social. Integrante do grupo, o estudante Guilherme Imbroisi (Geração Y), 20, explica que o Manifesta surgiu após o encontro de três pessoas em uma viagem, juntamente com a vontade de criar algo que servisse para os jovens. "O projeto Manifesta virou uma rede de apoiadores que se juntam para fazer coisas que julgamos serem boas para a sociedade." Apesar de não ter vínculo partidário, ele é enfático ao afirmar: "Temos atuação política."
A compreensão de Imbroisi sobre o papel social exercido pelo grupo, que tem fan page na rede social Facebook e faz uso da internet para decidir iniciativas, mobilizar colaboradores, criar parcerias e divulgar ações, é a chave de um novo movimento que se desenvolve já há algum tempo. Por isso, a socióloga Helena Wendel Abramo pondera que a descrença na política não pode ser considerada como único elemento responsável pelos novos formatos de atuação. "Após o processo de redemocratização, vivemos um momento de revalorização da atuação partidária, que encontrou limites. Há uma percepção de que nem todas as questões se resolvem através do partido. Não quer dizer que não se acredite nos partidos, mas que muitos coletivos não encontram lugar neles. Mas há momentos em que alguns desses grupos se conectam aos partidos, como durante as eleições. A questão partidária não dá conta de todas as múltiplas necessidades de organização, participação e expressão de questões. Mas acho que ela não se opõe a outras manifestações. Uma coisa não ocorre em detrimento da outra."
Conforme Helena, neste momento há novas questões e diferentes tipos de sujeitos buscando fazer intervenção no espaço público ou nas questões de resolução pública. "Há algumas coisas que se mantêm, como a mobilização estudantil. Mas as questões abordadas por eles também se transformaram. O desafio é buscar compreender a diversidade." A socióloga pontua que o traço mais característico deste nosso período talvez seja a maior visibilidade e espaço garantidos à variedade de tipos de atuação e participação.
"Até um tempo atrás a gente conseguia visualizar e produzir interlocução com número limitado de atores juvenis. Hoje há diversidade maior de atores e questões. São muitos os segmentos que buscam se inserir nas questões públicas. Há a juventude rural, a importância do movimento dos jovens negros, das jovens mulheres que se juntam à luta histórica das mulheres, mas agregam questões novas. Há uma série de coletivos que têm colocado assuntos que se relacionam a essas duplas ou triplas condições que envolvem ser jovem", afirma Helena.
Dentre os assuntos que mais mobilizam as gerações Y e Z, Helena também destaca o meio ambiente, que se tornou muito mais importante para esta juventude do que para as anteriores. "Os jovens se organizam para resolver questões que os afetam nesta conjuntura. Daí a importância de buscar compreender que temas novos estão sendo inseridos na pauta."