VAREJO POLÍTICO
Os dados apresentados pelo Comitê de Cidadania/Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Juiz de Fora sobre a Câmara Municipal, sobretudo no volume de ações de iniciativa do Governo, não surpreende, pois retrata apenas em escala municipal o que já ocorre nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Num sistema de coalizão, o poder de agenda do Executivo é bem mais expressivo e, na troca de iniciativas, pesa mais quem tem a caneta à mão. Na maioria das vezes, vereadores, deputados e senadores, se não se adaptarem a essa perversa realidade, ficam impedidos de aprovar seus projetos, ainda mais se estiverem sentados no banco da oposição.
O sistema brasileiro é um presidencialismo com feições parlamentaristas, mas a decisão acaba sempre na mão do presidente, governador ou prefeito por conta da maioria que conseguem em plenários. Em função disso, há um jogo desigual, embora a lógica democrática aponte para o equilíbrio entre os poderes, como contrapesos que se regulam. Em tese é assim. Na prática, nem tanto. Os partidos fazem suas composições e se submetem ao poder de olho única e exclusivamente em cargos. Os executivos, por sua vez, em busca de maiorias, aceitam composições de toda a sorte sem levar em conta o viés ideológico ou algum tipo de identificação programática.
Quando presidente, o tucano Fernando Henrique teve praticamente os mesmos aliados que se mudaram de mala e tudo para o período petista de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, bastando apenas um aceno de espaços no poder. Como a legislação é frágil, não impondo restrições mais sérias, o que se criou foi um balcão de negócios, onde o Governo se submete aos anseios da base e esta vota todas as demandas que lhe forem encaminhadas pelo Executivo.
É fato que não há justificativa para algumas ações ou inações, mas aí cabe mais ao eleitor definir quem será seu representante, votando em torno de qualidade e não de interesses pessoais. Em agindo de olho apenas nas suas demandas, não será diferente dos políticos que atuam sob o viés pragmático do é dando que se recebe.










