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Senhores da arte


Por BRUNO CALIXTO

05/01/2012 às 07h00

Minutos antes da estreia, a atriz Adélia Bassani, 65 anos, sempre volta ao espelho para retocar a maquiagem. O ritual, segundo ela, não tem o objetivo de mascarar os traços da idade, e sim revelar o quanto a arte pode interferir na alegria de envelhecer com qualidade de vida. Assim como outros de sua faixa etária, Adélia, acompanhada do marido, José Paulo da Silva, 71, encontrou no Grupo Divulgação a fórmula certa para aguçar a memória e comprovar o quanto a cultura está presente em todas as fases da vida. Existia uma Adélia antes e existe uma outra agora, depois que estudei disciplinas de serviço social na UFJF e ingressei no teatro há 11 anos, assegura, tornando suas as palavras do companheiro com quem é casada há 45 anos. Aprendemos a entender, ler e ouvir. O teatro para nós é a grande lição da vida.

Para o diretor e dramaturgo José Luiz Ribeiro, 69, a arte é o elemento mediador entre a realidade e o sonho. Penetrar no mundo da poesia é um grande passo para se livrar da taquicardia, resume Ribeiro, sobre a articulação da cultura no trato de valores sociais na terceira idade. Motiva-os a saírem desta vida midiática contemplativa, difundindo as inúmeras ações sociais que levam os idosos para atividades lúdicas e os retiram dos consultórios médicos, arremata o dramaturgo, doutor em comunicação e cultura pela UFRJ com a tese Da taquicardia à poesia.

O exercício da criatividade, como relata a geriatra Juliana Vigiani, pode representar um poderoso instrumento de realização pessoal e reinserção social. Através da arte pode-se adquirir novas formas de percepção e ação que provocarão mudanças positivas na forma como o indivíduo encara o envelhecimento, afirma.

No final de 2011, a Tribuna publicou que, em dez anos, o número de idosos aumentou em quase 50% em Juiz de Fora, o que pode gerar impactos políticos caso essa parcela da sociedade se organize para mostrar o poder que tem. Esmeralda Lacerda, 80, é um exemplo. No ano passado ela concluiu o ensino médio, dando fim ao abismo que surgiu desde quando, aos 14 anos, teve que interromper os estudos para trabalhar. Estava quase entrando em depressão, mas agora está tudo melhor. Pretendo continuar, é claro, garante a aposentada, atualmente fora do índice dos 10,2% (sete mil) de idosos analfabetos no município.

Ao diagnosticar uma doença nefrológica, há dois anos, a cozinheira Maria de Fátima Fernandes, 53, afastada do posto de trabalho desde então, encontrou no artesanato a receita para a sobrevivência e uma ferramenta eficaz de fins terapêuticos. Depois que descobri o poder da arte, mesmo que de um modo caseiro, tudo mudou na minha vida. Sinto-me útil, sem mesmo nunca ter pensado que tinha tais habilidades manuais, conta a artesã, que, no período do Natal, comercializou, pela primeira vez, suas peças no Centro da cidade.

Apesar das varizes, resultado de 40 anos em pé por trás das pickups, o DJ Vovô, 59, encara cada noite como se fosse a primeira. Ainda não perdi aquela sensação de êxtase quando o público interage com meu set e vice-versa, revela. Ainda bem que o meu cardiologista joga tênis e futebol comigo, dispara o otimista DJ, que ainda vai ter muito tempo pela frente para ser avô de verdade, já que somente há cinco foi pai pela primeira vez.

No mesmo caminho, o aposentado Pedro Dorigo, 62, não se afasta da boa e velha música, mesmo após ter sido alertado clinicamente sobre possíveis problemas na coluna por causa da postura para tocar violão. Como não estudei a técnica, a mão fica cansada, pois faço muita força com os dedos. Já toquei até na beirada da cama, um perigo. Tive que parar algumas vezes porque tenho tendinite, comenta, sem perder o entusiasmo. A canção ajuda as pessoas a manterem a expectativa de vida na medida em que alimenta a alma. Dá um colorido único, conclui Dorigo, anunciando a volta do projeto Quarta quarta em 2012, no Hotel Renascença, na Praça da Estação.

Acompanhando o crescimento da expectativa de vida do brasileiro, Juliana Vigiani diz que há um aumento da demanda sobre o bem-estar e o aprimoramento do individuo. A chegada à terceira idade é marcada por grandes transformações no âmbito físico, social e psicológico. A busca de um novo significado para a existência nem sempre é fácil, avalia. É de fundamental importância que sejam mais valorizados aspectos como história de vida, aptidões, sonhos e interesses que as eventuais limitações biológicas que o envelhecimento possa trazer.

Um banquinho e um violão já não são mais suficientes para Pedro Dorigo, que, de uns anos para cá, ainda visa a despertar a memória através de pesquisas históricas sobre o processo de colonização da Zona da Mata Mineira. Sandra Arbex, coordenadora do Pólo de Enriquecimento Cultural para a 3ª Idade da UFJF, recorre ao fato de que a arte não tem idade. Muitas pessoas descobrem seus talentos na maturidade. Dependendo das condições de vida, alguns idosos tinham que se dedicar às famílias, ao trabalho, não dando oportunidade a si mesmos de aprimorarem suas capacidades.

Fora desse quadro, Daisy Aguinaga, 65, se desdobra para dar conta de teatro, pintura, palhaçaria e redes sociais. Fátima (Fafá) Ramos, 51, divide o tempo entre a dança, o teatro e a música; e Mário Galvani, 57, dedica-se ao teatro e a comerciais de TV. A propaganda surgiu naturalmente em função do teatro e do meu registro profissional, conquistado em 2007, destaca Galvani, atual tesoureiro da Associação dos Produtores de Artes Cênicas (Appac) e Papai Noel no Calçadão da Halfeld.

Em outro ponto da cidade, Fafá Ramos anima os visitantes do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) como Mamãe Noel. Não existiria sem a arte. É algo que me move, meu combustível. Faço teatro, dirijo, atuo, escrevo e produzo. Vivo disso, não sou aposentada, confessa a atriz.

A população idosa em JF, segundo dados do IBGE, conta com mais de dez mil acima de 80 anos. Mas como podemos analisar a capacidade que o idoso possui de articular pensamentos, sentimentos e ações frente a novas situações? Sandra Arbex acredita que as velhices são diferentes. Dependendo das condições socioeconômicas e culturais de cada um, teremos respostas diferenciadas, mas não melhores ou piores, e sim referentes ao universo de cada um, teoriza. Um aspecto aqui é saber interagir com ele diante de novas situações, mesmo porque hoje o idoso já avançou no entendimento de seus direitos e sabe que pode fazer suas próprias escolhas.

Distante dos holofotes, embora não dos aplausos do público, Maria Nazareth Carvalho lançou sua primeira publicação (A menina da fazenda) aos 80 anos. O livro só veio agora, porque antes não havia juntado as coisas, diz a escritora, que há 40 anos aportou em Juiz de Fora, onde se aposentou e iniciou seu ingresso na literatura a partir dos 70 anos. Assim como o memorialista Pedro Nava, nascido em 1903, que publicou sua primeira obra literária, Baú de ossos, aos 69 anos.

O rito se ancora na narrativa. Contar histórias, revelar experiências e reviver o passado acelera a memória e desperta a felicidade, aposta José Luiz Ribeiro, ao defender o repositório de conhecimentos independente da escolaridade e sugerir formas de desenvolver e aprimorar, nos idosos, o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades. No meu caso, que é o teatro, é só dar um texto, ensaiar bem, despertar pesadelos com o dia da estreia e depois jogar luzes e tirar muitas fotos. Mostrar a capacidade de surpreender filhos e netos com um talento adormecido, conclui.

Entre os artistas ativos da cidade, certamente Lucy Tristão, 95, figura no panteão dos mais (bem) vividos. Artista plástica aposentada, ela acredita que a vitalidade vem das colagens que ainda realiza e expõe. A gente tira forças não sei de onde, mas tira. Ano que vem quero fazer uma nova exposição bem colorida, se estiver viva, anuncia Lucy, cuja expectativa de vida é capaz de sobrepor quaisquer índices de mortalidade. Afinal, como dizia o dramaturgo Bertold Brecht, todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.