VIDA E ARTE


Por Tribuna

20/10/2012 às 07h00

A vida imita a arte ou esta repete, no seu simbolismo, a vida? A novela Avenida Brasil, cujo último capítulo foi ao ar ontem – interrompendo a rotina do país -, explicitou a ascensão da Classe C na escala social, ao mesmo tempo em que soube capturar o inconsciente coletivo do sucesso, como o do ex-jogador Tufão, que, mesmo não abrindo mão de seu lado rude, tornou-se uma referência para os demais moradores do sinestésico Divino. O autor João Emanuel Carneiro mostrou que há vida além da charmosa Zona Sul do Rio de Janeiro, numa ode à baixada, mesmo ignorando seus problemas, como o tráfico de drogas e a consequente violência. Esta ficou restrita a grupos, como numa tragédia grega, na qual os personagens mudam de acordo com as circunstâncias.

A despeito de tal omissão, é possível tirar lições de uma novela que parou o país. Revelou a insanidade humana pelo jogo fácil do poder e a busca sem censura pelo dinheiro, ao mesmo tempo em que explicitou o sentimento ético da comunidade quando busca por justiça. E aí está a chave do sucesso: o povo, ante as mazelas, não tolera o ilícito e reage quando é possível virar o jogo.

Na vida real, é possível ver essa catarse nas condenações do ministro Joaquim Barbosa, no julgamento do mensalão. A cada sentença, ele reverbera o sentimento coletivo de insatisfação com o modo como se faz política no país. Quando teve chances, a população se mostrou, ela própria, disposta a fazer essa correção de rumos ao ir para as ruas e clamar pela ficha limpa.

Na verdadeira Avenida Brasil, ainda há um longo caminho a trilhar, mas é possível ver que há avanços na legislação e nas decisões dos tribunais. Trata-se de um caminho longo, porém, sem volta.