VÍTIMAS DA OMISSÃO


Por Tribuna

05/12/2012 às 07h00

O professor André Gaio, da Universidade Federal de Juiz de Fora, tem insistido – e há muito tempo – na necessidade de um levantamento formal sobre o número de armas não registradas que circulam pelo país. Só a partir daí, na sua avaliação, será possível efetuar novas ações para entender o mapa da violência. Ele não se conforma com informações rasas sobre o tema e pede mais consistência nos estudos, pois só assim será possível aprofundar as medidas para reverter o quadro.

Na segunda matéria sobre a violência em Juiz de Fora envolvendo adolescentes, a Tribuna investiu no acesso às armas, que acirra a violência. Ouviu depoimentos leigos e oficiais e colheu uma afirmação emblemática da madrinha de uma das vítimas: quero saber quem é o senhor das armas. Ela se referia ao personagem do ator Nicolas Cage, que, no cinema, incorpora um traficante de armas, que não se importa com o resultado de seu comércio. O senhor das armas de Juiz de Fora certamente age pelo mesmo caminho, sem levar em conta as dezenas de mortes registradas este ano, a maioria envolvendo pessoas com menos de 25 anos.

A venda de armas ilegais tornou-se um flagelo nacional. De janeiro a novembro deste ano, segundo dados da Polícia Civil, 389 armas foram periciadas pela Seção Técnica Regional de Criminalística da 1ª Delegacia Regional. Os dados envolveram também outros 25 municípios da região, dando uma média de uma arma por dia. Com acesso fácil, os jovens, ainda marcados pelos apelos de grupo, tornam-se autores e vítimas desse flagelo.

Tanto na edição de ontem quanto na de domingo foi possível verificar que entre as diversas opiniões há consensos, sobretudo em torno do que motiva os jovens. O professor Wendencley Alves, da UFJF, aponta que a cultura da violência é motivada por três formas de omissão: omissão diante da violência das forças do Estado contra populações marginalizadas, omissão diante da violência que representa a exclusão e o esquecimento social e omissão da violência entre os grupos em confronto com a lei. Mesmo assim, o Estado não avança, mostrando-se inepto para inverter o jogo, ao mesmo tempo em que a sociedade raramente se indigna, aceitando como rotina esse grave desvio de percurso.