JOGO DE PODER


Por Tribuna

18/10/2011 às 08h00

O loteamento de cargos nas instâncias de poder, fruto de acordos políticos próprios do sistema vigente no país, onde uma só legenda não tem meios de governar, carecendo de aliados, muitos deles sem qualquer identificação ideológica, é uma das fontes dos escândalos sistemáticos da República. A formação dos ministérios e das demais instâncias foge ao controle, pois sua composição, quando se faz o acordo com porteira fechada, fica por conta das próprias legendas. E como muitos membros da base passam por desconfianças éticas, não há surpresa quando os problemas ocorrem.

Pode não ser o caso em foco, quando um ministro de Estado é acusado por um policial de ter recebido propina numa das garagens do Ministério, e o principal programa continua sob investigação da Polícia Federal. Mas não há identificação direta com a presidente, que manteve a legenda à frente do Ministério dos Esportes por força das urnas e das pressões do ex-presidente Lula. Dilma, em visita à África, não terá nenhum constrangimento em fazer, se for necessário, algum tipo de mudança. Além disso, o ministro ainda sofre com o fogo amigo. Sua pasta, antes o patinho feio da Esplanada, é uma das mais ambicionadas, inclusive pelo próprio partido da presidente, em razão de eventos de porte como a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016.

A solução dada pelo ex-presidente Itamar Franco no caso Hargreaves – acusado de improbidade ele se afastou, provou a inocência e voltou ao cargo – seria a melhor solução, mas não será esse o caminho a ser seguido. Orlando Silva vai sangrar no cargo, mesmo com o aumento das denúncias envolvendo o Ministério. Ao pedir investigações da Procuradoria da República e da Polícia Federal, ele considera ter cumprido o ritual que dele se esperava, mas não é suficiente, como também erra ao desqualificar o delator. O argumento utilizado é pífio, pois é rotina de defesa desqualificar o acusador, quando, na verdade, o que está em jogo é a denúncia. Bandido ou não, o policial fez uma acusação grave, e o que o ministro tem que fazer é provar solidamente que ela não procede.