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Mudando jeito de ler


Por Amanda Fernandes

10/07/2011 às 07h00

 

O folhear de páginas está mudando. Ao toque de um dedo em um fino aparelho eletrônico, já é possível ter uma verdadeira biblioteca ou mesmo sua própria banca de jornais e revistas. Pela facilidade de interação e por sua capacidade de armazenar diversos tipos de arquivos e interfaces gráficas, as novas plataformas tecnológicas têm se mostrado um campo amplo para a literatura. Embora se pareçam com os e-readers (leitores de livros digitais), os tablets já representam 1 % do acesso à internet mundial, segundo relatório divulgado na última quarta pela empresa americana NetMarketShare, e vêm mudando a forma com que muitas pessoas encaram a leitura.

 

 

O processo de transposição de um título para o digital está sendo cada vez mais automático no universo editorial. Conforme o diretor-executivo da Singular Digital (braço da Ediouro), Newton Neto, todos os livros a serem lançados já estão saindo com a opção em papel e digital – salvo aqueles com restrição contratual. Porém, o executivo afirma que este novo tipo de leitura ainda está engatinhando no Brasil, apesar de muito difundido em países como os Estados Unidos. "A Amazon tem um acervo de mais de um milhão de títulos em e-book, enquanto que por aqui não contamos com cerca de dois mil. Por ser algo muito novo, as editoras ainda estão se adaptando."

 

 

Entretanto, a promessa é que este mercado cresça no país a partir do final do ano, quando a gigante Amazon deverá aportar em terras brasileiras com seu capital e experiência como maior empresa varejista eletrônica e líder do mercado editorial americano. Com esta promessa de aquecimento no mercado, Neto afirma que as maiores possibilidades para adequação ao novo modelo estão nas publicações infantis. "Temos como bom exemplo os livros da Disney. É possível narrar a história para seu filho e guardar esta gravação para que ele possa ouvi-la mais tarde, tirar a cor das ilustrações e deixar a própria criança colorir como quiser. E também notamos que os menores têm menos resistência a substituir o papel pela tela."

 

 

 

Apresentado ao mundo no ano passado, o tablet é um computador em forma de prancheta eletrônica. Não possui teclado e tem tela sensível ao toque. Embora o iPad, da Apple, seja o modelo mais cobiçado e conhecido, uma série de outras marcas disputam o mercado com seus lançamentos, como o Galaxy Tab, da Samsung, ou o Inspiron Duo, da Dell. Assim como alguns celulares, a exemplo do iPhone, eles desempenham inúmeras outras funções, dentre elas a possibilidade de veiculação digital de livros ou revistas.

 

 

A escritora e colunista do jornal "O Globo" Cora Rónai exalta as possibilidades de interação com o texto nos tablets. Ainda que mantenha a leitura de jornais e revistas em papel, Cora indica títulos como "The elements", que aborda a tabela periódica, publicado na plataforma pela revista "National Geographic", e a edição eletrônica do "Alice in Wonderlands" como exemplos bem-sucedidos de adaptações à nova mídia. "Um livro como ‘The elements’ eu jamais leria em papel. Mas sem o uso das possibilidades oferecidas pelo formato, não vejo qualquer vantagem na leitura em tablets."

 

 

Já o diretor comercial da empresa juiz-forana E-mídia, Diogo Garcia abandonou livros, jornais e revistas impressas depois que adquiriu seu iPad. "Com alguns aplicativos, posso agrupar uma infinidade de títulos por interesse e levá-los para qualquer lugar. Acredito que essa seja a principal vantagem. Não preciso ficar carregando peso." O professor de história Marcelo Gulão Pimentel, apesar de ler livros e artigos constantemente na plataforma, não pretende deixar de lado a leitura tradicional. "Como amante e colecionador de livros, continuo comprando. O prazer de ler um livro é muito maior que utilizar a tela fria. Mas não há como negar as facilidades de acesso a títulos no tablet, já que podemos baixar um livro e tê-lo imediatamente em mãos, sem precisar ir à livraria ou encomendar pela internet."

 

 

 

 

 

Nova forma de ver o texto

 

 

Na opinião do professor de literatura e novas tecnologias da Faculdade de Letras da UFJF, Rogério Ferreira, a nova tecnologia irá proporcionar mudanças na literatura tanto para o autor quanto para o leitor. "O autor, quando pensar em fazer um poema, por exemplo, já pode se valer com mais intensidade do recurso visual, ou sonoro, antes impensado no papel. E isso é fantástico. Já para o receptor, o digital garante mais interação com o corpo, novas formas de usar o tato na tela."

 

 

Para a professora da Faculdade de Pedagogia da UFJF, Maria Teresa de Assunção Freitas, especialista em novas tecnologias ligadas à educação, o tablet garante possibilidades de ampliar a experiência da leitura, com a utilização de hipertextos que levam o leitor a buscar novos conteúdos sobre determinado ponto. Entretanto, para Rogério Ferreira, este pode ser um dos pontos negativos da plataforma: por garantir mais agilidade e formas de distração do texto em si, este tipo de leitura pode comprometer em parte a reflexão. "Se a informação vem muito mastigada e rápida, a pessoa pode não estar pensando por ela mesma. Mas acredito que os aspectos positivos são muito maiores que os negativos. Vejo o tablet ainda como uma porta de entrada para novos leitores, que, talvez ao se deparar com um livro com uma grande número de páginas, pudessem desistir."

 

 

Maria Teresa acredita que a leitura em plataformas digitais, sendo elas o tablet ou mesmo o computador pessoal, é apenas mais uma forma de ler o texto, não havendo prejuízo para o leitor. "A forma de ler é que muda, o correr dos olhos e a luminosidade, mas o texto e as palavras que o compõem são os mesmos. Tendo o gosto pela leitura, não importa o meio. Livro novo, livro velho, computador ou tablet."

 

 

A pesquisadora ressalta que as duas formas se completam. Ela acredita que nenhuma inovação substitui ou acaba com outra, mas afirma ser necessário a escola se preparar para esses avanços. "É imprescindível aprender o manuscrito, que nunca vai desaparecer, mas a escola deve ser um local para inclusão digital e ser multimodal. Não se pode ignorar esse crescimento e deixar de formar o aluno para este mundo." Rogério também argumenta a favor da inserção da leitura tecnológica na formação escolar. "Os relatos que temos das escolas é de que os alunos já estão totalmente inseridos no mundo tecnológico. O desafio do professor é estar em contato com essa nova realidade."

 

 

 

A revista "Superinteressante" é um dos casos de publicações nacionais disponíveis para os usuários de tablets que não abandonaram a versão impressa. "Os infográficos característicos da ‘Super’ agora podem ser acessados pelo leitor na nova plataforma e por ele mudados de lugar, ampliados, dando a opção de ver como desejar o conteúdo disponibilizado", explica o diretor de redação da revista, Sérgio Gwercman.

 

 

Segundo ele, o advento na nova tecnologia tem alterado a forma de pensar o conteúdo a ser veiculado na revista. "A grande diferença hoje é a maneira como pensamos a pauta. Agora incluímos o tablet no raciocínio. Nos perguntamos como incorporar a ferramenta nas matérias no momento em que ela surge e não no final."