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Uma luta de mais de 30 anos


Por Táscia Souza

10/04/2011 às 07h00

Victória Grabois do Grupo tortura nunca mais esteva na cidade e falou à Tribuna

Victória Grabois do Grupo tortura nunca mais esteva na cidade e falou à Tribuna

No início dos anos 1970, o militante comunista Maurício Grabois – um dos fundadores do PCdoB -, juntamente com o filho André e o genro Gilberto Olímpio, "desapareceu" na Guerrilha do Araguaia. Quase quatro décadas depois, sua filha, a professora do curso de História da UFRJ Victória Grabois, segue na luta pela abertura dos arquivos da ditadura, a fim de que as cerca de 400 famílias de desaparecidos políticos do país possam enfim saber o que aconteceu com seus mortos. Um dia depois de fazer uma palestra na Faculdade de Direito da UFJF, Victória falou à Tribuna sobre o trabalho do "Grupo Tortura nunca mais" e lamentou a falta de vontade política dos sucessivos governos para passar a história a limpo.

– Tribuna – Como é o trabalho do "Grupo Tortura nunca mais"?

Victória Grabois Com a "redemocratização", as famílias, os ex-presos políticos e as pessoas comprometidas com a luta pelos direitos humanos se organizaram e fundaram o "Tortura nunca mais" do Rio de Janeiro. O grupo entrou com processos para investigar médicos legistas que assinaram laudos falsos de presos políticos assassinados, resultando na cassação de registro profissional de alguns desses profissionais. Com a abertura da Vala de Perus, em 1991, em São Paulo, foram encontradas 1.049 ossadas de indigentes atingidos pelo Esquadrão da Morte e pelo terrorismo de Estado. O Departamento de Medicina Legal da Unicamp identificou as ossadas de três opositores do regime, e as famílias puderam enterrar seus restos mortais. A partir disso – um marco na luta pelo resgate dos mortos e desaparecidos políticos – os familiares passaram a reivindicar de maneira mais incisiva o acesso aos arquivos da ditadura. E em função das pressões, em 1995 o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº 9.140, que declara 136 brasileiros considerados desaparecidos como mortos, dando direito às famílias de solicitar os atestados de óbitos. Mesmo assim, não foi possível comprovar a responsabilidade do Estado por algumas mortes, pelo fato de não terem sido abertos os "arquivos secretos".

– O que tirar de lição desse período de nossa história?

– Os governos civis que sucederam aos governos militares permanecem não promovendo ações investigativas, no sentido de esclarecer os fatos do período ditatorial. Não investigar os atos de violência do passado contribui hoje para a criminalização dos movimentos sociais, o que faz parte da estratégia do neoliberalismo e do modo de produção capitalista. Há mais de 30 anos, as famílias e os grupos de direitos humanos têm lutado pela abertura dos arquivos da ditadura, pelo esclarecimento de todos os fatos, pela localização, paradeiro, identificação dos desaparecidos e responsabilização de todos aqueles que participaram desses crimes.

– A que a senhora atribui as recusas dos governos brasileiros de abrir os arquivos da ditadura, que culminaram no descumprimento, pelo Governo Lula, da sentença dada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos?

– Falta de vontade política. O Brasil descumprindo a sentença da Corte Interamericana demonstra um retrocesso em relação à política dos Direitos Humanos.

– O que se espera do Governo Dilma Rousseff ?

– Que ela cumpra a sentença da Corte e abra todos os arquivos da ditadura. Em visita à Argentina, a presidente Dilma recebeu as mães da Praça de Maio. A nós ela ainda não recebeu (aos familiares de mortos e desaparecidos). Não vamos pedir, queremos que ela nos chame para conversar.

– Seu pai, Maurício Grabois, foi um dos maiores líderes comunistas do país. Como a senhora vê a esquerda hoje no Brasil?

– Um partido de esquerda, o Partido dos Trabalhadores, está no poder há mais de oito anos, fez alianças com forças conservadoras e em nome da governabilidade não implementa uma real política de direitos humanos. E ainda mais: consegue cooptar alguns setores sociais através de financiamentos, o que dificulta a luta dos familiares de mortos/desaparecidos à época da ditadura militar.