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A arte de perfumar palavra


Por RAPHAELA RAMOS

24/12/2011 às 07h00

Quando palavras ditas alcançam cor, forma e cheiro, é certo que foram lançadas por um bom contador de histórias. Em muitas culturas, a transmissão oral de conhecimentos resume e resguarda a identidade dos povos. Ao longo dos tempos, ela esteve no cotidiano das pessoas, mas também conquistou espaço na cena, tanto para estimular a leitura quanto para valorizar a oralidade. No período do Natal, não faltam lendas capazes de encantar, principalmente, os pequenos. Desde o último dia 6, o Complexo do Papai Noel, montado no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) pela Funalfa, acolhe um grupo de duendes especialistas em prosear. A base do trabalho foi o conto ‘Natal à moda mineira’, sem os típicos elementos estrangeiros, conta a professora e escritora Margareth Marinho, que orientou os 14 atores envolvidos. O evento se encerra hoje.

Segundo Margareth, na área há mais de dez anos, o perfil do projeto exigiu enredos curtos, que se misturassem às muitas atrações do complexo: casa, escritório e oficina do Bom Velhinho. As crianças ficam deslumbradas, não permanecem muito tempo quietas. A atriz Kiara Luz comenta que o figurino dos duendes, com pantufas e chapéu pontudo, ajuda a chamar a atenção do público infantil. De acordo com ela, meninos e meninas chegam ávidos por fantasia. Dessa forma, a comunicação é uma questão de minutos. Basta olhar nos olhos e ter paciência para identificar os interesses de cada um.

Na opinião do ator Tom Brynner, mesmo entrecortados por outros momentos da visitação, os textos são assimilados pelos pequenos, tanto que muitos retornam ao local sabendo repeti-los. Para Brynner, que participa da proposta há três anos, o contador deve se preocupar com o carisma para fisgar os espectadores logo no início. Só assim é possível dominar um grupo grande.

A coordenadora das oficinas de contadores de histórias do Instituto Metodista Granbery, Laura Delgado, acredita que o principal pré-requisito para exercer o ofício é ser um exímio leitor – de clássicos e da vida. É preciso saber ler o ser humano. Porém, conforme ressalta Laura, nem todos os textos são próprios para se contar. A experiência nos ajuda a diferenciá-los.

Outra característica dos bons proseadores é o conhecimento das próprias raízes. Segundo Laura, na atividade há 26 anos, cada indivíduo faz interpretações particulares de temas universais a partir de suas vivências. Cintia Brugiolo, integrante do grupo local Contaê, concorda. Para ela, essencial em um trabalho dessa natureza é ter familiaridade com o assunto. Se os contadores não gostam do enredo, a plateia também não vai gostar. Ela destaca ainda a desenvoltura para lidar com o imprevisto. O Contaê, formado em janeiro, propõe a participação do público. Se alguém faz uma pergunta ou um comentário, o jeito é pensar rápido, ensina Cintia, que atua ao lado de Kadu Mauad e Carolina Tagliati em repertórios para crianças, adolescentes e adultos.

Na visão de Margareth Marinho, os pequenos são mais receptivos que os pais, embora os mais velhos percam a inibição ao longo do espetáculo. Para ela, o contato com narrativas variadas contribui para a formação e a transformação do sujeito. Ajuda-o a lidar com os problemas e a ressignificá-los.

Apesar de continuar sendo tímida e silenciosa, Laura Delgado diz ter aprendido muito com a sua profissão, algo vital para ela. Sempre soube que seria professora e contaria histórias, afirma, citando os clássicos lidos na infância ao lado do pai e logo repetidos para bonecas e amigos. Sonhava em esquecer os enredos, pois queria sentir a mesma emoção novamente.

Cintia Brugiolo também teve contato com a literatura quando menina. Perdia-se em uma livraria infantil, sempre acompanhada pela mãe. Mais tarde, ingressou no teatro, que a aproximou da contação, ainda na Companhia de Atores Academia. Ela salienta as diferenças entre as duas atividades. O ator vê a narrativa de dentro. O contador, de todos os lados. Laura acrescenta que se o teatro está baseado na ação, a arte de prosear tem foco na palavra. A arte-educadora indica vários autores e organizadores de contos da tradição oral, como Câmara Cascudo, Ana Maria Machado, Celso Sisto, Regina Pamplona e Ilan Brenman. Para encerrar, as duas artistas mencionam o papel da música, que, além de facilitar o jogo com os espectadores, estimula a coautoria. As canções abrem espaço para o envolvimento e a participação da plateia, arremata Laura.

COMPLEXO DO PAPAI NOEL

Último dia de visitação, hoje, das 10h às 18h

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM)

(Av. Getulio Vargas 200)