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Por BRUNO CALIXTO

27/12/2011 às 07h00

Em alto e bom tom, a divulgação do trabalho autoral tomou a maioria dos 105 minutos do I Ciclo de Debates da Tribuna "Dois pra lá, Dois pra cá" sobre música, que aconteceu no dia 28 de novembro. Com o objetivo de contribuir para a inserção dos artistas na mídia local, a Funalfa está encaminhando para oito rádios da cidade kits de CDs financiados pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, conforme acordo firmado em audiência pública realizada na Câmara dos Vereadores no último dia 8. "A ideia é que as rádios avaliem a possibilidade de abrir espaço para compositores locais em sua programação, apoiando a divulgação dos trabalhos e promovendo aproximação com o público", justifica o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra.

A produção musical contemporânea parece mesmo não ser divulgada pelos meios tradicionais, o que, segundo um dos convidados, o compositor Carlos Fernando, recai prejudicialmente sobre a projeção dos artistas. "Os bens culturais produzidos por aqui são de qualidade, mas não circulam", disparou o músico.

A despeito dos interesses monetários e do modo como a Indústria Cultural impera no meio musical, a convidada Valéria Assad, professora de piano do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, defendeu a obrigatoriedade de obras autorais nas rádios locais, ressaltou o trabalho em conjunto e se queixou da maneira como o poder público lida com os beneficiados por programas e leis de incentivo. "Você faz um CD pela Lei Murilo Mendes, e ele fica engavetado."

Lembrando a experiência que viveu em Curitiba (PR) há dois anos, o argentino Daniel Quaranta, professor do curso de Música da UFJF, destacou a necessidade de avaliar a forma como o produto local deve ser inserido nos veículos de massa. "O artista deve aproveitar as novas formas de promoção", cutucou. "Temos que discutir, no entanto, outras propostas que não somente tocar músicas nas rádios."

Ao longo da noite, ainda vieram à tona temas como formação, financiamento coletivo, profissionalização, internet e espaços para apresentar autorais. "Queremos cultura como direito social e não como mercadoria", defendeu Carlos Fernando, refletindo também sobre os "responsáveis" pelo fomento da música por aqui. "Juiz de Fora sempre foi um polo, principalmente até a década de 20. Apesar disso, os olhos passaram a se voltar mais para o que vem de fora."

Convicta das benesses da obrigatoriedade do ensino de música nas escolas – extinto em 1972 pelo então ministro de Educação e Cultura, Jarbas Passarinho, e retomado em 2008 -, Valéria Assad apontou a "má formação" do corpo docente. "O professor de português ou matemática é quem vai ministrar as aulas de música, isso porque o tema virou matéria", criticou a professora, atraindo a atenção de Daniel Quaranta. "Há uma deficiência enorme na formação de professores de música. Aluno bacharel, por exemplo, não sai da universidade preparado para dar aulas, o que faz parte de um projeto histórico", arrematou Quaranta, informando sobre a necessidade de cursos de licenciatura plena no ramo, como o adotado pela vizinha São João Del Rey. Na sequência, Valéria Assad acatou a redução do abismo que haveria entre a universidade e as escolas de música. "A gente tem que entrar sabendo na UFJF, onde buscamos só o aperfeiçoamento", disse.

Frente às adversidades de um mercado em crise quanto à vendagem de discos, os shows, vistos como uma das principais ferramentas de captação de recursos, passaram das mãos dos produtores ao corporativismo dos fãs através do crowdfunding, técnica de financiamento coletivo. De olho nas novas formas de interagir com o circuito musical e na cena independente de Juiz de Fora, o convidado Fred Fonseca, representante do setor no Conselho Municipal de Cultura (Concult) e diretor regional da Cooperativa da Música de Minas (Comum), atribuiu ao interesse dos fãs e ao senso comum a viabilização do que "parece utópico". "Uma das maneiras de despertar a consciência de grupo são os fóruns, inclusive para persuadir sobre os meios de divulgação da produção local", sublinhou. "Mas faltam processos de coletividade", lamentou, ao discorrer sobre a importância das cooperativas de música, que hoje são 13 em todo o Brasil.

"Se Belo Horizonte deixa a Zona da Mata de lado, somos polo regional só no título, pois não vejo diálogo algum. Como lidar com essa realidade?" A pergunta foi proferida pelo compositor Edson Leão, que respondeu em seguida: "na verdade, nem conseguimos saber o que acontece nos bairros de Juiz de Fora. Não circulamos pela cidade".

A editora do Caderno Dois, Isabel Pequeno, por sua vez, indagou sobre a utilização de espaços, como a concha acústica construída na Praça Cívica da UFJF. "Vivemos num mercado neoliberalista, em que o público necessita do espaço, mas enfrenta políticas mercadológicas ultrapassadas", pontuou o compositor Danniel Goulart. "Temos também a necessidade de pensar iniciativas para pequenos públicos e dar continuidade a propostas com foco na formação de público", rebateu Edson Leão, fundamentando o que muitos críticos de música teorizam quanto ao fato de que levará algum tempo até que as invenções alcancem a maioria dos consumidores de música do mundo contemporâneo. Por enquanto, ainda não temos a certeza de que isso, de fato, ocorrerá.