60% saem do fundamental sem entender o que leem
Responsável pela maior etapa da educação pública e por 46.567 alunos matriculados em 124 instituições de ensino, a Prefeitura enfrenta desafio que começa com o atendimento dos bebês e estende-se até o último ano do ensino fundamental. Os problemas são grandes porque a cidade sequer tem número de creches suficiente para atender à população. Conforme o Mapa Social de Juiz de Fora, 72,2% das crianças de até 5 anos cujas famílias foram inseridas no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico) – responsável pela inscrição nos serviços sociais voltados à população de baixa renda – estão fora da escola. Ou seja, por escolha familiar ou falta de alternativa, 8.792 meninos e meninas nessa faixa etária não frequentam equipamento público de educação. Outro problema diz respeito à qualidade do ensino fundamental, já que, segundo dados do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da UFJF, cerca de 60% dos estudantes concluem essa etapa sem conseguir desenvolver as habilidades básicas de procedimentos de leitura ou problemas numéricos, como afirma a coordenadora do Caed, Lina Kátia Mesquita.
Segundo estimativa do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) 2012, um aluno da rede municipal de Juiz de Fora custa, em média, R$ 2.500 por ano. O desafio dos gestores é fazer com que esse recurso seja revertido em ensino de qualidade e melhores condições de desenvolvimento. Para começar, é preciso primeiro universalizar o acesso à educação infantil, como atenta o doutor em educação e coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Roberto Oliveira Dias. Apesar de a oferta para crianças de até 3 anos não ser obrigatória, o especialista alerta que é necessária.
Os números oficiais da Secretaria de Educação são menores do que os do Mapa Social e, ainda que não apontem demanda reprimida para crianças entre 4 e 5 anos, indicam falta de 1.774 vagas em creches. Em relação à divergência de números, a secretária de Educação, Eleuza Barboza, explica que o registrado pela pasta leva em conta a procura. Mas o que é apontado pelo Mapa Social intriga a secretária: "Temos que buscar saber onde estão essas crianças e quem são elas." Uma aposta para reduzir a demanda é a construção de sete novas creches, além das 23 existentes. Todos os projetos foram aprovados pelo Ministério da Educação (MEC), contudo, apenas uma creche (no Bairro Dom Bosco) apresenta-se em fase adiantada da obra.
A doméstica Juliana Rodrigues Píccoli, 32 anos, é exemplo de quem enfrentou dificuldade para garantir o direito à educação aos filhos. "Vivendo com um salário mínimo e mantendo a casa sozinha, precisei pagar escolinha para o meu menino até os 2 anos, e só consegui vaga em uma creche depois que recorri ao conselho tutelar. Pouco tempo depois, paguei escola de novo, porque a creche só vai até 3 anos, e as escolas públicas só matriculavam com 6." Com a filha, o tempo de espera foi menor, mas ainda assim ela aguardou cinco meses. "É triste, porque a gente trabalha muito, mora em bairro, ganha pouco e não tem com quem contar. Bom seria se tivesse mais colégio integral."
Coordenadora do Sindicato dos Professores (Sinpro), Aparecida de Oliveira Pinto concorda e reforça que "se o aluno da rede particular frequenta a escola de manhã e faz outras atividades à tarde, a escola pública tem que oferecer isso aos que não têm condições". Atualmente, das 124 escolas da Prefeitura, cinco são de tempo integral. Paulo Roberto considera um avanço a oferta da educação infantil pela Secretaria de Educação – até 2009, o atendimento de 0 a 3 anos permaneceu vinculado à Secretaria de Assistência Social, com caráter assistencialista -, porque ainda não há o reconhecimento legal de que esta é a primeira etapa da educação básica. "No entanto, tem que mudar a visão assistencialista da população, a mentalidade de que a criança vai para a creche ou para o pré-escolar para cortar papel e trabalhar com massinha, como se fosse um depósito de crianças. Não basta só construir e inaugurar uma creche, tem que intervir socialmente e mudar a realidade do lugar onde ela está inserida".
Evasão e defasagem idade/série desafiam a etapa final
Apesar de Juiz de Fora ter atingido as metas estipuladas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a cidade enfrenta hoje o desafio de melhorar seu desempenho – menor do que o de algumas cidades de mesmo porte – frente ao principal indicador de qualidade existente hoje no país (ver quadro). A coordenadora do Caed, Lina Kátia Mesquita, ressalta que, para melhorar o índice, não basta que os alunos tenham bom desempenho em português e matemática. "É preciso garantir permanência na escola e aprendizagem continuada. Talvez, por isso, algumas cidades que começaram antes projetos nesse sentido tenham conseguido melhor desempenho."
No entanto, Lina ressalta que o avanço de Juiz de Fora nas séries iniciais foi expressivo. "As crianças estão sendo alfabetizadas na idade certa. Houve movimento de valorização do primeiro ciclo de ensino fundamental e trabalho importante de acompanhamento e reforço escolar para alunos com necessidades especiais. Essa política precisa ser continuada, e um obstáculo que deve ser superado é a defasagem idade/série e a evasão escolar na etapa final do ensino fundamental."
A coordenadora do Caed alerta para o fato de os alunos ingressarem no ensino médio com defasagem de dois anos. "Eles iniciam nessa fase sem saber qualquer problema que envolva álgebra ou raciocínio abstrato." Lina aponta como prioridade aplicar aos anos finais do ensino fundamental o trabalho desenvolvido nas fases iniciais. "Não se pode pensar apenas em rede municipal, mas numa educação pública de qualidade. E o compromisso que o Município deve ter com o ensino fundamental é entregar o aluno para o ensino médio da rede estadual sem essa defasagem."
Outro impasse enfrentado pelo município é o de não cumprir a Lei do Piso, que estabelece que um terço da jornada dos professores deve ser dedicado a atividades extraclasse. "É impossível falar de educação sem valorização do magistério. Temos professores trabalhando nas três redes e em três turnos para aumentar o orçamento", diz a coordenadora do Sinpro, Aparecida de Oliveira Pinto. Além de remuneração justa, é necessário investir em formação e acompanhamento pedagógico dos docentes. "Incentivar os profissionais que querem fazer a diferença e desenvolver propostas curriculares inovadoras", resume Lina.
Analfabetismo atinge mais de 12.500 juiz-foranos
A cidade ainda tem 12.529 pessoas analfabetas com mais de 15 anos. Proporcionalmente, o índice (3,3%) é maior do que o de Belo Horizonte (2,9%). Se for levado em conta o número de idosos, a porcentagem atinge 10,2% da população com mais de 60 anos. Conforme levantamento do Mapa Social de Juiz de Fora, das 28.041 famílias identificadas pelo CadÚnico, 1.532 (5,5%) são compostas por adultos analfabetos e 6.766 (24,1%) têm analfabetos funcionais. Do total, apenas 1.292 (4,6%) famílias têm algum adulto com ensino superior.
Um exemplo de política que vem dando certo, mas ainda precisa atrair e mudar a realidade de mais gente, é a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que atualmente tem cerca de nove mil matriculados na rede municipal. Foi graças à oportunidade do programa que Júlia Maria Custódio, 93 anos, pôde, pela primeira vez, frequentar a escola. No ano passado, ela começou a cursar o ensino fundamental e, agora, diz saber "escrever e até fazer continhas difíceis".
A aluna da Escola Municipal Dante Jaime Brochado, no Bairro Santo Antônio, diz que aprendeu a escrever o nome com a antiga patroa. "Ela começou a me ensinar a ler, mas não me ensinou a escrever outras coisas porque tinha medo que eu começasse a fazer cartas para algum namorado. Agora conheço todas as letras e escrevo certinho no caderno." O que mudou depois que ela começou a estudar? A resposta é simples: "Tudo", diz Júlia, demonstrando que a educação pode proporcionar inclusão social e dar mais sentido à palavra "cidadania".








