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Justa homenagem


Por Amanda Fernandes

20/04/2011 às 07h00

'Jornada dos Mártires', de Antônio Parreiras, retrata a passagem dos inconfidentes em Matias Barbosa

‘Jornada dos Mártires’, de Antônio Parreiras, retrata a passagem dos inconfidentes em Matias Barbosa

A Inconfidência Mineira é um dos movimentos mais importantes da História do Brasil. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, tornou-se mártir. Mas outros homens fizeram parte da tentativa de libertar o Brasil-Colônia de Portugal, entre eles, José de Resende Costa, João Dias da Mota e o juiz-forano Domingos Vidal de Barbosa Lage. Amanhã, os três terão seu enterro tardio. Serão sepultados no Panteão dos Inconfidentes, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Ao todo, 26 pessoas estão associadas à Inconfidência Mineira e têm seus nomes registrados no local. Destes, 13 tiveram seus despojos identificados e estão sepultados no lugar de homenagem. Na cerimônia, será entregue ainda a Medalha da Inconfidência, da qual a Tribuna é uma das agraciadas.

Primo de Mariano Procópio, Domingos foi ainda o primeiro poeta da cidade, segundo o pesquisador e coordenador da Biblioteca Murilo Mendes, Vanderlei Tomaz. Seu texto "Ao Vice-Rei Luiz de Vasconcelos e Souza" é de 1783. De acordo com Vanderlei, não há notícias de outro poema feito em Juiz de Fora que seja anterior ao texto de Domingos. E, embora o coordenador suspeite que Domingos tenha outras obras, o poema é sua única produção conhecida.

Entusiasta da história do poeta, Vanderlei dedica-se ao estudo da vida de Domingos desde 1992, quando tomou conhecimento do assunto. O coordenador informa que não há consenso sobre o local de nascimento do inconfidente, em 1761. "Alguns historiadores afirmam que ele teria nascido em Capenduva, localidade onde hoje está o Bairro Paula Lima, na Zona Norte. Já outros salientam que seu local de nascimento seria a Fazenda do Juiz de Fora, onde hoje fica o Colégio dos Santos Anjos", explica. Filho de Antônio Vidal e Maria Tereza de Jesus, Domingos foi também o primeiro médico do município. Seu pai foi proprietário da Fazenda do Juiz de Fora, adquirida em 1738. Estudou em São João del Rei e no Rio de Janeiro. Formou-se na Faculdade de Medicina de Bordeaux, na França, após passar por estudos em Montpellier.

O nome de Domingos está sendo discutido depois que, no último dia 15, foi revelado que as ossadas dele e dos também inconfidentes José de Resende Costa e João Dias da Mota haviam sido identificadas, após longo e minucioso trabalho realizado pela Universidade de Campinas, desde 1992. Estes restos mortais estão em poder do Governo brasileiro desde 1934, quando um decreto publicado pelo então presidente Getúlio Vargas determinou o repatriamento dos despojos de todos os inconfidentes que estavam em outros países. Os restos mortais de outros 13 inconfidentes foram prontamente enviados para Ouro Preto, entretanto, por motivos desconhecidos, os despojos de Vidal, Costa e Mota vieram em uma mesma arca de Cabo Verde, país africano para o qual os conjuradores foram condenados ao degredo. Na época, este fato teria gerado dúvida quanto à autenticidade das ossadas. Somente este mês elas foram identificadas e dadas como legítimas.

Parentesco

De acordo com o pesquisador e diretor superintendente da Fundação Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato, além de participar da Inconfidência, Domingos era também parente de outros envolvidos no movimento. "Ele era primo do padre José Lopes de Oliveira e do coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, sendo este casado com a "heroína da Inconfidência", Hipolita Jacintha Teixeira de Mello, cujo papel vem sendo reconhecido pelos historiadores como a mulher que teve participação ativa no movimento", afirma.

Apesar de não ter deixado descendentes, parte de sua família continuou em Juiz de Fora. Um de seus familiares distantes é o deputado estadual Bruno Siqueira. Segundo ele, o parentesco ocorre pelo lado de seu avô paterno, Moacir Siqueira, e o assunto é motivo de orgulho na família. "Não é um tema que está presente a todo momento, mas é algo que acabamos comentando e acho que, mesmo sendo um parente distante, creio que pode ter influência em tudo que somos hoje."

 

Domingos como profeta

Entre as muitas lendas que rodeiam os profetas de Aleijadinho, em Congonhas do Campo, uma delas é a defendida pela professora de história da arte da PUC de Campinas, Isolde Helena Brans Venturelli, que diz que os profetas seriam a representação dos inconfidentes. Em seu artigo "Os profetas do ‘Velho testamento’ são os apóstolos do novo Brasil", a professora enumera características que ligariam cada um dos ícones a um inconfidente. Alguns pontos em comum chamam a atenção. O número de profetas seria semelhante ao total de inconfidentes, as transcrições em latim nas estátuas não seriam dos versículos bíblicos como se imaginava, e as obras possuem símbolos que os aproximariam dos conjuradores.

Na representação de Aleijadinho, de acordo com o artigo, o profeta Habacuc seria Domingos Lage. Retratado com uma borla na cabeça, este seria o único profeta médico, assim como Domingos. De acordo com a ideia defendida pela professora, Tiradentes seria representado como o profeta Jonas, esculpido com o pescoço destroncado e os olhos com a expressão vazia, resultante do enforcamento.