FORA DE CONTROLE
Entre os vários conselhos ao príncipe, Maquiavel recomendava boas leis e boas armas como instrumento de manutenção da ordem e da própria participação da sociedade nas demandas do Estado. Em sociedades como a americana, o preceito é seguido à risca: há leis e também há armas em profusão, como um direito do cidadão de zelar por sua segurança. Como consequência, abriu-se um debate permanente sobre essa liberalidade, sobretudo após o massacre do Colorado, no qual o estudante James Holmes matou 12 pessoas e feriu cerca de 50 durante uma sessão de cinema. Os candidatos a presidente foram instados a opinar, mas preferiram o silêncio a se manifestar diante de questão tão polêmica. Pesquisas recentes indicam que a sociedade, a despeito de tantos casos, mantém a postura de não haver controle, pois cada um deve cuidar da própria vida.
Há uma questão cultural que difere os EUA de outros países, como o Brasil. Aqui, a população também preferiu manter aberto o comércio de armas em plebiscito em 2005, mas está em vigor, desde 2003, o Estatuto do Desarmamento, que obteve resultados positivos na retirada de armas sob controle da população. A questão nacional são as armas sem qualquer registro que abastecem o mercado do crime sistematicamente. Por mais que atue, o Estado ainda não conseguiu retirá-las das ruas, dando margem ao debate frequente: enquanto os cidadãos entregam as suas, os bandidos se armam cada vez mais.
Esse dilema é recorrente na discussão, mas é fundamental que a sociedade perceba, ao contrário da americana, que o Estado tem forte responsabilidade no combate à violência e na segurança da população. Falta-lhe, em várias instâncias, competência para levar esse serviço adiante, mas o foco é outro. As polícias carecem de estrutura e de aperfeiçoamento, a fim de mudar alguns dados estatísticos preocupantes. Em cidades como Rio e São Paulo, o grau de letalidade das forças é seis vezes maior do que nos EUA. É necessário discutir as causas, pois a sociedade acaba vendo os agentes com desconfiança, quando deveria ser exatamente o contrário.










