Para rir muito ou não
Às voltas com montagem de iluminação e cenário, o ator e diretor Marcos Marinho fez uma pausa, na tarde de segunda-feira, para conversar com a equipe da Tribuna. O clima era de produção. Enquanto a trupe da Caravana Mezcla de Palhaços não ocupava o palco, este era tomado por gelatinas (folha translúcida colorida para ser colocada sobre refletores), spots, papel contact, escadas, extensões, alicates e elementos cenográficos. Apoiada pela Lei Murilo Mendes, a temporada de "Perdida! Electra num mundo de palhaços" será aberta nesta quarta-feira (20), com apresentações até domingo, sempre às 20h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Já com data para estrear no Chile, o espetáculo dirigido pelo chileno Alberto Kurapel e Marinho reúne o clássico de Eurípides a elementos do circo, do teatro e da performance.
"O texto de Eurípedes é mais político, não fica só na mitologia grega. Ele coloca os personagens na terra, com classes sociais e luta de poder, ao contrário de outros dramaturgos que ficaram mais no nível das emoções, do fantasmagórico e das alegorias do Olimpo", comenta Marinho. Concebida e adaptado por Kurapel, a peça traz a já conhecida história, sem qualquer modificação em sua estrutura, porém de forma sintetizada. "Nos nossos dias, as pessoas não suportam uma peça de quatro, cinco horas. Nem os atores. O Kurapel quis ressaltar o complexo de Electra, que é a relação conflituosa entre mãe e filha."
Electra está entre o amor e a vingança, atormentada e atormentando, tropeçando com o coro de palhaços, enquanto espera a volta de seus irmãos do exílio para vingar a morte do pai. A visita de sua mãe, que veio atraída pela falsa notícia de que teve um bebê, possibilita a grande perdição. Para levar a trama ao público, Aliciane Rodrigues, Ligia Brasil, Mara Bontempo Reis, Marinho e Revelino Mattos emprestarão suas "palhacices" às trágicas figuras gregas, e a plateia é avisada da façanha. "Isso fica bem claro no figurino, no comportamento de palhaço que a gente tem o tempo inteiro, naquela coisa abestalhada, fora de lugar. A gente começa o espetáculo anunciando assim: Marcos Marinho é o palhaço Zé Boléo. O palhaço Zé Boléo representa o agricultor e o velho sábio. Aliciane Rodrigues é a palhaça Chiquinha Lelé. A palhaça Chiquinha Lelé representa Electra", explica Marinho.
Segundo o diretor, o momento de transição para os novos papéis acaba deixando em evidência ideias antigas e certeiras. "A tragédia e a comédia estão muito próximas, talvez seguindo cada uma para um lado, mas no mesmo caminho, como se as duas estivessem na mesma estrada, podendo se chocar no meio. Temos momentos terríveis de violência que se choca com a desorientação do palhaço", explica o diretor juiz-forano. "Nossos mestres falam que o palhaço é um espelho, um protótipo, uma demonstração do ser humano inteiro, grandioso e medíocre, esperto e tapado ao mesmo tempo."
Trilha que embala uma história
"A cadeira do rei está vazia/ Quem será o herdeiro desse trono/ Já disseram que existe uma rainha/ A cadeira do rei tem dono, tem, tem./ Quisera eu ser o felizardo/ Para ficar com a rainha do rei ao meu lado/ Morreu o rei mas não morreu a batucada/ A cadeira do rei está sendo disputada." Interpretada por Jackson do Pandeiro, "A cadeira do rei" é uma dessas letras que parecem compostas diretamente para determinadas histórias. Não por acaso, faz parte da trilha sonora do "Perdida!", que ganhou nova roupagem pelos meninos do 4Zero4 (Robert Antony, Yago Franco, Stanley Palmeira e Fred Fonseca).
Além do som mais que brasileiro de Jackson e Pixinguinha, entre outros, serão ouvidos compositores eruditos, como Heitor Villa-Lobos e Dvorák. "Puxei para o chorinho, o baião e o samba antigo do início dos anos 1910 e 1920. O erudito dá um tom mais dramático, pelo menos este que escolhemos, e vai ser usado nos momentos mais pesados. O popular é muito bom para o palhaço brincar. A música do Jakson nós cantamos ao vivo brincando, porque parece ter sido escrita para nós."
Um cenário prático, que permite ser levado para qualquer lugar, inclusive para fora do país, como é a intenção, nos remete para aqueles antigos circos sem cobertura. "Aos circos tomara que não chova", brinca Marinho, também idealizador do cenário. E o resultado, mais uma vez, contribuiu para deixar latente a nossa brasilidade. "A peça virou uma tragicomédia, um drama circense. Aliás, é um tipo de teatro e de circo muito próprio do nosso país. Os historiadores dizem muito isso: ‘Se existe uma característica do circo que é própria do Brasil é o drama circense’. É um drama, mas é engraçado. É tão exagerado que você não sabe se ri, se não ri, se ri muito. O cara está matando o outro, e você está morrendo de rir por causa da maneira como isso é feito."
O mentor disso tudo
O primeiro contato de Kurapel com um membro da Cavana Mezcla de Palhaços aconteceu em 2010. Marinho estava no Equador com a peça "Meu dia perfeito", quando foi visto pelo diretor, compositor, professor e dramaturgo chileno. Daí em diante, até a vinda dele a Juiz de Fora, em 2012, a relação foi se estreitando por meio da internet, ferramenta bem útil durante os últimos ajustes do espetáculo.
Mentor da proeza que "entrecruza uma estética com gêneros e estilos aparentemente contraditórios", Kurapel é autor de dez livros de poesia, quatro de teoria teatral e mais de 20 textos teatrais. Alguns deles apresentados pela trupe do Mezcla. Das passagens que marcam sua biografia, uma merece destaque. Funcionário do Departamento de Teatro da Universidade do Chile e acompanhante da família Parra por recitais de música, poesia, leitura de textos e performances, pelos idos de 1973, quando Pinochet bombardeou o Palácio La Moneda, iniciando uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina, ele foi obrigado a seguir para um exílio de 18 anos no Canadá.
PERDIDA! ELECTRA NUM MUNDO DE PALHAÇOS
Estreia nesta quarta-feira (20), às 20h30. Em cartaz até domingo, no CCBM (Av. Getúlio Vargas 200)









