Ouça agora

Múltiplas interferências para cantar Minas


Por BRUNO CALIXTO

21/04/2011 às 07h00

Tudo começou com uma pitada de curiosidade. Era o dia dos sonhos de uma noiva, que adentrou o altar ao som de Clube da esquina 2, o que, para muitos, soou estranho. Por que alguém se casaria com esta música?, foi o que pensou Patrícia Talem, cantora paulista, responsável pela execução do clássico assinado por Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges, nomes que, de uma vez por todas, entraria para sempre na vida, não só da noiva, como também de Patrícia. Percebi naquele dia que a canção carrega em si uma energia muito forte, destaca, por e-mail, a cantora, que fez questão de inserir o registro no segundo CD, Olhos, lançado este mês.

Tão popular quanto a Tropicália ou a bossa-nova, por que o movimento dos mineiros ganharia destaque na obra de uma paulista? Tenho uma afinidade especial com o Clube. As harmonias, as letras, a própria história e o modo com que as coisas foram acontecendo na época. Acho que as vozes de Milton Nascimento e Flávio Venturini carregam uma memória afetiva muito grande. Faz bem à minha alma ouvi-las, justifica Patrícia, ao esclarecer que não é só na fonte das alterosas que bebe sua musicalidade. Meu primeiro álbum, assim como o segundo, não teve o objetivo de homenagear a música mineira, mas sou fortemente influenciada por ela, diz. Comecei muito cedo a trabalhar como cantora, nos bares de São Paulo, e principalmente em bailes de casamento e formatura. Nesta escola, conheci os mais diversos estilos musicais. Tenho influência da música mineira, do jazz, da bossa e do pop norte-americano.

Para a cantora, todas as nove faixas do álbum são especiais: desde Clube da Esquina 2, interpretada ao lado de Flávio Venturini (e que já está tocando nas rádios), até Nascente, dessa vez em dueto com Jane Monheit. Tem também a valsa-jazz Shadow of love, uma releitura de Presente cotidiano, de Luiz Melodia, e Lua brilhante, versão inédita de Carlos Rennó para Moonglow, de Will Hudson, Edgar De Lange e Irving Mills. Esta última, segundo Patrícia, vem sendo repetida em rádios de alguns países africanos e também em Portugal.

Produzido por Marco da Costa e gravado no Bennett Studios (que pertence ao cantor Tony Bennett), em Nova Jersey, nos EUA , Olhos, ao que parece, não tem a pretensão de isolar Patrícia Talem no limbo das mais bonitas vozes da nova geração da MPB, o que acabou resultando em um disco simpático e receptivo. Como todo bom mineiro, pelo menos, aparenta ser.

Tudo inspira Patrícia. Um telefonema amigo, o olhar da filha, uma canção, um filme, uma árvore. Mas nada é tão relevante para a cantora quanto o seu apreço pela qualidade sonora na hora de escolher o repertório. Me preocupo muito com uma canção em relação ao universo dela, se é masculina, feminina, como deve ser interpretada, dispara e volta a falar sobre Clube da Esquina 2. É uma canção mágica. No dia da gravação, me arrepiei até o último fio de cabelo ao cantá-la, ao vivo, com os músicos. Sei que todos se emocionaram ao tocar também, enfim, esta atmosfera pode ser passada para o ouvinte.