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Ouça o grito


Por BRUNO CALIXTO

25/02/2012 às 07h00

Muito além de um estilo de música independente, o festival Grito Rock vem, a cada edição, transformando-se num campo de formação e integração da cadeia produtiva da cultura. E se a grande pergunta é como faço para inscrever minha banda?, a resposta está na marca de 200 cidades (de 158 países) participantes em 2012, aumentando em 55% o número de realizadores de 2011, quando 130 municípios sediaram o festival, em dez países. Só em Minas e São Paulo, serão 32 cidades, cada, e Juiz de Fora está mais dentro do que nunca. Entre os produtores, 38 estão na Região Sul, 36 são da Região Nordeste, 81, no Sudeste, 13, no Centro-Oeste e 19, na Região Norte.

Da escalação oficial do time de músicos daqui, liberada na última segunda, as atrações são um giro que vai da local Silva Soul às inquietações sonoras da belo-horizontina Graveola e o Lixo Polifônico!. O compositor Di Melo promete matar a vontade do público – à sua espera desde o lançamento de seu vinil em dezembro – e fazer jus ao título de grande estrela da noite, agendada para o dia 1º de março novamente no Cultural Bar. Pelo pouco – porém produtivo – contato que tivemos com ele (Di Melo), foi sempre muito receptivo, comenta o baixista Marcelo Castro (Silva Soul), sobre as expectativas de receber o músico pernambucano. Vamos abrir com as nossas canções para depois chamá-lo ao palco e acompanhá-lo, detalha Castro, para a performance que será a penúltima da noite. O encerramento ficará por conta do Graveola.

Da vontade de quatro músicos influenciados, sobretudo, pelo britpop de Oasis e Radiohead, nasceu o Radiocafé, com integrantes de Cataguases e Juiz de Fora e vaga garantida na seletiva local para abrir o encontro, enquanto o grupo performático Vandaluz, de Patos de Minas, foi escolhido entre os inscritos na disputa nacional. Às formações se juntam os DJs do coletivo Vinil é Arte, para uma participação.

Inteligência coletiva

Realizado há dez anos no Brasil, o Festival Grito Rock só atingiu âmbito nacional a partir de 2007, pois até então só acontecia em Cuiabá (MT), via Espaço Cubo – um dos coletivos que deu origem ao Fora do Eixo. Hoje, o encontro se consolida como uma ferramenta eficaz para promover a circulação de artistas pelo país. O festival, por acontecer de forma concentrada em um período do ano, torna-se uma plataforma em que bandas, artistas e produtores ligam os pontos próximos e conseguem gerar suas turnês, distribuir materiais físicos, apresentar performances, destaca o produtor local Gian Martins. Há, inclusive, cada vez menos intermediação entre banda e produtor. Por exemplo, a banda Vandaluz vai tocar em oito cidades, cita.

As edições de cada local, de acordo com ele, são produzidas de forma interdependente, e tudo, principalmente a logística entre elas, é construído com o propósito de tornar sustentável a circulação de artistas, agentes, produtores, produtos e tecnologias. A previsão divulgada pela organização é de que aproximadamente 250 mil pessoas participem do Grito Rock 2012, que começou no dia 17 de fevereiro e vai até 17 de março.

Na seletiva direcionada a músicos de Juiz de Fora, foram 40 inscrições na plataforma Toque No Brasil (TNB). Cerca de duas mil vagas foram disponibilizadas para o Brasil e o mundo a partir do dia 16 de janeiro. As bandas, conforme informações da TNB, puderam se inscrever para se apresentar em diversas cidades e se organizar para elaborar turnês de pequeno, médio e grande porte. A ferramenta tecnológica, portanto, vem sendo usada desde 2010 para a conexão direta entre produtores e bandas durante o Grito Rock. Em termos de qualidade técnica, (o TNB) já superou o MySpace, pois as bandas que estão surgindo conhecem e acabam preferindo, até pelas facilidades tecnológicas da ferramenta dentro do circuito independente. É muito mais leve e fácil de customizar, e ainda abre canais entre produtores e artistas, observa Ney Hugo, integrante da mídia Fora do Eixo SP.

14 cidades estrangeiras

A julgar pelo reflexo da conexão com diversos países latinos em 2011, este ano, o Grito Rock ampliou a rota e soma 15 países e se estabelece em 14 cidades estrangeiras. Vários representantes da América do Sul e Central participam, entre elas Honduras, Costa Rica, Guatemala, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Honduras e Nicarágua. A presença de um festival que se realiza com total autogestão é uma grande característica da música independente contemporânea do Brasil e da América Latina, analisa, por meio de nota, a produtora argentina Lorena Fernandez, que promove a 2ª edição em Buenos Aires no próximo dia 4.

Ney Hugo comemora o número de edições fora do país, que, em 2012, supera as expectativas e alcança culturas diversas, através de brasileiros que realizam o evento em parceria com agentes locais, como na Cidade do México, Los Angeles e Braga (Portugal). O próprio fato de expandir para 200 cidades faz esta rede colaborativa ter seu crescimento influenciado, sobretudo, pela internet, que encurtou as distâncias, além da mobilização presencial, que acaba atingindo até a grande mídia, endossa Hugo. O cara de Portugal que pretende ir além do Google para pesquisar música, não precisa vir ao Brasil para saber que existe um festival integrado, arremata.

O produtor local Gian Martins destaca campanhas como o Grito.Doc, que consiste na realização de um documentário em que cada episódio é produzido por uma cidade, e a Pós-TV, em que transmissões de shows e debates são feitas em tempo real. Todas produzidas pelos núcleos e frentes geridas pelo próprio Fora do Eixo no site www.gritorock.com.br. Na próxima quarta, inclusive, haverá um debate a ser transmitido, na Casa de Cultura a partir das 18h. A entrada é gratuita.