Gavetas desbravadas
De 2009 para cá, incontáveis gavetas e armários da cidade se abriram. Sob roupas antigas ou objetos esquecidos, verdadeiras preciosidades estiveram escondidas, mas foram resgatadas para embasar o projeto "Juiz de Fora para sempre", que acaba de lançar seu terceiro cartaz, numa tiragem de seis mil exemplares. Até o momento, a iniciativa, capitaneada pelos professores Júlio César Sampaio e Jorge Arbach, contemplou 60 edificações tombadas. Nesta última edição, 20 fachadas poderão ser apreciadas e guardadas pelos cidadãos. Entre elas, estão a do Cine-Theatro Central, do Castelinho dos Bracher, do Cine São Luiz e da Fazenda Ribeirão das Rosas.
Segundo a mestranda Anna Elisa Martins, colaboradora da proposta, os proprietários das construções estão cada vez mais interessados em contribuir com as pesquisas, disponibilizando acervos. Anna acompanha os trabalhos desde 2008, quando ainda era aluna da disciplina "Técnicas retrospectivas II", ministrada por Júlio César no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF. "A iniciativa ajuda o aluno a repensar a cidade, intervindo nela sem destruí-la."
Como relembra Júlio, hoje docente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), tudo começou com um projeto pedagógico para ensino de conservação. Com o intuito de discutir o assunto a partir do contexto local, o professor estimulou os alunos a fazerem o inventário completo dos imóveis protegidos. Assim surgiu o "Banco de dados da conservação das edificações tombadas", que, em breve, terá sua primeira versão lançada em CD-ROM. Posteriormente, o material será publicado em site e livro. "A ideia é que haja constantes relançamentos em função de novas documentações", menciona Sampaio.
Para conciliar as ações acadêmicas e o viés técnico com o interesse do público, Jorge Arbach, também arquiteto e artista gráfico, decidiu reunir em produtos os resultados dos estudos. Além dos cartazes, já foram criados botons, calendários, quebra-cabeças e camisetas. "Usamos uma linguagem fácil e glamorizada para cativar a população e despertar sensação de pertencimento e autoestima", comenta ele, referindo-se à elaboração da chamada "visão planimétrica" dos prédios, um tipo de representação em duas dimensões que permite fidelidade aos traços e proporções. "Esses bens são como pacientes na UTI e precisam do olhar do cidadão."
No terceiro cartaz, aparecem exemplos de variados estilos arquitetônicos: eclético, colonial, art déco, revivalismo gótico e industrial. Segundo Júlio César Sampaio, Juiz de Fora foi pioneira nos imóveis ligados à industrialização, fato que a fez ganhar de Ruy Barbosa a alcunha de Manchester Mineira. "Quando apresentamos esses trabalhos fora, as pessoas não acreditam que existe tudo isso por aqui." Os 60 edifícios analisados incluem ainda outras estéticas, o que comprova o perfil cosmopolita do município.
Conforme acrescenta Sampaio, muitas construções continuam razoavelmente caracterizadas, enquanto outras apresentam péssimo estado de conservação. Entre as últimas, estão a Vila Iracema, as fazendas da Tapera e de Ribeirão das Rosas e o Casarão dos Colucci. Sobre esse assunto, Jorge Arbach cita a lei municipal 9.327, de 1998, como uma alternativa para a preservação dos prédios tombados. "Por meio desse instrumento, os proprietários recebem autorização para comercializar o potencial não construído de seus imóveis, transferindo-o para outras edificações que já esgotaram o limite permitido pela Prefeitura."
De acordo com Arbach, os dois primeiros pôsteres – com tiragem de 2 mil e 4 mil exemplares, respectivamente – foram bem recebidos pela população. Por conta disso, novas ideias estão em processo de produção, como um jogo da memória desenvolvido para a rede escolar em parceria com a Funalfa, além de um jogo digital baseado nos ladrilhos hidráulicos da Construtora Pantaleone Arcuri. O estudo de novas fachadas, incluídas no universo de quase 170 bens tombados da cidade, também está em andamento e aguarda o quarto cartaz, a ser lançado ainda em 2012. "Nosso trabalho não para", afirma Arbach, sempre auxiliado por alunos bolsistas.
Os interessados em adquirir o terceiro pôster do projeto "Juiz de Fora para sempre" podem entrar em contato com os responsáveis pelo telefone 8888-6278. A Difusão de Patrimônio Cultural (Dipac) da Funalfa também pode disponibilizar exemplares (3690-7327).
Calendário valoriza patrimômio
O patrimônio juiz-forano também é tema do calendário 2012 da Funalfa. O material faz uma visita ao centro histórico da cidade e, ao longo dos meses, apresenta as diversas facetas da Praça da Estação. A Rua Halfeld abre a publicação, ilustrando janeiro. Nas outras páginas, surgem inúmeros símbolos locais, como o Hotel Renascença, o Museu Ferroviário e a Associação de Belas Artes Antônio Parreiras. Os registros fotográficos dos prédios tombados foram feitos por Fernando Barbosa, e a manipulação digital, por Lígia Lacerda, que explorou tons ocres em contraste com o branco. Segundo o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o objetivo é estimular o olhar sobre o local, além de reforçar o envolvimento afetivo do cidadão com o espaço urbano. "Também buscamos promover a conscientização em relação à necessidade de preservação." O calendário, disposto em uma caixa estilizada, tem distribuição dirigida.









