A Martinica é o mundo
Raphaela Ramos
Em suas poesias, Joby Bernabé trata do homem universal. Aquele visto em qualquer lugar, com as mesmas angústias e alegrias. Usando o francês e o crioulo, o artista martinicano de voz grave passou quase um mês declamando suas criações pelo país. Prova incontestável de que os seres se entendem e se reconhecem. Em Juiz de Fora, a apresentação, promovida pela Aliança Francesa em parceria com o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), aconteceu na última segunda. Pouco antes de receber o público formado por professores, alunos e interessados, Bernabé conversou com a Tribuna, sendo traduzido pela professora da Faculdade de Letras da UFJF Jovita Noronha.
Ao levar seus poemas para o microfone a partir de 1980, Joby Bernabé não fazia exatamente o que se esperava dele. Na Martinica, departamento francês no Caribe desde 1946, são tradicionais as contações de histórias ligadas às alegorias, ao maravilhoso e a personagens lendários. Essas narrativas têm início nos velórios do tempo da escravidão, explica o poeta, que prefere levar temas engajados, locais e gerais, para sua arte. Um pouco solitário na trilha escolhida, ele propõe o resgate cultural da língua crioula e o desenvolvimento de suas possibilidades poéticas. Há apenas 20 anos, conforme afirma o artista, o idioma nascido do francês passou a ser estudado nas universidades e considerado apto para obras estéticas.
Viver da arte
No recital feito por aqui, Bernabé mostrou poesias autorais e outras de grandes nomes, como o chileno Pablo Neruda, o intelectual francês Aimé Cezaire e o martinicano Édouard Glissant. Ele também costuma ser acompanhado por músicos e, nesse formato, já gravou alguns álbuns, inclusive um CD duplo em comemoração aos 30 anos de carreira. Em seu território – que já foi colônia francesa e, hoje, busca mais autonomia – o artista promove dois grandes espetáculos por ano e faz diversas declamações em hospitais e prisões. De acordo com ele, o público vem se familiarizando com o perfil de seu trabalho. Quando comecei, não havia o hábito de se apresentar poemas por lá, comenta, acrescentando que, apesar das conquistas, as salas ainda dão prioridade à música pop e dançante.
Bernabé também é ator de cinema e teatro, tendo morado na França entre 1963 e 1976. Além disso, fabrica joias e objetos de decoração. Vivo da minha arte, diz. Encantado com a acolhida verde-amarela, o poeta, que visitou 18 cidades e retornou a seu país na última sexta, assegura que a língua não é um empecilho para a compreensão de suas histórias, principalmente se há a presença da música. Mas é preciso que o espectador descubra outras formas de interpretação, para não sair frustrado. Mesmo assim, o martinicano deseja, em breve, voltar ao Brasil com o português na ponta da língua. Penso em trazer três instrumentistas e recitar poesias em vários idiomas, avisa, contando que também já foi professor de espanhol.
Realidade fora do cartão
Antes de pousar em Belém (PA), primeira parada de Bernabé, ele imaginava as terras brasileiras como elas são nos cartões-postais. Copacabana, futebol, mulheres e violência eram os assuntos que passeavam pela mente do artista. Mas tal conceito se transformou por completo. Isso tudo é uma pequenina parte. Vejo muita potencialidade, energia, suingue e uma relação intensa com a vida, menciona, elogiando o clima humano do país e o profissionalismo das pessoas que o acompanharam. Senti-me melhor aqui que na Martinica, brinca, antes de se despedir com um bem pronunciado obrigada.









