Sob o mistério do lirismo
Distrito de Valença, Conservatória carrega não só o legado arquitetônico do Ciclo do Café como a herança cultural do período. A tradição seresteira que fez a fama dessa localidade nasceu nas propriedades cafeeiras. Professores de violino eram trazidos à região para ensinar música às filhas dos fazendeiros. Para preencher as noites de ócio, os mestres começaram a se reunir para tocar juntos sob as sacadas dos casarões, criando uma prática que já dura 133 anos. Ainda hoje, nas noites de sábado, os seresteiros percorrem as ruas, atraindo a curiosidade dos visitantes.
Pode-se dizer, aliás, que Conservatória veste sua fama de seresteira de todas as maneiras possíveis. Na fachada das casas, placas com o nomes de canções criam uma identificação peculiar para cada residência. Obtido recentemente, o registro de Patrimônio Imaterial do Município, permite que essa atmosfera não seja perturbada por carros de som com música alta ou outros ruídos indesejáveis. Além das serenatas propriamente ditas, o único som a invadir as ruas de Conservatória vem das vitrolas dos dois museus de Wolney Porto, instituições que ajudam a credenciar a localidade também como "terra dos sonhadores".
Dono de uma coleção de 16 mil discos de vinil e 30 mil partituras, o produtor teatral é criador de casas dedicadas à memória de artistas como Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e Guilherme de Brito, mantidas com o módico ingresso de R$ 1 e com a colaboração da Prefeitura, que paga o aluguel dos imóveis. Fã ardoroso dos astros da Era do Rádio, Porto reuniu um impressionante acervo desses cantores. Entre centenas de peças de vestuário, objetos pessoais e fotos, destaca-se o acervo do cantor Vicente Celestino, que inclui figurinos originais de suas peças e filmes e as roupas de seu casamento com a atriz e cantora Gilda de Abreu, em 1933. O colecionador, entretanto, reluta em eleger sua peça mais importante. "Até um grampo para mim é relíquia", resume.
Uma visita ao quintal do delegado Ivo Raposo faz com que o visitante redefina alguns conceitos. Sonhos improváveis não são impossíveis: é a conclusão natural da maioria dos turistas ao se deparar com a réplica em miniatura do Cine Metro Tijuca, que Raposo construiu nos fundos de casa, com direito a peças originais, dos projetores aos assentos. Construído para realizar um sonho de infância e para receber amigos, o Cine Centímetro atualmente tem sessões aos sábados, com agendamento prévio. Nessas ocasiões, Raposo recebe as pessoas para contar sua história de paixão pela sétima arte e exibir uma compilação de cenas e trailers de filmes da era de ouro dos Estúdios Metro-Goldwyn-Mayer. Em muitos aspectos, a juventude do delegado se confunde com a do garoto Totó, do clássico "Cinema Paradiso". Como o protagonista do filme de Giuseppe Tornatore, Raposo também trabalhou na cabine de projeção de um pequeno cinema, com direito a censura prévia de um padre, que picotava os momentos considerados mais picantes. "Depois disso, nunca mais trabalhei profissionalmente com cinema, mas a paixão nunca me deixou", declara.
Outro morador que se dedica a sua paixão em Conservatória é o dentista Moacyr Sacramento, que há dez anos mantém a "Casa do poeta", local onde expõe os quadros de sua mulher, Marinete Quinelato Sacramento, muitos deles ilustrando seus versos e capas de livros. "Nossa arte simplesmente se junta." A vida tranquila e a atmosfera local fizeram o casal trocar a vida em Niterói por Conservatória, uma decisão explicada em versos: "Conservatória pertence/ à dimensão da magia,/ onde não há quem não pense/ em forma de melodia."
Quem estiver hospedado nas fazendas do Vale do Paraíba também tem a oportunidade de usufruir as atrações de cidades como Valença. No passado, os barões do café circulavam pelas ruas do município nos finais de semana. Era de hábito da época manter residência na cidade em prol do convívio social e da proximidade com instituições do poder político. Alguns casarões ainda estão de pé e dão seu testemunho dos tempos áureos.
O imóvel que abriga a Fundação Cultural e Filantrópica Léa Pentagna tem uma história diferente. O passado do palacete em estilo eclético liga-se à imigração italiana do final do século XIX. Foi nessa época que a família Pentagna chegou à Valença para explorar a então crescente indústria de tecidos. O visitante pode conhecer o interior da residência, ornamentada com mobília de época e telas de artistas como Iberê Camargo. O casarão também guarda o acervo de 1200 livros do poeta Vitto Pentagna, irmão de Léa. Doada em testamento ao município, a casa é mantida com os aluguéis de imóveis deixados por Léa.
Próximo dali, a Catedral de Nossa Senhora da Glória, mantém um museu de arte sacra. Lá estão peças como a imagem original da padroeira da cidade, de 1817, encomendada por um imigrante português para agradecer a cura de seu único filho. Margeando a colina está o Jardim de Baixo, projetado pelo paisagista francês Auguste Glaziou, provável autor do traçado do parque do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, e da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Para completar o trajeto, e conhecer melhor os tão falados barões do café, vale ainda uma visita à galeria da Santa Casa, que guarda uma coleção de pinturas a óleo e retratos de personalidades que fizeram a história da região e do Império.









