Espectadores e cidadãos
Presente na história na formação de artistas e público de Juiz de Fora nos últimos 44 anos, o Grupo Divulgação foi reconhecido, oficialmente, como patrimônio cultural do município. O Projeto de Lei, de autoria dos vereadores José Sóter de Figueirôa e Francisco Canalli (ambos do PMDB), foi sancionado na última quinta-feira. O ato confere à companhia dirigida pelo professor José Luiz Ribeiro a condição de bem constitutivo da memória da cidade, passível de ser preservado por meio de medidas técnicas do poder público.
A honraria conferida pela Câmara e pela Prefeitura Municipal referenda uma percepção há muito presente na classe artística, sobretudo no meio teatral. O Grupo Divulgação é referência recorrente entre atores e diretores da cidade entrevistados ao longo dos anos pela Tribuna (confira o quadro com trechos de depoimentos). A lista de discípulos conta com nomes como o de Guy Schmidt, Robson Terra, Sandra Emília, José Eduardo Arcuri, Sergio Arcuri, Pedro Bismarck e Arlete Heringer, além da jornalista Leda Nagle.
Mesmo quem não passou pelos cursos oferecidos no Forum da Cultura reconhece no trabalho de José Luiz Ribeiro um exemplo de perseverança, de quem continua a produzir teatro há mais de quatro décadas, apesar das adversidades do ramo. Não bastasse manter uma produção regular de espetáculos adultos e infantis, o Divulgação ainda se propõe a colocar as cartas de seu ofício na mesa no seminário "Os caminhos do teatro", que reúne renomados profissionais anualmente, no Forum da Cultura. A reflexão sobre as artes cênicas estende-se ainda nos cursos oferecidos pelo grupo a alunos das mais variadas idades, de adolescentes a pessoas da terceira idade, passando pelo público universitário.
A contribuição do grupo para a memória de Juiz de Fora também se faz presente nos temas escolhidos para serem levados ao palco. Em 1985 e 2000, a peça "Girança" recuperou a história da cidade ao acompanhar a saga de uma família do interior que chegava na industrial Manchester Mineira. Para comemorar o aniversário de 150 anos do município, em 2001, o Divulgação preparou o espetáculo "Botanágua", um divertido retrato da classe média juiz-forana.
Além de textos autorais de José Luiz Ribeiro, a companhia trabalhou em adaptações para o teatro de obras literárias de escritores da cidade. Esse é o caso de "O menino dos caracóis", de Edimilson de Almeida Pereira, e de "O rei de quase tudo", de Eliardo França.
A semente do Divulgação está no contato de José Luiz Ribeiro com o movimento de Teatro Universitário, depois que o dramaturgo ingressou na UFJF, em 1965. Antes disso, Ribeiro havia escrito e dirigido a peça "Brasil espaço 63", montado pelo Grupo Jovem do Contato, que envolveu mais de cem pessoas no palco.
Nos anos iniciais, o Divulgação não tinha uma sede e se apresentava no Círculo Militar, na Casa d’Itália, no Granbery e na rua. A ligação com o Forum da Cultura só começou em 1972, com "A morta", de Oswald Andrade, que entrou para a história do grupo ao ser premiada no festival Sesc-Centenário, de Niterói. Entre os premiados da memorável noite estava Leda Nagle, que levou o troféu de melhor atriz coadjuvante.
No rol de montagens inesquecíveis ainda merecem destaque "Os pequenos burgueses", de Górki; "Seis personagens à procura de um autor", de Pirandello; e "Diário de um louco", de Gógol, além de "A escada de Jacó", "Girança", "Era sempre 1º de abril" e "O príncipe Rufião", todas de autoria de Ribeiro.








