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Marlene, amor de mãe a toda prova


Por GUILHERME ARÊAS

08/05/2016 às 07h00

Marlene (de branco) conta com o apoio da vizinha Vânia para cuidar de Lucas, Rodrigo e Paulo (Guilherme Arêas/05-06-16)

Marlene (de branco) conta com o apoio da vizinha Vânia para cuidar de Lucas, Rodrigo e Paulo (Guilherme Arêas/05-06-16)

Marlene. Segundo o IBGE, há 301.055 delas espalhadas pelo Brasil, de acordo com o Censo Demográfico 2010. São 993 em Juiz de Fora. No Bairro Santa Rita, na Zona Leste da cidade, vive uma dessas Marlenes. E é a história dela, a Miranda Ribeiro, de 51 anos, que a Tribuna escolheu para contar nesse Dia das Mães. O amor que Marlene nutre pelos filhos não é diferente do que a maioria das mães sente. Mas as provas dadas pela vida e superadas por Marlene a cada dia trazem essa mãe para as páginas do jornal neste dia.

Sem grande luxo e com paredes fora do esquadro, o quarto principal da casa onde Marlene vive espreme quatro camas: uma de madeira e outras três metálicas, do tipo hospitalar. O cômodo abriga mãe e os três filhos, de 12, 16 e 17 anos, que são portadores de uma doença rara, grave e degenerativa, chamada distrofia muscular de Duchenne. A enfermidade causa a perda progressiva da força muscular e, por isso, nenhum dos três jovens consegue andar ou fazer tarefas simples do dia a dia. A expectativa de vida dos acometidos não costuma ser muito grande. Sozinha, Marlene cuida do banho, da alimentação e da troca de fraldas e de roupas dos meninos. E ainda encontra tempo para cuidar da casa que, apesar de simples, é limpa e organizada.

No dia em que a reportagem esteve na casa da família, Marlene havia passado a noite praticamente às claras. Paulinho, 17, o filho mais prejudicado pela distrofia, tem o corpo tão atrofiado e curvado que os órgãos internos são pressionados e doem cada vez mais. “Ele me chama de 15 em 15 minutos. Não consegue se virar sozinho. Os outros ainda dormem bem à noite”, conta Marlene.

As provações de Marlene não vêm de hoje. “Nasci em Guarani. Quando tinha de 15 para 16 anos vim para Juiz de Fora. Trabalhava na casa dos outros. Era babá, fazia faxina, passava roupa. Cheguei a dormir na Praça Antônio Carlos. Meu irmão foi me buscar. Uma vez fui para o Rio Grande do Sul, trabalhar para um casal de advogados. Eles se mudaram para Manaus, mas não fui, porque tinha medo de andar de avião.”

Até os primeiros sintomas da doença dos filhos, Marlene nunca tinha ouvido falar em distrofia muscular de Duchenne. A doença é hereditária, causada por uma mutação no cromossomo X e afeta principalmente meninos. “O Paulinho caía muito. Depois passou a andar na ponta dos pés. Levei no ortopedista, e ele falou: ‘coloca esse menino no chão, esse menino está é com manha’. Eu o colocava no chão, e as pernas bambeavam”, lembra. Tempos depois, o diagnóstico chegou para os três filhos. Marlene ainda é mãe de um rapaz de 26 anos, que, apesar da hidrocefalia, tem uma vida independente. O marido morreu em março deste ano.

A vizinha e companheira de todas as horas, Vânia Dias, acompanha a família há 12 anos. “Conheço os meninos desde pequenos. Vi todos correndo pela rua. Vê-los nessa situação é triste. Mas são meninos que transmitem alegria e paz. São exemplo de vida. Quantas mães abortam, dão os filhos para os outros ou jogam fora. A Marlene tem um amor incondicional. Ter três filhos que dependem de você para tudo não é fácil. Ela não tem mais vida. Ela vive para os filhos. Merece todas as homenagens do mundo.”

 

Mobilização

No mês passado, Marlene e os quatro garotos não escaparam da epidemia de dengue que assola Juiz de Fora como nunca antes. Entre internações e altas médicas, um grupo formado por vizinhos e voluntários se mobilizou para prestar assistência. A doença se foi e Marlene voltou para a realidade de cuidar da casa e dos meninos.

Questionada se há amor maior do que o de mãe, ela surpreende com uma mensagem: “Em primeiro lugar, tem o amor de Deus, mas mãe é única. Por mais difícil que seja, nunca abandone seu filho. Filho é tudo de bom. É uma benção de Deus. E um feliz Dia das Mães para todas as mães. Eu não tenho mais a minha, mas desejo a todas que sejam muito felizes.”

Feliz Dia das Mães pra você também, Marlene!