Sobre marcas, escolhas e impactos
Uma marca que se escolhe fazer não aparece por acaso. É nesta linha de pensamento que o cineasta Hilton Lacerda explica "Tatuagem", seu primeiro longa-metragem de ficção como metáfora. "É algo feito no passado e que se projeta no futuro", prossegue o diretor, fazendo a analogia do título com o filme, que se passa em 1978, mas debruça-se sobre tempos vindouros, que seriam nossa atualidade. "A ideia é pensar de onde vieram estas cicatrizes feitas por opção e o impacto que a decisão por tê-las em algum momento da vida tem no futuro."
Aclamado em cada canto onde foi exibido, "Tatuagem" abocanhou quatro prêmios do Kikito no Festival de Gramado (incluindo o de melhor filme); cinco estatuetas Redentor no Festival do Rio e o Coelho de Prata do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade; e é a grande estreia da noite de hoje no Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades.
Permeada por dicotomias, a produção transita entre a rigidez do regime militar e a anarquia da trupe teatral Chão de Estrelas, entre a crítica política bem-humorada e toda a densidade emocional que pode haver no romance entre Fininha, um soldado de 18 anos, e Clécio, cabeça dos agitadores culturais.
Em entrevista à Tribuna, Hilton Lacerda destaca que as dualidades são essenciais para a compreensão do filme. "Essa dialética me interessava bastante, mas as possibilidades de reflexão a partir do caos do encontro de universos tão díspares me incitaram ainda mais. Não é uma questão de minimizar os embates em si, mas de pensar sobre as transformações inevitáveis que ocorrem a partir deles e seus desdobramentos."
Ambientado entre duas cidades nordestinas e gravado em Olinda e Recife, "Tatuagem" emerge da periferia, narrativa que Lacerda reverencia e domina, e está presente em ‘Febre do rato’ (2011), ‘Amarelo manga’ (2002) e ‘Baixio das bestas’ (2006)" – filmes que ele roteirizou, todos com direção de Cláudio Assis.
Para o diretor, estabelecer este exercício amplia as possibilidades criativas da obra. "Não é uma periferia geográfica, mas uma voz da dimensão humana que discute os acontecimentos da perspectiva da marginalidade, do desbunde, de uma certa corrupção do olhar em detrimento do lugar-comum, e é representada de maneira muito clara pelo núcleo do Chão de Estrelas", conta Lacerda, acrescentando que a trupe da ficção foi inspirada no grupo Vivencial Diversiones, que atuou no Recife entre 1974 e 1983. "Foram personagens que movimentaram intensamente a vida cultural e política, deixaram uma marca profunda na história da cidade por uma via não-oficial".
O velho ‘Brasil novo’
Em tempos de Marco Feliciano, "cura gay" e em um ano em que protestos levaram milhões de brasileiros às ruas em todo o país, as discussões suscitadas por "Tatuagem" têm conexão direta com a contemporaneidade. "Essa ideia de ‘um Brasil novo’ é meio sazonal, parece que surge de tempos em tempos e sempre em um espírito de ‘desta vez vai!’. Em ‘Tatuagem’, o AI-5 tinha caído, um cenário de abertura começava a se desenhar, e transformações fervilhavam por todo canto. Só que o Brasil se gaba de ser liberal, mas, frente às mudanças, mantém posição conservadora – apesar, claro, de ter havido muitos avanços -, e isso anula completamente essa ilusão eterna de ‘país do futuro’", pondera o diretor.
"No filme, parece ser muito mais agressivo a uma parcela do público o fato de haver afetividade na relação entre dois homens, e não o sexo em si. É até aceitável enquanto for uma fantasia, mas nem tudo o é. Isso vem de um moralismo comportamental, contraditório, e que inevitavelmente resulta em uma grande tragédia", completa Hilton.
Premiado nos festivais onde "Tatuagem" já foi exibido, o elenco é afinadíssimo, trazendo o veterano Irandhir Santos (conhecido pelo personagem Fraga, de "Tropa de Elite 2") como Clécio, Jesuíta Barbosa com a grata revelação da interpretação de ‘Fininha’ e Rodrigo García vivendo a transformista Paulete com precisão, sem estereótipos ou cacoetes. Segundo o diretor Hilton Lacerda, o fato de a maioria da equipe ser pernambucana – ele, inclusive – facilitou a compreensão do universo local. "Mas a ideia primordial era trabalhar com pessoas que respirassem o projeto. Passamos seis semanas ensaiando, vivendo todos (núcleos de atores, direção, produção, etc) em uma vila próxima às locações, e essa proximidade foi fundamental."
Ainda de acordo com Lacerda, o trabalho anterior às gravações foi uma etapa decisiva para que cada intérprete pudesse emprestar sua experiência profissional e de vida para os personagens do longa. "Não trabalhamos só com atores, mas com artistas de diversas vertentes. Fora isso, a preparação envolveu uma atuação em vários níveis, porque o teatro de revista não pode ser fundamentado na interpretação naturalista, mas ela também aparece no filme fora do contexto do Chão de Estrelas, então são técnicas de interpretação diferentes e simultâneas."
Tendo dirigido o documentário "Cartola: Música para os olhos" (2006), sobre a vida do saudoso sambista, Lacerda acredita que sua vasta experiência como roteirista de ficção facilitou a transição para o gênero em "Tatuagem". "Meus roteiros são sempre muito detalhados, visuais, e tê-los escrito permitiu um amadurecimento do olhar, que certamente contribui para o meu trabalho como diretor. O que muda com a direção é a autonomia sobre o trabalho e, consequentemente, a maior responsabilidade sobre ele."
Defensor dos festivais como escoamento da "produção extremamente interessante" do cinema brasileiro atual, Hilton Lacerda acredita que a facilidade dos suportes para a criação cinematográfica pode levar a uma banalização dos discursos. "As inovações estão se dando tão rapidamente que não dá tempo de pensar o que é produzido, e, pior, muitas vezes não se pensa para produzir, por isso temos tantos filmes ‘de plástico’. A discussão e a exibição dos filmes fica restrita aos festivais, em que os cineastas podem prorrogar a conversa entre si e com o público."
"TATUAGEM"
De Hilton Lacerda
Hoje, às 20h
Cinemais Alameda
(Rua Moraes e Castro 300 – Alto dos Passos)









