Um lugar para a memória
Doado ao município na década de 1970, o acervo que pertenceu ao médico Silva Mello continua sendo alvo de preocupação. A coleção foi tema de um pronunciamento do vereador Flávio Checker (PT), na Câmara Municipal, que pediu esclarecimentos sobre a situação das peças para a Funalfa. Depois de expostas por um breve período em uma casa no Bairro Bom Pastor, em 1979, as peças foram guardadas em depósitos da Prefeitura, ficando longe dos olhos do público. Nesses mais de 30 anos, parte da coleção foi castigada pelo abandono e se perdeu para sempre. Outras peças resistiram à ação do tempo, sendo resgatadas pela Funalfa em um trabalho iniciado em 2005. A Tribuna teve acesso a esse material e mostra a situação desse acervo que vem despertando polêmica há, pelo menos, três décadas.
Depois de passar por um processo de higienização, parte das louças, livros, mobiliário, utensílios domésticos e objetos decorativos do acervo Silva Mello foi arquivada em um cômodo na sede da Funalfa, no Parque Halfeld. De acordo com o superintendente do órgão, Toninho Dutra, a transferência dessa parte da coleção começou na gestão da professora Érica Delgado. Quando assumiu o cargo, em 2009, Dutra deu continuidade ao trabalho, atendendo a pedido do então prefeito José Eduardo Araújo.
Antes empilhados em um depósito no Bairro Vila Ideal, os objetos receberam cuidados básicos, sendo armazenados em estantes e armários ou recebendo embalagens. O superintendente, entretanto, pondera para as limitações da Funalfa, que não conta com museólogo ou historiador em seu quadro de funcionários, desde a emancipação do Museu Mariano Procópio, que se tornou fundação em 2005. Apesar de arquivadas, as peças permanecem sem catalogação ou organização de um profissional especializado."Essas peças estão em um lugar razoavelmente adequado dentro das condições da fundação. Encontrei uma situação preocupante, mas já atenuada na época da professora Érica Delgado", avalia Dutra.
Ainda segundo Toninho Dutra, os itens arquivados na Funalfa representam a parte do acervo que foi considerada em condições de reintegração. Outros objetos – incluindo móveis, tapetes e um piano – foram considerados irrecuperáveis, devido ao grau de deterioração, e permanecem no depósito da Vila Ideal. Cobertas de sujeira, as peças mais se assemelham a uma montanha de entulhos.
Diante da situação, a Funalfa estuda um destino para a coleção. "Começamos a pensar em soluções responsáveis para esse material", comenta o superintendente. Uma das ideias seria transformar o cômodo em que as peças estão arquivadas em um memorial de Silva Mello. Para a concretização desse propósito, entretanto, é necessária a criação de um acesso para o público, além da contratação de profissionais para organizar o acervo e compor uma exposição coerente com a memória do médico. A proposta será discutida com a família do doador.
Parte da coleção de livros de Silva Mello poderia ter outro destino. Dedicado a volumes de medicina, muitos deles em língua estrangeira, esse segmento da biblioteca não teria função. "Em uma fundação de cultura, esses livros não terão qualquer uso, apenas ficarão nas estantes", opina Dutra, dizendo que a Funalfa teve conversas informais sobre essa parte do acervo com a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora e com a Faculdade de Medicina de Vassouras, na qual Silva Mello atuou como professor. O gestor da Funalfa garante, contudo, que não há nenhuma negociação concreta a esse respeito e que nunca houve intenção de efetuar a doação sem consulta a outras instâncias do poder municipal. "Nada será feito sem o conhecimento da Câmara Municipal. Pelo contrário, minha intenção é buscar uma solução compartilhada. Mas é preciso que as pessoas saibam os limites da cidade."
Falecido em 1973, Silva Mello foi membro da Academia Brasileira de Letras. Pioneiro na pesquisa de invenção do raio-X, foi responsável pela introdução da especialidade de gastroenterologia no Brasil e conhecido pela descoberta dos efeitos benéficos das areias monazíticas de Guarapari. Além da carreira científica, o juiz-forano escreveu dois romances e ensaios de temas diversos, como cultura brasileira, religião e psicanálise.









