Ouça agora

Retrato social da poesia


Por BRUNO CALIXTO

14/04/2011 às 07h00

Enquanto sua mãe tocava bandolim, o pequeno Noel Rosa de Medeiros ousava dedilhar diferentes instrumentos de corda, até se fixar no violão. Naquela época, em que o Rio dos anos 20 proporcionava aos seus habitantes mais sensíveis um contato intenso com as mais variadas formas de arte, o garoto, ainda no rígido Colégio São Bento, foi apresentado à história da arte, inclusive da arte religiosa. Mas foi em Minas Gerais, especificamente em Belo Horizonte, que o artista ganhou uma das maiores contribuições neste ramo, como lembrou o jornalista e pesquisador José Antônio Nonato, durante um bate-papo com a Tribuna, após a abertura da exposição Cordiais saudações, no Espaço Cultural Correios (Rua Marechal Deodoro 470). Na capital mineira, ele compôs uma de suas obras primas, o samba ‘João ninguém’, retrato perfeito do indivíduo alienado, mas feliz, detalhou Nonato, corresponsável pelo acervo das fotos de Augusto Malta, reunidas na mostra que segue até 14 de maio.

Tribuna – O fato de Noel Rosa ser considerado cronista social e crítico de seu tempo o aproximava do morro. Isto o distanciava da burguesia e do asfalto? Como a elite carioca recebia sua arte?

José Antônio Nonato – Apesar de suas incursões nos morros cariocas e de sua amizade com Cartola, vivida no cenário da Mangueira, Noel nunca deixou de ser burguês, pois morou sempre com papai e mamãe (até que o pai tivesse que ser internado por causa da loucura) em um chalé modesto, mas muito bem situado na cidade em que nasceu. Sempre de terno, de chapéu e a bordo de seu carro, Noel era burguês.

– Mas guardou alguns desafetos também…

– Wilson Batista, no samba Lenço no pescoço, se disse orgulhoso de ser malandro. Noel respondeu com o samba Rapaz folgado, em que ele prega que o verdadeiro malandro não ostenta sua malandragem. Enfim, Noel era um burguês com um coração de proletário e marginal.

– No Brasil, a maioria dos artistas é mais lembrada após sua morte. Isto também aconteceu com Noel?

– A elite e o povo receberam muito bem a sua arte, haja

vista os sucessos que conheceu em vida. Mas, depois de sua morte, a legenda de sua arte cresceu mais ainda. Santo de casa não faz milagres, e a perda definitiva do seu talento fez chamar a atenção para a obra desse gênio carioca.

– Se hoje, com o avanço da internet e os meios de comunicação, Noel estivesse vivo, como lidaria diante de tantos aparatos tecnológicos?

– Difícil fazer esse exercício de futurologia passada. Se, por um lado, ele gostava mesmo era de arrancar do bolso um toco de lápis e escrever seus sambas nos guardanapos ou nos maços de cigarros, por outro, lidou muito bem e incorporou à carreira as novas tecnologias que surgiam em sua época, como o rádio.

– Se naquela época ele tratava de assuntos do cotidiano, como emprego, patrão, amores e boemia, sobre o que falaria hoje?

– Esses temas são eternos e subsistirão enquanto existir

a humanidade. Talvez ele glosasse, hoje, esse povo que passa a noite acessando a internet ao invés de visitar um cabaré.

– Ao que sabemos, Noel nunca foi de se importar com dinheiro, pois vendeu várias composições e nem cobrou. Existem herdeiros e/ou responsáveis pela administração de seus direitos autorais?

– Por uma dessas fatalidades da lei brasileira, até 2007, quando se completaram 70 anos de sua morte e os direitos autorais prescreveram, eram duas sobrinhas, filhas do Hélio (de Medeiros Rosa), que não conheceram o tio e sempre moraram nos EUA. De lá, elas administravam, com ferocidade, esses direitos. Para se ter umas ideia de quanto são vorazes, estão processando Carlos Didier e João Máximo, autores da belíssima e definitiva biografia do Noel (Noel Rosa – Uma biografia), só porque não lhes foi pedida a licença.

– O que mudou mais no samba depois que o Brasil e o mundo conheceram suas letras atemporais e pessoais?

– O teor das letras dos sambas brasileiros deixou de se

espelhar em refinados e obscuros padrões parnasianos e simbolistas para adotar uma simplicidade semelhante à clareza dos textos dos sonetos de Camões. Esse teor clássico, essa simplicidade tão difícil de ser encontrada e que, no Noel, eram tão epidérmicos, mudou tudo.

– Quem seguiu esta forma sincopada de fazer samba?

– Assis Valente, (o juiz-forano) Geraldo Pereira, Herivelto

Martins e uma sucessão de talentos que chega a Chico Buarque, sobretudo os grandes sambistas cariocas, mas, principalmente, os que foram contemporâneos de Noel e hoje formam o panteão da melhor música do Rio.

– O que de mais revolucionário em Noel veio à tona após sua morte?

– O fato de que, ao cruzar a linha do trem para sair de Vila Isabel e chegar ao Morro da Mangueira, ele atravessou também a barreira das classes e transformou o samba num artigo palatável a todos os estratos sociais e culturais. Num feitiço decente, que prende a gente.