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Aberta a temporada erudita


Por LEONARDO TOLEDO

17/07/2011 às 07h00

Talvez seja por causa da temperatura amena, mais próxima ao clima europeu, mas o fato é que o inverno consolidou-se como a temporada da música erudita no Brasil. No mês de julho, orquestras e solistas estão mais presentes em salas de concerto e espaços públicos do que em qualquer outra época do ano. Espalhados por diferentes regiões do país, os festivais de música e cultura divergem em proposta e proporção. Em Juiz de Fora, começa hoje o 22º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, evento que tomará ruas e teatros da cidade nas próximas duas semanas, atraindo espectadores e alunos de 17 estados. A programação será aberta com recital do Duo Assad, às 20h30, no Cine-Theatro Central.

Apesar de algumas atrações culturais em comum com outros eventos do gênero, o Festival do Pró-Música manteve um perfil bastante específico ao longo de suas duas décadas, a começar pela proposta temática. O evento em Juiz de Fora é o único do país a se dedicar ao repertório colonial e antigo. "É uma característica forte o fato de o festival ser temático. Os outros são mais ecléticos. Nosso grande sucesso talvez seja esse. Fomos fundo nessa questão e ganhamos repercussão", comenta a diretora executiva do Pró-Música, Maria Isabel de Sousa Santos, referindo-se à programação oferecida em cidades como Ouro Preto, Petrópolis, São João del Rei, que promovem espetáculos de música erudita entre outras atrações, como shows de MPB, peças de teatro e espetáculos de dança.

Voltados exclusivamente para a música, eventos como o Festival de Londrina, no Paraná, diversifica nos estilos presentes na programação, variando do clássico à MPB, com espaço também para os musicais de teatro. A maioria dos espetáculos tem entrada franca, embora haja exceções. Em sua segunda edição, o Festival Internacional de Música Erudita de Piracicaba – aberto ontem no interior paulistano – procura se firmar com uma proposta bastante semelhante à de Juiz de Fora: com ênfase na formação de público para a música clássica e programação gratuita.

Entre os eventos exclusivos de música, o Festival Internacional de Campos de Jordão concentra atenções pela quantidade de atrações – são 55 concertos nesta edição -, pelo renome dos convidados ou pelo status alcançado por esse pedaço da Serra da Mantiqueira. Mesmo com contingenciamento de R$ 1 milhão, o evento chega a sua 42º edição com o respeitável orçamento de R$ 5,5 milhões. Uma soma que se torna ainda mais expressiva quando comprada aos R$ 400 mil gastos pelo Pró-Música. Apesar de haver recitais gratuitos no festival paulistano, a maioria dos concertos é paga, com ingressos a partir de R$ 30. Assistir à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais no auditório Claudio Santoro sai a R$ 100. No próximo sábado, os músicos se apresentam gratuitamente no Cine-Theatro Central.

O diretor executivo do Festival do Pró-Música, Júlio César Santos, prefere evitar comparações. "São formatos diferentes. Campos do Jordão traz outra proposta de grande importância." Maria Isabel Santos reforça, entretanto, que a cobrança de ingressos sempre esteve fora de questão, por contrariar a proposta do festival de formação de público. "É uma questão política. A intenção da instituição sempre foi a de formar público. Se cobrar ingresso, elitiza e acaba não constituindo sua função."

 

Novas expectativas para 2012

Em sua 22ª edição, o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga vislumbra o início de um novo ciclo a partir da próxima edição, quando estará concluído o processo de transição na incorporação do Pró-Música pela UFJF. A perspectiva é de que a universidade – que participa desta edição como patrocinadora – amplie horizontes, trazendo novidades para a programação de 2012. A coparticipação com uma instituição de ensino superior, aliás, é uma realidade de vários outros festivais do país. Financiado pelo Governo de Estado de São Paulo, o Festival de Campos do Jordão conta com o suporte da Tom Jobim – Escola de Música e da Santa Marcelina Cultura. Já o festival paranaense tem o respaldo da Universidade Estadual de Londrina.

A edição 2011 do Festival do Pró-Música ganhou ênfase na questão teórica. O público poderá participar de palestras com os músicos convidados antes dos concertos. Para os alunos, haverá neste ano master classes com cinco professores, incluindo os franceses do grupo Doulce Mémoire. A programação cultural reforça essa proposta com destaque para a apresentação de programas temáticos. "Essa é a oportunidade de o espectador presenciar uma obra completa. São concertos que exigem fôlego, não uma amostragem como acontece geralmente", sintetiza Maria Isabel Santos.

Para abrir o evento, o Cine-Theatro Central recebe o Duo Assad, formado pelos irmãos violonistas Sérgio e Odair Assad. Com carreiras consolidadas nos Estados Unidos e na Bélgica, respectivamente, os músicos são responsáveis por uma maneira inovadora de tocar violão. O padrão criado pela dupla influenciou jovens instrumentistas e inspirou autores a comporem especialmente para os dois. Nesse grupo estão incluídos nomes como o do argentino Astor Piazzolla, além de Radamés Gnattali, Jorge Morel e Francisco Mignone.

No espetáculo de hoje, o duo apresenta um repertório variado, que vai do erudito, em transcrições para o violão de obras de Bach, Rameau e Scarlatti, a canções folclóricas, passando pelo jazz e pela música latina. No show, estarão composições de Gershwin, Ginastera e Debussy. Atualmente, Odair mora em Bruxelas e dá aulas de violão na École Supérieure des Arts, e Sérgio reside em São Francisco, onde ensina na SF Conservatory. "Os irmãos Assad são expoentes internacionais, conhecidos como duo no mundo inteiro", comenta Maria Isabel Santos.