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Tempos de nova escrita


Por Mauro Morais

20/10/2016 às 09h07

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Carolina comanda novo espaço cultural em Juiz de Fora, o Arteria (Foto: Marcelo Ribeiro)

Pingo-de-Sol, Pingo-de-Céu, Pingo-de-Fogo, Pingo-de-Flor, Pingo-de-Ouro, Pingo-de-Mar e Pingo-de-Lua já saíram da infância há tempos. Os sete personagens nascidos de uma gota de tinta da paleta de Eliardo França cresceram, tornaram-se amplamente conhecidos e enfrentam o tempo com o mesmo vigor com que ilustram as histórias de Mary França. “Embora já tenham idade para ser adolescentes, os Pingos continuam crianças”, brinca ela. Na nova coleção “Quintal dos Pingos”, o casal literário atualiza uma de suas invenções de maior sucesso. “São livros em grandes formatos, que brincam com a matemática. Eles têm uma técnica diferente dos demais, porque misturamos fotografias de cenários, criamos o lugar onde os Pingos moram e adicionamos as ilustrações”, conta a escritora, mostrando a perseguição do ineditismo numa carreira que caminha para meio século de existência.

“As coisas diferentes vão surgindo no dia a dia, como os cenários, a realidade aumentada. Numa área que mexe com a criatividade, nada fica velho, porém sempre alguma coisa vai se renovar”, defende Mary, que iniciou a parceria com o marido em 1969, aos 21 anos, exatamente dois anos depois de Eliardo estrear ilustrando obras infantis de diferentes autores. “Ele costuma dizer que num belo dia vai tombar sobre a prancheta. Não temos planos de parar. Esse ano, quando vi que estou completando 67 anos, levei um susto. Nem vi os 66 passarem. A gente faz nossos trabalhos com o mesmo entusiasmo do princípio. À medida em que conhecemos a psicologia das crianças, mudamos nosso olhar.”

A produção de fôlego, com dezenas de títulos, pode ser conferida neste sábado, às 17h, quando os dois autografarão velhas e novas obras. Dentre os mais recentes, está “Os cisnes selvagens”, adaptação do conto homônimo de Hans Christian Andersen, voltado para um público infanto-juvenil. “É um texto muito fiel ao original. A partir dele, fizemos um reconto, com uma mudança literária, sem mexer no conteúdo”, pontua Mary sobre a trama na qual uma princesa transforma 12 príncipes em cisnes. “Em 1990, passamos um ano na Dinamarca, estudando os textos de Andersen. Tivemos contato com a Academia de Escritores Dinamarqueses, e um deles, que falava português, nos ensinou detalhes da escrita dele. Quando voltamos, fizemos oito livros baseados na obra dele. Esse seria o nono, mas só está sendo publicado agora”, conta.

O trabalho marca um novo passo. Sem sair dos selos onde construiu uma sólida trajetória, o casal adentra uma nova casa, a Tribos Editora, da gaúcha Passo Fundo. Nela, Mary e Eliardo França ainda lançam, em novo formato, a coleção “Corre cutia”, que por muitos anos pertenceu à Editora Ática. Entre onças, peixes, tucanos e bichos-preguiça, os autores adentram selvas, mares e rios, contando sobre nove animais brasileiros. A trama do coelhinho que ganha um relógio e informa a hora aos amigos, em “O relógio”, que acaba de ser relançado, também dá fôlego novo para a coleção “Gato e rato”. De volta aos “Pingos”, 2016 também marca a entrada dos personagens no universo dos quadrinhos. Ritmo acelerado? Mary nega. “Estamos na mesma toada.”

“Passamos muito tempo em viagem. Acabamos de voltar de Passo Fundo, participando de um projeto chamado ‘Autor presente’. Nas próximas semanas, vamos para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Quando estamos aqui, porém, temos disciplina de trabalho. Fora isso, tem a nossa equipe. Não entregamos mais o original dos desenhos para as editoras, mas o arquivo final do livro. Temos uma equipe grande. A Patrícia, o Augusto e o Lucas (filhos) estão com a gente. Já o Daniel (outro filho) está trabalhando na criação da realidade aumentada para os nossos livros”, diz Mary, que nos últimos tempos pesquisa a melhor forma de falar sobre filosofia para as crianças. Como “Os Pingos”, sempre será necessário se atualizar. “Queremos fazer uma história bonita, engraçada, mas também colocar uma pulga atrás da orelha. Os livros são ferramentas para gostar de ler e, muito mais que isso, desenvolver a inteligência das crianças e aprimorar o pensamento.”

Casa cheia de cores

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Eliardo e Mary França se preparam para comemorar 50 anos de carreira (Foto: Roberto Fulgêncio)

Após três décadas em sala de aula, Carolina Simões resolveu experimentar outros ares. Não abandonou, porém, as ciências humanas. Da pedagogia, voltou seus olhos para a cultura. “Como dei aula a vida inteira para a educação infantil, no Balão Vermelho, de onde eu era sócia, sempre trabalhei com ideias significativas de arte e cultura na educação. Isso me deu o desejo de abrir um espaço cultural multifuncional, com várias atividades, oferecendo oficinas e recebendo eventos”, conta ela, no comando da Arteria – Fábrica de Cultura, uma casa na Oswaldo Aranha, bem no topo da rua, modificada para servir a oficinas, exposições, pequenos shows, almoços e happy hours.

Do Balão Vermelho, Carolina trouxe a abertura às crianças. “Trabalhei por 30 anos. Comecei a estudar lá com 4, porque minha mãe era uma das primeiras sócias. Aos 16, me envolvi como estagiária e fui formando meu espaço”, recorda-se ela, que no novo empreendimento destina um lugar exclusivamente aos pequenos. Bem equipada, a residência alugada ganhou a intervenção de módulos de containers, jardins e ruídos, muitos ruídos das aulas de música. Da guitarra à bateria, passando pelo baixo, violão, acordeom, cavaquinho, teclado e piano, o local retoma uma prática de outros tempos.

“Mudei para cá em 1978 e morei até me casar, em 1997. Mas meus pais continuaram morando aqui até 2007. Já tinha vindo aqui quando servia a uma loja, mas agora, voltando, fico muito feliz. Só tenho lembranças boas dessa casa, dos nossos ensaios. Tem muita história esse lugar”, conta Leandro Scio, cuja família, musical por excelência, ocupou a casa por duas décadas. A história ganha a cena no dia 1º de novembro, quando o Trio O’Clock, de Leandro e do irmão Alexandre (juntos do baixista Messias Lott), se apresenta.
Coisas de família que Carolina também segue à risca, tocando o negócio cultural ao lado do marido Wesley e dos filhos Luan, Óliver e Tales. Com pouco mais de dois meses de portas abertas, ela diz sentir a demanda do juiz-forano, os gostos, os impactos e os públicos possíveis. “Está sendo muito bom, os eventos tem recebido bastante gente e já precisamos, até, fazer reservas”, entusiasma-se, certa de que para a cultura sempre haverá tempo de novas e boas escritas.

SÁBADO CULTURAL

Contação de histórias com Carolina Simões, às 16h, autógrafos com Mary e Eliardo França, às 17h, show do maestro Sylvio Gomes e noite de caricaturas com Talarico, às 19h

Arteria
(Rua Oswaldo Aranha 535 – São Mateus)