Ouça agora

Para não silenciar


Por MAURO MORAIS

27/08/2014 às 06h00

"É aquela velha história: o moleque negro que morava na periferia e saiu, foi embora para outro estado, formou-se, conseguiu transitar pelo meio do hip-hop no Brasil, viajou para vários lugares…". P.MC tenta justificar o grande orgulho que o garoto que cresceu no Bairro Ipiranga, Zona Sul de Juiz de Fora, desperta nas comunidades locais. Contudo, ainda que sua trajetória ascendente na cena do hip-hop nacional sirva de exemplo a muitos jovens juiz-foranos, é sua coerência no caminho que desperta atenção. Quando ele começou, fazendo seu break no Calçadão, no início da década de 1980, já havia em seus gestos o desejo de valorização da cultura negra e de reconhecimento de seu espaço social. Do grupo de dança Break Tropical ao de rap Patrulheiros do Peso, ele estreitou seus laços com as palavras e decidiu mudar-se para São Paulo.

Ao retornar à sua cidade natal, P.MC trouxe na bagagem um disco gravado e o respeito de rappers reconhecidos no Brasil. De lá pra cá, a cada vinda, o garoto da perifera juiz-forana traz mais e mais motivos de orgulho. "Eu tinha um foco na dança de rua, a questão do corpo, trabalhando a literalidade, a coordenação motora. De repente, o rap falou mais alto, aquela coisa da denúncia, de discordar. Foi isso o que me fez subir mais um degrau nessa escada", conta o homem de voz firme em entrevista por telefone à Tribuna, horas antes de embarcar para Juiz de Fora, onde faz a palestra "A juventude da periferia – O que ela é e não é", nesta quarta, no Museu do Crédito Real, às 19h, em evento que integra a programação do Agosto Negro.

"Depois que me formei em pedagogia, vim trabalhar em um núcleo que faz formação de professores e arte-educadores para atuar em escolas, centros culturais, periferias e nos grandes centros. Meu último lançamento é um trabalho que diz de rima de hip-hop para crianças", destaca P.MC, referindo-se ao disco "Pé de palavras", que deve ser lançado em breve. Considerado um dos grandes pensadores da cena hip-hop atual, o rapper e pedagogo recorda-se do início da violência na cidade, no começo dos anos 1990, quando seu parceiro e conterrâneo DJ Deco também dava seus primeiros passos no funk brasileiro.

"Tenho esperança, mas ela vem junto do desejo por mobilização e ações culturais. Acredito que os grupos de capoeira, quem faz arte-cultura, os movimentos sociais, as secretarias de bairro, da juventude, precisam se unir. Tem como apertar esse parafuso, mas teríamos que fazer mutirão cultural, e isso não é intervenção", responde ao ser questionado sobre seu nível de confiança no futuro.

 

Lutas existenciais

Carioca, André Constantine também acredita numa mobilização que se dê pelas vias da integração. Um dos fundadores do "Favela não se cala", ele vem a Juiz de Fora amanhã para a palestra "A periferia fala", às 19h, no Museu do Crédito Real. Apartidário, o movimento que se iniciou em comunidades da Zona Sul do Rio de Janeiro, já tem integrado várias periferias do país em reuniões periódicas para o debate sobre esses espaços, tanto do ponto de vista social, quando pelos ângulos da cultura e da política. "Percebíamos que as lutas das favelas se davam de forma fragmentada. A favela nunca deixou de lutar, até porque a luta da favela é existencial, pela nossa sobrevivência. A questão ideológica a gente adquire no caminho", diz o militante, em vídeo do movimento.

Uma das grandes lutas do "Favela não se cala" é a desocupação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) dos morros do Rio. "As UPPs são a militarização, são o controle social para a implementação de um Estado Policial nas favelas. As UPPs são uma militarização fascista", dispara Constantine, em artigo que repercutiu na internet e foi originalmente publicado no portal Favela 247. "A favela hoje é uma senzala vigiada e monitorada 24h pelos capitães do mato, a mando dos senhores de engenho. As UPPs não trazem uma nova polícia, é a mesma polícia de sempre", completa. Outro convidado do Agosto Negro, o rapper paulista Dexter, participa da roda de conversa intitulada "Juventude negra nas periferias" na próxima sexta, às 19h, na Escola Municipal Santa Cândida. Premiado, o cantor que passou mais de dez anos preso, tendo ganhado a liberdade em 2011, compartilha seu discurso por igualdade, sempre colocando, sem pudores, o dedo nas feridas sociais.

 

AGOSTO NEGRO

"A juventude da periferia"

Rapper P.MC

Hoje, às 19h, no Museu do

Crédito Real

(Av. Getúlio Vargas 455 – Centro)

"A periferia fala"

André Constantine

Amanhã, às 19h, no Museu do Crédito Real

"Juventude negra nas periferias"

Rapper Dexter

Sexta-feira, 19h

Escola Municipal de Santa Cândida

(Rua Jorge Raimundo 531 – Santa Candida)