Novo céu e muitas cores
O céu azul de fevereiro avisava: fazia calor naquela tarde de quarta-feira. Maquiada, com várias camadas de figurino, a artista circense Sandra Simone Estevanovick Pereira não se incomodava com o suor. "Agora entrei no espírito da coisa." Minutos antes, ela havia teimado em não se transformar na palhaça Melancia para o ensaio fotográfico da Tribuna. A preguiça foi embora com a ajuda dos novos companheiros de cena.
Desde que nasceu, a artista, neta de poloneses, vive no picadeiro. Já esteve em 14 países, além de conhecer o Brasil de ponta a ponta. Compartilhou as andanças com 26 irmãos e experimentou todos os números, até mesmo o globo da morte. Ao lado do marido Dolôr Pereira, ou palhaço Jamelão, Sandra mora há seis anos em um trailer instalado no Bairro Caiçaras. Mas ela já está ávida pela estrada. "Minhas pernas estão coçando", brinca, lembrando que a dupla participou do filme "Os saltimbancos trapalhões". "Só restaram as fotos com Mussum e Zacarias", lamenta.
Experiência e tradição – estacionadas na Rua Dnar Rocha, onde funciona a escola de circo do casal – chamaram a atenção de jovens artistas locais. Júlia Guerra, 23 anos, explica: "Melancia e Jamelão estão entre as poucas referências que temos em Juiz de Fora". Após se reunir no início do ano passado, o grupo se inscreveu no Prêmio Carequinha, promovido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), e foi contemplado. Lona, colchões e aparelhos novos acabaram de chegar ao endereço. Um reinício.
Segundo Dolôr, as oficinas gratuitas oferecidas no espaço contavam com poucos alunos devido à estrutura precária. "Estávamos capengando", diz o juiz-forano. A ideia, agora, é abrir cursos variados a partir de meados de março, com a nova trupe dando suporte. De acordo com Júlia, as aulas, infantis e adultas, irão se estender por cinco meses. "Ao final, faremos um espetáculo."
Identidade do riso
No início de fevereiro, a Caravana de Artesania – ponto de cultura itinerante organizado pelo Teatro Terceira Margem, de Belo Horizonte – visitou a cidade para compartilhar experiências. O circo do Caiçaras acolheu um debate sobre elaboração de projetos e captação de recursos. "Foi importante conhecer outras realidades. Mas a Caravana também gostou de ter contato com as raízes", menciona a estudante Laura Daibert, 24 anos.
O grupo de artistas interessados, em construção constante, acabou se fortalecendo e está disposto a buscar outros editais e parceiros. De acordo com Júlia Guerra, há profissionais variados, de fotógrafos a músicos, em um total de sete pessoas. Entre as propostas ainda no papel, destaca-se o cinema na lona, com sessões para adultos e crianças. Guilherme Gravina, 26 anos, integrante de uma produtora de vídeo dos cursos de ciências sociais e filosofia da UFJF, acredita que o lugar cumpre papel essencial na formação da identidade do bairro. "Queremos consolidar esse espaço como cultural."
A comunidade, aliás, está na mira do projeto. Conforme salienta Dolôr Pereira, integrante da associação de bairro, o principal objetivo é tirar adolescentes e crianças da rua. "Quem mora por aqui não precisa pagar a taxa de inscrição", adianta. Na opinião de Laura, a escola (batizada de Carequinha com autorização dos parentes do famoso palhaço) não ensina somente técnicas circenses. "Existe um caráter educacional, com o desenvolvimento do senso coletivo." Não à toa, Júlia assegura que seu grupo acabou entrando para a família do circo, compartilhando tarefas como montar o picadeiro e organizar os materiais. A vida nos trailers sempre interessou a jovem, que frequenta o local desde 2007. E a rotina por ali não é fácil. Sem água encanada, Dolôr e Sandra contam com a ajuda de vizinhos. "Há seis anos, carrego água com balde e carrinho de mão", comenta o primeiro.
Jamelão no pé
Aos 63 anos, Sandra Simone atesta, brincando, que só não esteve no canadense Cirque du Soleil. Já atuou em trupes grandes, como Garcia, Bartholo e Robatini, além de ter sido dona da própria lona com o marido e os 11 filhos (seis legítimos e cinco de criação). A artista já não sabe dizer ao certo o número de netos. "Acho que uns 32", arrisca. Um deles mora por ali e tem seu próprio trailer. Segundo Sandra, todos possuem habilidades circenses, mas ninguém optou por levar a tradição adiante. "Por isso não podemos deixar essa história morrer", adverte Laura Daibert.
Tudo começou em uma avenida de Belo Horizonte. Na época, Dolôr Pereira, hoje com 66 anos, era guarda de trânsito. Ao ver a futura esposa passar, não segurou o assovio. Após descobrir onde ela morava, tratou de esperá-la diariamente no ponto de ônibus, até encontrá-la. Já integrante do circo – onde se destacou no trapézio e ganhou o apelido de Jamelão por conta das frutas que, no passado, caíam das árvores na Rio Branco -, ele resolveu abandonar a outra carreira, bem menos lucrativa. Após 45 anos de picadeiro, voltou com a família para a cidade natal, a pedido da mãe. Sua intenção era encerrar a rotina circense. Não conseguiu. "Em 2006, a Prefeitura nos cedeu esse terreno, e começamos o projeto com apoio da Lei Murilo Mendes." Para complementar seu orçamento, Dolôr faz shows, festas e apresentações, além de viver o Papai Noel no Natal.









