6 idosos já morreram atropelados este ano

Pedestres, entre eles idosos, se arriscam em travessia fora da faixa na Avenida Getúlio Vargas
Seis idosos já morreram atropelados este ano em Juiz de Fora, sendo três apenas nos últimos 11 dias. O levantamento foi feito pela Tribuna a partir de ocorrências divulgadas pela Polícia Militar entre 1º de janeiro e ontem e leva em consideração, também, as mortes ocorridas nos hospitais. A última vítima foi Aldo da Silva Monteiro, 79 anos. Ele havia sido atropelado na manhã de quinta-feira na Avenida JK, altura do Bairro Francisco Bernardino, Zona Norte. O pedestre chegou a ficar internado no Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ), mas não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada de ontem. A quantidade de pessoas com mais de 60 anos mortas atropeladas na cidade impressiona, principalmente se levar em consideração que elas representam metade das ocorrências (12) desta natureza, segundo o levantamento do jornal. A Polícia Militar reconhece 11 registros no período, o que corresponde às vítimas fatais identificadas no momento dos acidentes. No entanto, a corporação disse não ser possível informar a idade delas.
A situação de vulnerabilidade à qual os idosos estão expostos preocupa as autoridades locais. De acordo com o titular da Settra, Rodrigo Tortoriello, durante a Semana Nacional do Trânsito, entre os dias 18 e 25 deste mês, o assunto será abordado, já que o tema deste ano é “Cidade para as pessoas: proteção e prioridade ao pedestre”. Segundo ele, durante este evento, terá início uma série de ações de conscientização desenvolvidas pela Settra, com duração prevista nos próximos 12 meses, que também atenderá este público. Para ele, as recentes ocorrências são reflexo do aumento da expectativa de vida do brasileiro. “Até há alguns anos, não era comum tantas pessoas mais velhas andando pelas ruas da cidade. Hoje elas estão saudáveis, e há inúmeros idosos pedestres e até condutores de veículos. Só que, com o passar dos anos, o tempo de reação e reflexos deles muda bastante, e esta adaptação à nova realidade de deslocamento leva um tempo. A cabeça está lúcida, mas o corpo não acompanha, então é importante haver adaptações de convivência com o trânsito”, disse Tortoriello. Ainda conforme o secretário, ao longo do ano, diversas ações pontuais já são desenvolvidas, principalmente com os cidadãos acompanhados pelos núcleos de atenção à terceira idade. “No Dia do Idoso, por exemplo (27 de setembro), fazemos abordagens nas ruas. Também ocorrem trabalhos de educação no trânsito. Rodrigo também cita a necessidade de conscientizar os motoristas.
Segundo o comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran), tenente José Lourenço Pereira Júnior, atropelamentos envolvendo idosos ocorrem com frequência, embora seja difícil traçar este percentual em comparação a outras faixas etárias. “Não é incomum atendermos a ocorrências nas quais eles são vítimas de atropelamentos, embora o público mais envolvido seja aquele com idades entre 16 e 35 anos, que é justamente o público que mais está nas ruas.” Por isso, ele também afirma que diversas atividades são realizadas ao longo do dia voltadas a esta população. “Durante a Semana Nacional do Trânsito levaremos um grupo de idosos até a Transitolândia. Além disso, a PM participa efetivamente da Comset (Comissão Municipal de Segurança e Educação no Trânsito), e este tema é amplamente discutido.
Últimas vítimas
No dia 26 de agosto, Manoel Messias de Azevedo, 78, morreu após ser atingido por uma bicicleta, na pista de descida da Avenida Itamar Franco, em frente à Acispes, no Bairro São Mateus, Zona Sul da cidade. O Samu tentou reanimá-lo por vários minutos, mas ele não resistiu, e o óbito foi confirmado no local. Já no dia 31 de agosto, uma mulher, 66, morreu após ser atropelada por um carro no Bairro JK, Zona Sudeste. Ana Maria da Silva Costa foi atingida por um Monza, que teria descido de ré e desgovernado a Rua Cristiano Becker e só parou após chocar-se contra uma parede. A vítima chegou a ser socorrida pelo Samu e foi encaminhada ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), mas não resistiu aos ferimentos. As outras mortes deste público ocorreram nos meses de fevereiro, abril e junho.
‘Direito de participarem da rotina da cidade’
Para o assistente social e gerontólogo José Anísio Pitico da Silva, o fato de esta população ser frequentemente relacionada a acidentes de trânsito reflete e reproduz o despreparo da cidade para lidar com este público. “Os idosos não caem na rua ou são lentos para andar porque querem. Quem tem que mudar não são eles, mas a gestão de política pública. Se faz necessário promover mais campanhas educativas para que o condutor dirija de forma civilizada e que respeite a faixa de pedestres. Situações como a dos últimos acidentes refletem como a cidade é indiferente na oferta de política em benefício a eles. Se faz necessário, cada vez mais, o incentivo de uma educação da sociedade sobre questões do envelhecimento.” Para o especialista, “os idosos querem e têm o direito de participar da rotina da cidade. O problema é que eles estão cada vez mais inseguros, o que os leva a ficar cada vez mais dentro de casa, não apenas em relação ao trânsito, mas também no que se refere à violência”.
Pitico também falou da necessidade de conscientizar o idoso sobre os cuidados no trânsito. Ontem, por exemplo, em poucos minutos, a Tribuna flagrou pessoas mais velhas atravessando fora da faixa de pedestres na Avenida Getúlio Vargas. “Os agentes de trânsito, por exemplo, muitos deles desconhecem a fisiologia do envelhecimento. Também precisam aprender a abordá-los nas ruas. Infelizmente muitas pessoas ainda os tratam no diminutivo, os infantilizam. Idoso não é criança. Isso reproduz esta desconsideração e desinformação que a sociedade tem com este público.”
Conforme Pitico, a forma como a sociedade enxerga os idosos precisa ser mudada, embora ele reconheça que isso leva gerações. “É um trabalho educativo em longo prazo, de berço. Não temos educação pública favorável que aborde situações desta fase da vida. A opinião geral é que velho é feio, está morto. Esta é a linguagem comum. Precisamos mudar este conceito.”
* colaborou Nathália Carvalho









