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Inconfidência esquartejada


Por MAURO MORAIS

27/08/2014 às 06h00

Após quatro anos de intensa pesquisa, Fuad Yazbeck chamou a esposa e os filhos para o verem escrever o último ponto de "O barbeiro de Vila Rica" (Record, 349 páginas). Daria, ali, o ponto final de uma elogiada, porém curta, carreira literária. O segundo livro, que será lançado esta tarde, às 17h, na livraria Saraiva, teve seu contrato de publicação firmado dias antes de sua despedida, em janeiro do ano passado.

"Ele tinha um caderno, onde anotava tudo. Estudou tudo sobre os inconfidentes, sobre Ouro Preto, fez uma pesquisa bastante longa. Quando já havia montado dois terços do livro, entrou em coma por dois meses. Ao voltar do hospital, lhe foi aplicado um remédio que durou oito meses e o fez produzir bastante", conta a viúva Lola Yazbeck, companheira durante mais de quatro décadas. "Foi uma grande vitória. Nos três anos anteriores, ele lutou bravamente contra o câncer", completa o amigo Laurentino Gomes, um dos primeiros a ler a obra e o responsável pela escrita do prefácio. Apresentando e comentando o título, o autor de "1808", "1822" e "1889" vem à cidade para o lançamento.

"Há alguns anos, fui a Ouro Preto, no Fórum das Letras, e tive a felicidade de conhecer o Fuad, que tinha acabado de lançar ‘O segundo degredado’ (sua estreia). Nos tornamos grandes amigos. Ele foi um dos melhores amigos que tive em minha vida. Infelizmente essa amizade durou pouco tempo", lamenta Laurentino, recordando-se do adeus a Fuad: "Estava em Petrópolis, terminando a pesquisa do ‘1889’. No dia seguinte, iria a Juiz de Fora, no Museu Mariano Procópio, para o encerramento de minha pesquisa. No dia anterior, me chegou a notícia de que ele havia falecido".

De acordo com ele, o juiz-forano formado em economia pela UFJF, onde também foi professor, tinha raro talento. "O Fuad era um homem muito corajoso. Ele se arriscou em um gênero literário que, normalmente, não faz muito sucesso no Brasil, que é o romance histórico. Esse ramo da literatura tem uma enorme repercussão na Europa, nos Estados Unidos, mas por aqui nunca pegou muito. Ele foi um bom romancista histórico, dos melhores que conheci. Aliava uma capacidade muito grande de criação com pesquisa profunda."

 

 

As barbas de um revoltoso

"Um homem jovem, alto, espadaúdo, de olhar estranhamente hipnótico, apesar de esbugalhado por uma vesguice divergente. O rosto, apesar de tudo, mesmo sombreado por um chapéu de abas largas, emanava simpatia e até certa beleza, contrastando esta com as vestes surradas e encardidas e o enlameado par de botas de cano alto." Quando Alexandre, um jovem barbeiro de Vila Rica, hoje Ouro Preto, encontrou pela primeira vez com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, essa foi sua primeira impressão. É em torno dele, o protagonista da trama de "O barbeiro de Vila Rica", que gira o romance passado em plena Inconfidência Mineira, uma das principais revoltas contra o governo português no período colonial, ocorrida em Minas Gerais. No berço do movimento, o homem e sua navalha tornam-se confidentes do personagem reconhecido por sua farta barba e por suas vestes brancas de dentista.

Narrado pela mãe do barbeiro, dona Alcina (primeira parte), pelo próprio Alexandre (segunda parte) e por um narrador observador (terceira e última parte), a obra humaniza os personagens de uma batalha que resultou no enforcamento e esquartejamento de Tiradentes. "O que me impressionou no livro é a pesquisa muito benfeita sobre a Inconfidência Mineira, sobre a figura do Tiradentes. Ele mostrou que não era um herói, como a história oficial procura descrever, mas também não era um bobão. A história do Brasil oscila entre o herói épico ou o sujeito vira-lata. O que Fuad mostra é que Tiradentes teve uma participação muito importante, mas não era o único e é apenas um homem muito corajoso, que assumiu tudo o que aconteceu, enquanto todos os outros se esconderam atrás do próprio poder ou negaram envolvimento. O Tiradentes é absolutamente transparente e, na verdade, é o único que realmente assumiu seu papel", comenta Laurentino Gomes.

 

 

À história, um romance

"Ao mesmo tempo em que ele perseguia a veracidade através da pesquisa, ele construía o personagem de uma forma a dar leveza através do romance", pontua Lola Yazbeck. "Nos diálogos entre Tiradentes e o barbeiro, sinto a postura do Fuad, os anseios de liberdade. Ele se entregou à literatura", completa ela. Para o professor e amigo José Alberto Pinho Neves, outro dos primeiros leitores da obra, um dos maiores trunfos do livro é o da "irradiação do conhecimento, considerando que a literatura é um espelho do mundo que nos revela toda sorte de assunto". "Yazbeck devota-se, no sentido religioso, a grafar e descrever uma história ficcional que autoriza conhecimento do real. Rememora a trajetória, restituindo aos personagens, às criaturas e aos lugares o pertencimento dramático de sua subsistente presença e razão. Enceta uma criação que guarda o interregno interposto entre a averbação histórica e a invenção poética, delineando um texto que não ecoa totalidade, mas o essencial singular à obra de arte."

Com descrições precisas e extremamente emocionantes – como o momento do terremoto que devasta Lisboa, fazendo com que o barbeiro Alexandre se mude, ainda bebê, para o Brasil, e inicia a narrativa -, o livro póstumo revela um escritor cuja produção, mesmo com um ponto final já colocado, se faz precioso para a história. Emocionado, Laurentino, o amigo e também escritor, é certeiro: "Não existe uma única história, oficial e definitiva, sobre personagens e acontecimentos. Isso é característico de regimes ditatoriais e autoritários, que tentam impor uma única visão. Numa democracia, como vivemos no Brasil, essa história deve ser narrada e observada sobre diferentes ângulos."

 

O BARBEIRO DE VILA RICA

de Fuad Yazbeck

 

Lançamento

com apresentação de Laurentino Gomes

 

Hoje, às 17h, na livraria Saraiva

(Independência Shopping)