CICLO DAS ÁGUAS


Por Tribuna

28/09/2011 às 07h00

Faltando menos de três meses para o ciclo crítico das chuvas, os investimentos para ações preventivas são mínimos. Em boa parte, continuam retidos em Brasília sem que seja dada uma explicação convincente. O vizinho Rio de Janeiro, segundo denúncia do matutino O Globo, ainda não recebeu um tostão dos R$ 76 milhões que estão definidos no Orçamento de 2011 ao apoio de obras preventivas. Em escala nacional, o Governo destinou R$ 296 milhões ao Programa de Prevenção e Preparação para Desastres Naturais, mas apenas 22% da verba, o equivalente a R$ 66 milhões, foram liberados. A burocracia de Brasília, não é de hoje, tem um olhar distinto das demandas nacionais. Houve um tempo em que se dizia que havia dois brasis: o real, onde tudo acontecia, e o da Capital Federal, que era uma maravilha só ao olhar dos políticos.

É fato que muita coisa mudou, mas como se trata de uma demanda reprimida de tantos anos, tudo o que for feito agora ainda é insuficiente para recuperar o tempo perdido. Com as chuvas cada vez mais intensas e nem sempre na época exata, basta ver Santa Catarina, que, em pleno inverno, enfrentou tempestades, não dá para estabelecer o momento adequado para liberação dos recursos. A tragédia da região serrana foi fruto de anos de leniência, sob o velho argumento de que as medidas preventivas estavam em dia. Mas não estavam; e o pior, depois da tragédia, foi constatado que o pouco que foi repassado não chegou às áreas que precisavam. Parte dos recursos foi desviada para terceiros.

A prevenção ainda não faz parte da cultura brasileira. Vira e mexe, o país é surpreendido por fenômenos que, mesmo não estando dentro de previsões, poderiam ser evitados. A infraestrutura das cidades brasileiras é precária, e a comunidade não se conscientizou do seu papel. As encostas continuam entulhadas de lixo, e o entupimento de bueiros é uma rotina. Como as chuvas estão chegando, a melhor opção é acelerar a liberação de recursos e retomar campanhas de apelo popular, mostrando que os fenômenos naturais podem, pelo menos, ser absorvidos se houver preparação. Caso contrário, há sempre a possibilidade de novas tragédias, mesmo sendo muitas delas previamente anunciadas.