Arte de deixar marcas
Ao tirar cópias de suas matrizes, Lasar Segall carregava nas tintas. As partes altas das placas, totalmente cobertas do pigmento, deveriam reproduzir formas chapadas, com muitos contrastes entre o preto e o branco. O artista é tema da exposição "A gravura de Lasar Segall – Poesia da linha e do corte", que integra o ArteSesc, do Departamento Nacional do Sesc. O projeto realiza exposições itinerantes, com o objetivo de tornar conhecidos acervos de instituições culturais e trabalhos de grandes artistas. Contando com parceria do Museu Lasar Segall, de São Paulo, a mostra, em cartaz até 29 de novembro em Juiz de Fora, já passou por Belo Horizonte, Uberlândia e Teófilo Otoni e seguirá para Poços de Caldas.
A exposição – organizada a partir de matrizes originais do artista – reúne 16 gravuras em metal e 19 xilogravuras elaboradas por Segall, entre 1913 e 1930. As 35 obras são suficientes para revelar um duplo movimento da obra do artista russo, mas que passou a maior parte de sua vida no Brasil, naturalizando-se brasileiro. Estão em evidência as distintas abordagens da figura humana, além de momentos cruciais de sua trajetória.
"O que mais marca a obra do artista é a sua relação direta com as origens. Viver uma guerra mundial – Segall esteve inclusive em um campo de concentração – é algo muito marcante e se reflete diretamente na primeira década do trabalho exposto, mais sombrio", avalia a responsável pelo projeto de itinerância, Marcela Yoko, contrapondo o momento de transição para o Brasil, também expressado em sua arte, que passa a ser mais colorida e vibrante.
As gravuras com o tema da emigração enfocam a viagem de navio e a chegada à nova terra. Nessas peças, em metal, Segall utiliza linhas mais suaves e sinuosas para retratar o mar, as gaivotas e as curvas do navio. As gravuras sobre o Mangue retratam a vida das mulheres que se prostituíam nessa região da cidade do Rio de Janeiro. Nas xilogravuras, os contrastes são mais fortes, e os traços, mais simplificados. Obra chave da mostra, a xilogravura "O mendigo", feita no Brasil, é destacada por Marcela como essencial à percepção de que o pintor abria-se para enxergar o entorno e representar as mazelas sociais.
Por onde quer que passe, o projeto está sempre atrelado ao programa educativo, que conta com a colaboração de profissionais locais, segundo a analista de arte e cultura, responsável pela parte de arte-educação da mostra, Amanda Moreira. "Trabalhamos com a metáfora da ‘xilo’, das cicatrizes. Pensar as memórias a partir das marcas deixadas, utilizando o espaço de dentro e de fora da galeria", diz. A programação da exposição contará ainda com uma oficina de gravura, ministrada pelo gravurista mineiro Milton Lira, e com visitas mediadas e temáticas, previamente agendadas pelo telefone 3229-7621.
Para compreender as técnicas
Gravura é o nome dado a uma técnica manual de impressão, que pode ter como matrizes a madeira, a pedra, o linóleo e o metal. O artista grava imagens na matriz fazendo cortes ou sulcos e, sobre ela, aplica tinta e depois imprime a imagem, que sai invertida, em um papel. Pode-se tirar várias cópias iguais, obtendo assim uma tiragem. A característica mais importante da gravura é a de não ser uma obra única, mas ter a possibilidade de múltiplas cópias.
Na gravura em metal, o processo é diferente. A placa de cobre, latão ou zinco é desenhada com instrumentos pontudos ou com ajuda de ácidos corrosivos que criam sulcos na sua superfície. Depois de receber uma camada de tinta, a placa é limpa para a retirada do excesso, e a tinta só fica em sua parte mais baixa.
Já para compreender a xilogravura, é possível fazer uma analogia a carimbos de borracha. Os carimbos têm um pequeno desenho, em relevo, e a tinta só pega na parte mais alta desse relevo. Este é o princípio da xilogravura: a matriz de madeira funciona como um carimbo, no qual a tinta fica apenas em sua parte mais alta.
"Quem vier à exposição poderá se perguntar o porquê de as obras não serem assinadas por Segall. A resposta está justamente nessa possibilidade de a gravura ter cópias. Essas gravuras foram feitas a partir das matrizes originais do artista, especialmente reimpressas pelo Museu Lasar Segall para a mostra", explica Marcela.
Segall é reconhecido como representante da segunda geração dos expressionistas, que revolucionaram a produção artística europeia no início do século XX. Os artistas desse movimento buscavam a expressão por meio de formas simples e despojadas e eram influenciados pela arte primitiva. Foi precisamente na gravura que o artista primeiro encontrou uma nova forma plástica, concisa e concentrada, que dava conta, tanto do seu lirismo nostálgico, quanto da dramaticidade que as primeiras décadas do século anunciavam. "Mas ele adquire muito do moderno ao ter contato com os artistas brasileiros", acrescenta Marcela.
O artista veio ao Brasil, pela primeira vez, em 1913, mas mudou-se definitivamente para São Paulo, em 1924. A mudança ocasionou grandes transformações na pintura de Segall, já que muitos eram os contrastes entre a Europa, fria e destruída pela guerra, com o ensolarado Brasil. Com isso, as obras passaram a ter cores e luzes diferentes. Logo começou a pintar a vegetação exuberante e o povo, com suas misturas étnicas.
Artista completo, além de se dedicar a pinturas, esculturas, desenhos e gravuras, fez também móveis para sua casa, figurinos e cenários para peças de teatro e bailes de carnaval. Após sua morte, em 1957, aos 66 anos, a segunda esposa e os filhos montaram o Museu Lasar Segall, na casa onde a família morava em São Paulo.
A GRAVURA DE LASAR SEGALL – POESIA DA LINHA E DO CORTE
De terça a sexta, das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 29 de novembro
Mamm (Rua Benjamin Constant, 790)









