Ouça agora

Abastecimento ainda preocupa


Por Tribuna

28/12/2014 às 07h00- Atualizada 30/12/2014 às 14h41

O químico Jorge Almeida mostra que a água de Chapeu D`Uvas chega mais limpa que a do Ribeirão Espírito Santo, e por isso é possível descartar a decantação

O químico Jorge Almeida mostra que a água de Chapeu D`Uvas chega mais limpa que a do Ribeirão Espírito Santo, e por isso é possível descartar a decantação

Com a conclusão das obras, estação poderá ampliar tratamento já em janeiro

Com a conclusão das obras, estação poderá ampliar tratamento já em janeiro

Um ano difícil para o fornecimento de água em Juiz de Fora. É esta a perspectiva que a Cesama tem ao falar do desafio de abastecer toda a população em 2015, principalmente a partir do mês de abril, quando se inicia mais um período de estiagem. Para compreender o cenário que pode assombrar a cidade daqui a alguns meses, é necessário, antes, entender o comportamento do volume de chuvas em 2014. Conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado de precipitações entre o início de janeiro e a semana do Natal, foi cerca de 60% do esperado, considerando-se a média histórica dos últimos 30 anos. Na prática, a estiagem prolongada significa que o município não poderá contar, no ano que vem, com a capacidade total de sua principal represa em funcionamento, que não vai se recuperar a tempo. João Penido opera atualmente com 30% de sua capacidade de armazenamento, sendo que, em anos normais, já estaria cheia e até eliminando água. Chapéu D`Uvas está com 40%, o que corresponde a duas João Penido cheias, e a previsão é que termine o período chuvoso em torno dos 90%.

Por isso, a Cesama já vai começar a colocar em prática o que ela chama de “plano B”: Chapéu D`Uvas será mais demandada que o inicialmente planejado para este primeiro semestre com objetivo de diminuir em aproximadamente 40% a vazão que hoje sai de João Penido a cada segundo. Mesmo assim, o manancial deverá chegar no mês de setembro com acumulação entre 10% e 20%, já que a previsão para o próximo ano é de chuvas até 35% abaixo da média histórica.

O caso de Chapéu D`Uvas é chamado de “plano B” porque a Estação de Tratamento de Água Walfrido Machado Mendonça (ETA CDI) ainda não tem capacidade de tratar toda a água que é capaz de chegar até ela. Inicialmente planejada para limpar a água do Ribeirão Espírito Santo, que é um manancial de passagem, antes de chegar aos lares dos juiz-foranos, agora ela passa por um processo de ampliação para atender também a demanda de Chapéu D`Uvas. Após a conclusão, ela poderá fornecer, sozinha, 1.200 litros de água por segundo no sistema, sendo que a demanda atual de todo o município gira em torno dos 1.500.

 

Estação de tratamento

Conforme o diretor de Desenvolvimento e Expansão da companhia, Marcelo Mello do Amaral, das quatro etapas de ampliação necessárias, três estão concluídas: floculação, filtração e reserva. Falta apenas a decantação. “O projeto de ampliação da ETA concebeu a ampliação física destas três etapas já prontas, construindo novas unidades. Já o decantador (são dois) não era previsto um novo equipamento, e sim a reforma dos existentes. Nossa ideia era reformar um de cada vez para a estação nunca parar de funcionar. Nossa expectativa inicial era que João Penido estivesse cheia, e assim poderíamos parar um decantador nesta época do ano para a reforma, já que a represa poderia suprir a demanda. Mas com todo este problema e a necessidade de fornecer mais água, iniciaremos o plano B. Ou seja, vamos fazer a reforma mais para frente, quando melhorar a situação de João Penido, e o recurso que vem de Chapéu D`Uvas não irá passar pelo processo de decantação. Na verdade isso já é feito naturalmente na barragem, então não irá causar impactos na qualidade da água, que estará no nível de qualidade determinado pelo Ministério da Saúde.”

Com isso, deverão ser tratados entre 900 e 1.000 litros de água por segundo na ETA CDI já em meados de janeiro, divididos igualmente entre a represa e o manancial de passagem. Já João Penido operaria com cerca de 500 litros de água por segundo, sendo que, normalmente, fornece aproximadamente 800. Com os decantadores prontos, Chapéu D`Uvas poderá contribuir sozinha com 900 litros de água por segundo. Para completar o sistema, São Pedro entregará cerca de 100 litros de água por segundo.

Risco de outro ano atípico e Represa João Penido seca

Chegar ao próximo período de chuvas com a Represa de João Penido praticamente seca é uma perspectiva da Cesama faz levando em consideração a possibilidade de precipitações novamente abaixo da média histórica. Embora seja infrequente dois anos atípicos consecutivos, este risco existe e já foi confirmado por alguns especialistas. Segundo o diretor regional do Instituto Climatempo, Ruibran dos Reis, em toda a Zona da Mata a previsão é de acumulado de chuvas entre 30% e 40% abaixo da média histórica nos meses mais chuvosos, entre janeiro e março. “A exceção deverá ficar em janeiro, que deve ter muitas precipitações, mas isso não vai se repetir em fevereiro e março. A boa notícia é que os modelos climatológicos mostram a possibilidade de o próximo período de chuvas chegar mais cedo, em meados de setembro.” O especialista afirma que a atipicidade no volume de chuvas ocorre por uma série de fatores, entre eles, o aquecimento global. “Este fenômeno faz com que as massas de ar seco e quente se fortaleçam, dificultando a entrada das frentes frias.”

Por isso, o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, avalia 2015 como “o pior ano”. “Nosso trabalho será feito para que ninguém perceba as dificuldades, mas é fato que tudo nos leva a crer que teremos o ano mais difícil.” Esta preocupação é tão presente que está sendo adiantado o uso mais intenso da barragem de Chapéu D`Uvas como manancial de abastecimento, o que antes era planejado para ocorrer gradativamente. “Conversávamos esta semana na Cesama que a represa agora tem um papel primordial. Sem ela, estaria instalado o caos. Seria a certeza de falta de água e muita dificuldade de abastecimento.”

Rodízio pode ser prolongado

Desde o mês de outubro os juiz-foranos enfrentam rodízio do abastecimento de água. A medida foi adotada pela Cesama com intuito de preservar os mananciais e garantir água por mais tempo. Seguindo um cronograma pré-definido, um conjunto de bairros de determinada região fica sem receber o recurso uma vez por semana, entre 8h e 18h. A exceção está na Cidade Alta, onde os moradores enfrentam o racionamento duas vezes por semana. Neste período, a companhia estima economia em torno de 6%.

Depois de algumas prorrogações, a Cesama agora prevê que a medida permaneça até o fim do mês de janeiro. No entanto, ela poderá ser novamente prorrogada, embora ainda não se tenha uma definição concreta.

Mesmo assim, o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, explica que o rodízio que poderá ocorrer em 2015 é diferente do observado no início deste ano. Na época, a falta de água ocorreu não pela insuficiência de recurso, mas pela incapacidade técnica de atender todos os bairros ao mesmo tempo. Agora a companhia conta com um equipamento conhecido como booster, capaz de aumentar a velocidade da água na rede e, desta forma, atingir até moradias em ruas muito íngremes.

 

São Pedro

A pequena Represa de São Pedro, responsável por abastecer 8% da cidade, o que corresponde a parte da Cidade Alta, enfrentou em 2014 um cenário assustador. No fim de setembro o manancial secou e não tinha mais a possibilidade de armazenar recurso. Foram necessárias, então, manobras na rede e até transportar água de João Penido para aquela região de Juiz de Fora por meio de caminhões pipa. Tudo isso para evitar o desabastecimento que, pontualmente, ocorreu em ruas de alguns bairros e condomínios. Marcelo afirma que esta situação não deverá se repetir em 2015. A aposta está em outras obras da companhia, já em fase de conclusão.

Uma destas intervenções é da construção da subadutora de São Pedro, que significa a possibilidade de transportar um volume maior de água da parte baixa para a alta da cidade. Assim a Represa de São Pedro poderá ser preservada e se manter cheia até mesmo nos meses mais secos. A previsão é que a obra, já 90% pronta, esteja concluída em junho. “Ela perde água muito rápido, mas também ganha na mesma velocidade. A provável que em janeiro já tenhamos que dar uma descarga para evitar transbordamento.”