Literatura do corpo
São João del Rei – A noite clara do último sábado não escondeu a contradição. Diante de corpos musculosos que alcançavam a perfeição dos movimentos, os espectadores abusaram da inércia. Mesmo de pé e sob o sereno, não houve cansaço capaz de desviar os olhares. Em uma grande estrutura montada no estacionamento do ginásio do campus Santo Antônio da Universidade Federal de São João del Rei, a Companhia Deborah Colker apresentou a montagem "Tatyana" para cerca de duas mil pessoas no primeiro dia do 24º Inverno Cultural. De boca aberta, a multidão parecia não se importar com o desconforto. "Não faz diferença, o que vale é a chance de assistir a um espetáculo dessa qualidade", disse o ator e produtor juiz-forano Tom Brynner, que encarou duas horas de estrada especialmente para a ocasião.
Deborah não esteve presente no evento. Ela divide seu papel – o do escritor russo Alexander Púchkin – com outro bailarino, que assumiu a função no sábado. "Tatyana" é uma adaptação do romance clássico "Evguêni Oniéguin", publicado em capítulos entre 1823 e 1830. Em sua releitura, a coreógrafa utilizou apenas quatro personagens da obra que ajudou a fundar a moderna literatura russa, recebendo consultoria do crítico e especialista Irineu Franco Perpetuo. Cada figura é representada por quatro bailarinos, exploradores precisos da árvore cenográfica criada por Gringo Cardia. De acordo com Deborah, em entrevista ao jornal "O Globo", sua visão deu a Oniéguin e Tatyana corpos e personalidades diferentes "a fim de construir uma movimentação mais rica".
O projeto é o primeiro da artista baseado em uma história com começo, meio e fim, recheada por duelos, desencontros, paixões e decepções. Apesar das abstrações, a adaptação é fiel ao livro. No primeiro ato, Olga, irmã de Tatyana, oferece-se para o visitante Oniéguin, enquanto seu noivo é morto em um duelo motivado por ciúmes. No segundo, Oniéguin deixa de desprezar Tatyana e passa a buscá-la vorazmente.
Todo e qualquer canto
Tendo passado por incontáveis países, a companhia está disposta a levantar acampamento em todo e qualquer canto. É o que assegura o diretor executivo João Elias. "Nós só precisamos de um palco", disse ele, referindo-se à megaestrutura necessária para os 89 minutos de espetáculo. A iluminação é assinada por Jorginho de Carvalho, e a direção musical, por Berna Ceppas, com composições de Rachmaninov, Tchaikovsky, Stravinsky e Prokofiev. "Só não vou a Juiz de Fora porque a companhia não cabe no Central. Se tivermos condições, chegamos a qualquer lugar. É nosso dever", completou, em entrevista à Tribuna pouco antes da apresentação. De acordo com Elias, poucos coreógrafos brasileiros conseguiram o reconhecimento do povo a ponto de darem autógrafos e serem abordados nas ruas, como acontece com Deborah.
Sobre a situação da dança no país, o diretor atesta que há espaço para todos, já que os públicos são diferentes. Essencial, destaca ele, é colocar o trabalho acima da reclamação. "Quem fala muito perde tempo. É preciso ter persistência", opina, acrescentando que, no início, o grupo não contava com patrocínio. Em 1995, através da Lei Rouanet, a iniciativa passou a receber apoio da Petrobras. "A lei realmente não chega ao interior e tem falhas, mas é uma conquista da classe artística."
Ainda segundo João Elias, as polêmicas sobre a definição de dança contemporânea são dispensáveis. "Tudo o que é produzido hoje é contemporâneo." A mescla, aliás, sempre foi uma constante no trabalho de Deborah. Como diretora de movimento, ela trabalhou com os principais diretores e atores do país, entre eles, Antônio Abujamra ("A serpente"), João Falcão e Marco Nanini ("Uma noite na Lua"). Em 2009, a artista dirigiu o espetáculo "Ovo", do Cirque du Soleil. Para 2012, foi convidada a reunir a Phoenix Dance Theatre e a Northern Ballet, ambas inglesas, para criar uma montagem sobre os conflitos históricos entre o Norte e o Sul da Inglaterra.
Frio e cultura
O 24º Inverno Cultural de São João del Rei, que se encerra no dia 30 de julho, leva peças, exposições, debates, shows e exibições de vídeo para vários bairros da cidade histórica. O tema desta edição é "Sentidos do corpo", uma vereda que perpassa todas as artes. O crítico e escritor Jorge Coli foi convidado a falar sobre o assunto e irá comandar a palestra "O corpo na arte de hoje: entre a frivolidade e a metafísica", no último dia de evento, às 16h, no anfiteatro do campus Santo Antônio. Também no encerramento, Jorge Ben Jor faz um show no Palco Inverno (Av. Presidente Tancredo Neves).
Outros destaques são o Lume Teatro, de Campinas, com o cortejo "Abre-alas" no dia 29, a cantora Elza Soares, o instrumentista Naná Vasconcelos e o maestro Jacques Morelembaum. As bandas Kid Abelha, Capital Inicial e Titãs também marcam presença nas noites frias de São João. Outro evento imperdível, segundo a coordenadora do festival Telma Resende, é a exposição "Sentidos do corpo". Com curadoria do professor Ricardo Coelho, apresenta múltiplas abordagens do corpo na arte contemporânea. A programação completa pode ser acessada no site invernocultural.com.br.









