O mundo é o tamanho exato
Um apartamento simples ao lado da casa da mãe. Isso era tudo o que Lívia Lucas queria quando terminou a faculdade de jornalismo. Um sonho que mal dobrava a esquina. Até que um conselho torto chegou aos seus ouvidos: está na hora de sair. Foi assim que a cantora começou a pensar em Barcelona, na Espanha. Uma amiga disse que eu precisava ver o mundo. Coloquei essa ideia na cabeça e não tirei mais, contou ela enquanto cumprimentava um conhecido aqui e ali. Extrovertida, Lívia conversou com a Tribuna na última semana, pouco antes de retornar à Europa, onde vive há quatro anos. Durante a entrevista, escolheu acessórios que usaria em um show, resolveu questões com o pai pelo celular e ainda marcou um chope com amigos. A menina parece estar em vários lugares ao mesmo tempo. Moro em Barcelona, mas mantenho minha carreira no Brasil. Sinto que ela também está aqui. Em outubro, a artista volta à cidade para uma apresentação que já está marcada. Mas ainda é surpresa.
Até conseguir seu primeiro espetáculo no Velho Mundo, Lívia passou bom período dando canja em barzinhos, procurando emprego e pulando roleta de metrô. Ficou dias com apenas um euro na carteira. Eu morava com um casal de amigos. Quando estava prestes a voltar, consegui uma vaga para entregar panfletos nas ruas. Pouco depois, uma francesa – que ela havia conhecido em Juiz de Fora e para quem enviou um DVD – ligou dizendo ter agendado três shows em Paris. Aquele era só o início.
Apesar de cantar quase toda noite e sempre sair em turnês, a mineira ainda não vive só da música. Escreve para um jornal francês, vende artesanato, cuida de bebês e dá aulas de dança e musicalização para crianças. Essa última atividade é uma grande paixão. Certa vez, Lívia encarou uma mamãe Noel black power em um trabalho de divulgação. As pessoas têm uma ideia equivocada da Europa. É preciso ralar muito por lá. A rotina agitada e os percalços sempre foram vistos com bons olhos pela artista, que se diz apaixonada por Barcelona. Existe um magnetismo que me segura no lugar. A saudade da família e dos amigos, entretanto, virou companhia costumeira e suportável. A cantora sabe que precisa ser assim, afinal não pretende parar de dar suas voltas pelo planeta, apesar de não perder a identidade brasileira.
Há pouco tempo, esteve na Índia e se encantou pela música local. Meu professor de canto se tornou meu guru. Casada com um argentino, a juiz-forana tem prazer em fundir diferentes culturas e ritmos: salsa, flamenco, samba. Numa noite de Natal, chegou a reunir em casa 45 amigos de vários países. Isso me dá energia. É uma catarse. Da mesma forma, sente-se plena diante da plateia que, tanto estrangeira quanto verde-amarela, sempre a recebe calorosamente, embora os europeus sejam um pouco mais críticos e atentos, como completa ela. Certa noite, ganhou cem euros de um espectador para cantar Negue, canção conhecida na voz de Maria Bethânia. O violonista não queria tocar, mas quando viu a nota na minha mão, perguntou depressa: ‘qual é o tom?’, relembra ela.
Sempre que retorna à Juiz de Fora, Lívia contabiliza as mudanças, entre elas, o aumento do público e do interesse pelas autorais proporcionado pelo Encontro de compositores. Também sinto que as pessoas estão mais conscientes, dispostas a lutar contra determinado padrão de comportamento já falido.
De férias por aqui, a cantora aproveitou para firmar parceria com o Quinteto São do Mato, com quem gravou dois clipes. Também se aproximou do coletivo Sem Paredes. Como não paro de falar, faço muitas amizades. Talvez seja esse seu trunfo para enfraquecer qualquer barreira, inclusive aquela que a impedia de sonhar além do quarteirão.









