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Operárias do sentir


Por BRUNO CALIXTO

08/03/2012 às 06h00

Por meio de um convite da Funalfa, a fotógrafa Paula Rivello, que atua na Tribuna há três anos, foi conferir, de perto, se o diálogo travado entre a mulher e o dia a dia da produção em série na cidade continua movido pelo sentimento. O local? Não poderia ser outro senão uma fábrica de tecidos, espaço que, na Nova York de 1857, desencadeou muito mais que o Dia Internacional da Mulher, celebrado hoje.

"Foi uma oportunidade de observar todos os processos de produção do tecido, a relação das mulheres com esse trabalho tão antigo e ainda poder explorar as cores e as texturas dos materiais", ressalta Paula, sobre as cem fotografias produzidas para a série, cujo tema – "A mulher e o tecido" – permeará toda a programação do mês da mulher.

No próximo dia 20 no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), a fotógrafa mostra, pela primeira vez numa individual, o resultado do trabalho. Hoje, uma prévia será revelada no Espaço Manufato, que, ao projetar as imagens de Paula Rivello, inaugura a agenda de atrações da Funalfa com o lançamento da coleção outono/inverno (série "Tramas") assinada pela casa. "Como as dependências do CCBM estão ocupadas com outras mostras e queríamos centralizar a programação por lá, por ser uma velha fábrica, que tudo tem a ver com o tema desenvolvido esse ano, não será hoje a abertura da exposição ‘A mulher e o tecido’", justifica Silvana Lemos, da subsecretaria de cultura da Funalfa.

Durante duas manhãs, Paula Rivello executou a idéia na fábrica João Evangelista, no Bairro Floresta, uma das únicas a trabalhar com 100% da produção em algodão. "Foi o suficiente para registrar a força misturada com a suavidade do toque das mulheres manuseando o tecido, o algodão, o tear", conta. "O peso e a brutalidade das máquinas contrastava com a leveza do toque das mãos no algodão. E, ainda, para minha sorte, a fábrica é antiga, com construção do início do século passado." Buscando interferir o mínimo possível nas ações das trabalhadoras, Paula só pedia para suas "musas" tirarem as máscaras e outros equipamentos de segurança que tampassem o rosto.

A respeito do encontro promovido pelo Espaço Manufato esta noite, a seqüência intitulada "A inspiração vem de onde?" é composta por "uma grande instalação", em que vestidos, blusas, saias, bolsas, almofadas, álbuns e cúpulas de abajur convivem com quadros e objetos de arte que integram a ambientação do atelier. "O material predominante é o tecido 100% algodão da fábrica de tecidos São João Evangelista. Os demais materiais (veludo, cetim e malha) entram em detalhes, fazendo uma brincadeira com as possibilidades, pois a gente brinca com a forma", destaca Fernanda Cruzick, uma das proprietárias do local. "Peças originais em tear ou trançado manual também aparecem em algumas peças, além de uma releitura de crochê e bordados", completa Renato Abud, outro proprietário.

 

Tecendo tramas e ampliando diálogos

Referência ao pioneirismo de Juiz de Fora, a antiga fábrica de tecidos, hoje Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), abriga a maioria das cerca de 20 atividades previstas para comemorar o mês da mulher, entre oficinas de arte, debates e shows com Sandra Portella, Lúdica Música! e Matilda. Tudo, conforme a organização, foi direcionado para a inserção e o destaque da mulher no mercado de trabalho.

"A tecelagem manual tem a ver com o contar histórias, com lendas e arquétipos, e os próprios termos se confundem e se misturam. Posso, por exemplo, urdir um tecido (colocar os fios no tear no sentido vertical) ou urdir um plano. A trama é o fio que passa no sentido horizontal, mas trama também é um enredo – significados comuns no fazer artesanal e no contar histórias", aponta Érika Senra, que coordena a oficina de tecelagem manual a partir do dia 20. "O importante é o resgate de uma técnica artesanal que vem se perdendo ao longo do tempo. Hoje, em Ibitipoca, onde aprendi a tecer com Dona Benevinda, ninguém mais tece", observa.

Donas da própria marca, Gabriela Gonçalves, da Maria Buzina, e Raquell Guimarães, da Doisélles, também entraram na programação. No dia 15, Raquell ministra a palestra "Projeto Flor de Lótus – Trabalho executado na Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires", em que destaca o ofício de tricô e crochê executado na unidade prisional do Bairro Linhares. "É um trabalho difícil, pois é mais doméstico. Se colocar um anúncio no classificados, nenhum interessado aparece. Por isso decidi treinar a mão de obra entre os presos, criando, assim, oportunidade de reinserção social, além de comercializar a produção no Brasil e no exterior", observa Raquell. "Sou mulher e idealizadora, e a maioria das empresas não sobrevive por muito mais que um ou dois anos. Sou mãe e sou esposa. Dividir-se em várias é o maior desafio da mulher hoje", apregoa Gabriela, que assina uma oficina de empreendedorismo a partir do dia 21.

No dia 22, o analista João Paulo Palmieri (Sebrae/MG) promete tratar, sobretudo, de oportunidades para as mulheres no mundo dos negócios. "Temos inúmeros exemplos de casos em que a mulher não deve ficar refém do emprego formal apenas. Há índices que apontam o crescimento do número de mulheres inseridas no mercado numa situação acima do cargo técnico, apesar de o desafio ainda ser o salário", finaliza.