Esquecido na terra, lembrado nas telonas
"Como que alheio a tudo que me cercava, certa vez, ouço, vindo de muito longe, um berro triste e prolongado que, até então, nunca ouvira. (…) Ninguém me acreditou. (…) e por mais que eu jurasse ser verdade o que dissera, todos me chamavam sonhador. Mas, apesar disso, a romaria à serra continuou e o berro do trem de ferro foi, afinal, ouvido por todos…" O episódio que foi merecedor da pena de Belmiro Braga, cujas memórias revelam que o Trovador de Vargem Grande, por muito tempo, foi "apontado em casa e na vizinhança como a primeira pessoa que ouvira o apito do trem de ferro naquelas redondezas" também não passará despercebido pelas lentes das câmeras de produtores de Juiz de Fora.
Assim que o recurso for captado – algo em torno de R$ 2 milhões, montante audacioso para o cinema da cidade -, César Kluska, Gláucia Rabello, Josy Brazil, Eduardo Hargreaves, Jéssica Teixeira, Kenji Dan e Chester Marcone partirão para São João del-Rei, onde estão os trilhos da Maria Fumaça, que servirá de locação para uma das cenas do filme "Belmiro Braga – nasce o poeta".
Ambientado no final do século XIX e início do XX, o longa-metragem se valerá, ainda, de paisagens de Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Belmiro Braga, outrora conhecida como Vargem Grande e Obitiguaia. Foi onde o poeta residiu com os pais, trabalhou na venda de beira da estrada da família e "aprendeu as primeiras letras, revelando-se um incansável curioso, querendo saber as razões e os porquês de todas as coisas da vida", conforme conta a professora e escritora Leila Barbosa. Sobrinha-neta do escritor e autora da dissertação de mestrado intitulada "Belmiro Braga: Sacrário (versos íntimos): texto e avaliação", ela é uma das principais fontes de pesquisa para a produção, que trabalhará com dados reais, mas sem a preocupação de se restringir a eles.
"Qualquer resgate de memória é fundamental. Belmiro Braga foi uma pessoa muito importante não só para a literatura de Juiz de Fora, mas para a sociedade brasileira. Ele teve obras traduzidas para o francês e o espanhol. Existem filmes sobre Murilo Mendes e Pedro Nava, e acho que faltava um sobre ele", comemora a escritora, compartilhando saberes adquiridos em seu arquivo íntimo e de carne e osso. "Tio Belmiro desmontava livros para ler no trabalho. Com o passar do tempo, descobri coisas interessantíssimas. Quando o Gonzagão esteve aqui para servir o exército, ele foi ajudante de ordem do filho de Belmiro, o José Epitácio Braga. Fui muito na casa do Epitácio, e só descobri isso anos depois, quando fui fazer a revisão de um livro do pessoal da Educação Física."
Responsável pela direção, Kluska possui no currículo a produção de elenco de "Cazuza", "O coronel e o lobisomem", "Tropa de Elite", além da assistência de produção em "Olhos azuis", "Reis e ratos", entre outros. A expectativa dos idealizadores do projeto é começar as gravações logo no início de 2015, contando com atores de fora da cidade e de Juiz de Fora. Para o papel do protagonista, está sendo estudado um nome de destaque nacional.
Do banco da escola para o balcão de venda
Chester Marcone, que assina a direção de fotografia, conta que a decisão de estampar vida e obra de Belmiro Braga na tela grande surgiu há sete anos, embora possa-se dizer que a ideia o acompanha como uma sina há, pelo menos, três décadas. O cineasta de 38 anos nasceu em Juiz de Fora, mas foi alfabetizado em escolas da pequena localidade. "Os poemas dele me fazem lembrar a minha vida de interior. É uma trajetória que tem a ver com a minha luta", observa Chester, que se espelha no "conterrâneo". De acordo com Leila Barbosa, o tio literato teve uma modesta formação escolar onde morava, tendo "estudado com professores sem muita abertura e com poucos conhecimentos". Rumou para Juiz de Fora, aos 11 anos, e aqui cursou oito meses no Atheneu Mineiro. Contudo, em outubro do mesmo ano (1883), com a morte da mãe, "trocou, então, o banco da escola pelo balcão de venda", comenta a professora.
"Existe uma parte da vida de Belmiro que me comove demais. Ele foi para Carangola porque brigou com o pai, dormiu no chão e não tinha dinheiro para comprar uma bala. Também já passei por várias perdas. Por isso, dou muito valor a essa história. Muita gente reclama da vida sem ter razão. Belmiro queria ser dono do próprio negócio, buscar o horizonte dele. Lá, eu tinha o básico, tive que vir para cá para fazer uma faculdade. Batalhei sozinho sem a ajuda de ninguém, pois meus pais são muito humildes. Comparo a trajetória do escritor à minha. Ele não foi deputado porque não quis", diz Chester, que faz referência ao fato de o autor de "Contas do meu rosário" ter sido candidato ao cargo político, mas ter aberto mão da carreira por opção. Irônico, o trovador não perde a oportunidade de fazer sátira aos governantes, expondo, em versos venenosos, seu próprio programa de governo. Poeta que escrevia sobre o homem, o sentimento humano, o amor, a perda, a pobreza e a mulher, Belmiro Braga produziu em prosa e em verso.
Reconhecido por imortais
Reconhecido pelos grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis, Lima Barreto e Sylvio Romero, ironicamente, Belmiro Braga não conquistou a mesma notoriedade em sua terra natal, conforme Chester e Leila constataram. "Em Belmiro Braga, só achei um livrinho pequeno, que pertencia a um senhor. Quase não tem material para pesquisa. Foi aí que conheci a Leila. É triste ver que o nosso município teve um poeta, mas não tem vestígios dele", lamenta Chester. O material utilizado para o roteiro também foi garimpado na Biblioteca Murilo Mendes e na UFJF.
Leila conta que, ao fazer um levantamento para um livro de turismo sobre o município de Belmiro Braga, ao lado da parceira Marisa Timponi, deparou-se com uma triste realidade. "Eu me senti a Madonna.Todo mundo queria encostar em mim, pois não acreditava que Belmiro Braga existiu de fato e que eu era parente dele, apesar de eu ter familiares enterrados lá", diz a professora, questionada ao decidir escrever sobre o tio, falecido em 1937, pouco antes de ela nascer. "Chique era falar de Murilo Mendes, que era da elite. Por que falar de um poeta popular? Sempre me perguntavam isso", relata Leila, relembrando as sábias palavras do trovador. Em um de seus versos, ele parecia vaticinar que as futuras gerações não lhe "dariam o valor que merecia". "Morto, não quero o belengar de sinos,/ enchendo de amargura o espaço imenso,/ nem esses tristes, merencórios hinos/ da charanga do bairro a que pertenço,/ Cante-me o padre alguns textos latinos,/ por entre nuvens de cheiroso incenso,/ mas, desde já, previno: – pequeninos,/ que os textos grandes, com prazer, dispenso…/No cemitério, nada de discursos:/ acautelem-se, ali, dessa estopada/ os bons amigos dos amigos ursos;/ pois, em casa, o orador, à sobremesa,/ dirá, pensando em mim: – Não somos nada./ Lá se foi o Belmiro!… que limpeza!…"









