‘O que me motiva hoje a brigar é a torcida’

Sobrevivência. Palavra que, segundo o diretor técnico do JF Vôlei, Maurício Bara, serve como sintetizadora de todos os momentos vividos pelo time local na temporada passada. Com redução nos investimentos, a equipe viveu constantemente entre as últimas colocadas da Superliga, principal competição do calendário 2015/16, encerrando a fase classificatória em último lugar, 11 pontos atrás do Copel Telecom/Maringá. A manutenção na elite do voleibol brasileiro só veio após a vitória justamente contra o time paranaense na partida decisiva da Seletiva, torneio que determinou qual seria a equipe rebaixada. Com a vaga garantida dentro de quadra, Bara, no entanto, não esconde o risco dos juiz-foranos abrirem mão da próxima edição da competição, caso o quadro financeiro não seja revertido. Ainda em débito, a diretoria busca novas formas de captação, inclusive com aporte via crowdfunding – financiamento colaborativo, em que várias pessoas investem pequenas quantias em determinada iniciativa. Tendo a torcida como principal motivador, o diretor técnico conversou com a Tribuna, analisando o ano anterior e projetando o futuro do projeto.
Tribuna – Qual o sentimento de poder permanecer na Superliga, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas?
Maurício Bara – Tem um misto de sentimentos. Tem o sentimento do objetivo macro ter sido cumprido, que era segurar nossa vaga, com muito sofrimento, dentro e fora da quadra, com envolvimento de muita gente: atletas, pais de famílias, pessoas com sonhos. Aí veio o outro sentimento, que foi crescer no decorrer da competição, com o entendimento da comunidade, da torcida, da imprensa, de que havia uma dificuldade e que a gente estava lutando contra ela. O público não caía, crescia, torcia. Foi uma coisa incrível. Já vi em torcida de futebol, mas, em relação ao voleibol, foi diferente. O que me motiva hoje a brigar novamente para termos uma equipe é a torcida.
– Você acha que a vinda da Seletiva para Juiz de Fora foi fundamental para a permanência da equipe na Superliga?
– Talvez começamos a galgar ganhar a Seletiva na partida contra a equipe mesclada do Sada Cruzeiro (na última rodada da fase classificatória). Isso ficou evidenciado quando começamos perdendo por 2 sets a 0. Tive muita preocupação durante o jogo. Se a gente perdesse de 3 sets a 0, não sei o que a gente teria que fazer para mudar na Seletiva. Aí, em dado momento, começamos a virar o jogo. Até então, não tínhamos tido uma virada de 2 sets a 0 para 3 sets a 2 na história da Superliga e o sentimento de pertencimento aumentou.
– Além do baixo investimento, o que mais pesou para a equipe ao longo da temporada?
– A demora do encaixe das peças. Acho que a primeira equipe que foi montada não encaixou. Quando começamos a jogar o Mineiro e os Jogos de Minas, e as partidas começaram a ficar mais difíceis, começamos a notar que a gente precisava trocar ou incorporar peças. Outro problema foi que não tivemos o time desde o início. Se tivéssemos este grupo que terminou a Superliga desde o início, em julho, a história talvez fosse diferente. Nos apresentamos em agosto, um mês depois do previsto, o que também faz diferença. Se tivéssemos esse mês de diferença, com esse grupo finalista…
– Em dezembro, em entrevista à Tribuna, você disse que a equipe precisava de cerca de R$ 300 mil, na época ainda não totalmente em caixa. Esse valor foi arrecadado? Terminaram no azul ou no vermelho?
– Terminamos a temporada no vermelho. Claro que estamos correndo atrás do prejuízo, que vira coisa pessoal. São muitas famílias envolvidas e a gente assume o compromisso. O mais duro foi isso, não chegar nos R$ 300 mil e ficar no vermelho.
– Qual o valor da dívida?
– Cerca de R$ 70 mil.
– Qual é o orçamento estimado para a próxima temporada?
– A nossa meta hoje é chegar a atingir R$ 100 mil por mês, por uma temporada de dez meses. Um milhão seria o pacote ideal. Se a gente atingir 60% ou 70% do valor, a gente continua. Abaixo disso, nós não vamos colocar o time em quadra. Se no processo final de captação, até dia 15 de julho, quando a CBV exigir a nossa confirmação, a gente obtiver R$ 300 mil, a gente recua. A não ser que outra pessoa queira assumir o bastão. Recuamos aos parceiros, e informamos que queremos contar com eles para a Superliga B. Ganhamos a vaga dentro de quadra, agora temos que ganhar fora. Este é o grande desafio do momento. Estamos assumindo a dívida no peito, através de empréstimo, mas não vamos deixar ninguém sem receber. Com o orçamento dessa temporada, ficou inviável jogar.
– Já começou a prospecção de novos apoiadores?
– Será um leque de ações. Primeiro com um processo de captação direto, indo às empresas e buscar apoio. Tem o segundo, que não sei se a gente consegue colocar em prática ainda em 2016, que são dois projetos de leis de incentivo ao esporte, estadual e federal, voltadas para a base. Também queremos ampliar o sócio-torcedor, com meta de chegar a cem, pelo menos. Não que isso seja uma fonte de renda, mas que a gente tenha cada vez mais fidelização. E ainda estamos em momentos finais de elaboração de uma plataforma de crowdfunding. Tivemos isso indiretamente na temporada, em que alguns torcedores fizeram doações. Tem uma doação que a gente nem sabe de quem é: a pessoa enviou um e-mail institucional, pediu o número da conta e depositou a quantia.
– Em relação aos jogadores, os contratos terminaram?
– Todo mundo foi liberado.
– Vocês já tem planejamento de renovação?
– Há, mas não há. Há o interesse. A pior coisa que pode acontecer é o desmonte do time de uma temporada para outra, em que você recomeça tudo do zero. Este é um dos motivos pelo qual o Cruzeiro é megacampeão, por conseguir manter uma base por cinco, seis anos. Claro que há interesse. Mas eu não conversei com ninguém e não vou conversar talvez no próximo mês. Espero que daqui a 30 dias, quando eu tiver um indício de verba, eu comece a conversar. E isso implica num risco de perda muito grande. Ninguém vai ficar esperando a gente. Tanto comissão técnica quanto jogadores foram liberados. O desejo é manter os pratas da casa, como Tatinho, Diego, Tarik, além da manutenção de peças que têm identificação com a cidade. Vejo também um futuro muito grande em atletas jovens, que quase ninguém conhecia, como Leandrão e Djalma. Enfim, hoje não excluo ninguém do grupo. Se eu pudesse manter este grupo, e puder contratar mais três jogadores, eu iria para a Superliga. Mas a gente se privou de pensar nisso agora. Pegamos o HD e isolamos essa parte de negociação. Eu torço que o mercado demore a absorvê-los (jogadores da temporada passada).
– Você acha que a crise econômica pode piorar a captação nesta temporada?
– Com certeza. É claro que vamos gramar caminhos que a gente acha que são mais fáceis. Fizemos 120 visitas em tudo quanto é lugar ano passado. O objetivo é ir nos parceiros atuais, para tentar uma renovação. E ir em empresas que possam dar sustentabilidade de valor. Acho que isso vai determinar o nosso sucesso.
– Com a troca de gestão na UFJF, você acredita que possa haver alguma conversa para que eles voltem a investir mais no projeto?
– Acho que podemos ter uma conversa. Mas o momento da universidade é outro. Em determinado momento pensamos conversar, em bloco, envolvendo também outros projetos, como o futebol. É importante mostrar como tais projetos se tornam campo de capacitação não só da educação física, como comunicação, fisioterapia, psicologia, medicina, nutrição, etc. Já vi este entendimento nas palavras do novo reitor (Marcus David), o que me deixa muito feliz. Sei que ele mal sentou na cadeira, mas em um momento correto, vamos conversar. Mas acredito que o modelo hoje também é buscar a captação privada.
– E com a Prefeitura, também pode ter alguma conversa?
– Vamos voltar a conversar. Nunca houve um interesse direto, pelo menos nos anos passados. Agora, com a mudança na Secretaria de Esportes (troca do secretário Carlos Bonifácio pelo interino Michael Guedes) eu quero voltar a conversar novamente. Claro que não vejo a Prefeitura disponibilizando verba para o voleibol, mas se ela puder ser uma centralizadora de contatos com as empresas, eu acho muito importante. E é o que as cidades têm feito. O vôlei de Taubaté existe assim hoje, com ação direta do Poder Público nas negociações.
– E a parceria com o Flamengo. Se a dificuldade financeira continuar, pode haver uma nova negociação com eles?
– É uma possibilidade. Não vamos negar. Só que acho que o Flamengo está enxergando um novo caminho, de começar lentamente, de crescer pelas próprias pernas. Se houver o interesse deles, a gente senta e conversa. Mas vejo hoje que há uma tendência da CBV em fortalecer a Superliga B e uma perspectiva de eles ficarem na B. Se eu puder seguir no nosso modelo, com subsistência real…
– Até quando vocês pretendem apresentar o elenco?
– Se eu puder apresentar a equipe entre 1º e 15 de julho, eu me daria por satisfeito. O tempo é longo, mas, ao mesmo tempo, dois meses passam rápido para captar e contratar. Se apresentarmos em agosto, mas com um grupo definido, está bom também.
– Você acha que seria necessário maior aporte também por parte da CBV?
– Este ano, pela primeira vez, veio um apoio. E isso é mais um agravante: do dinheiro que a gente conseguiu, parte foi apoio deles, para hospedagem, alimentação e transporte. Mas acho que isso precisa ser aprimorado. Esta é a grande diferença que eu vejo hoje entre o vôlei e outros esportes: se o Tupi não tiver nenhum patrocinador, ainda assim ele tem verba para jogar. É preciso dar uma certeza de quais são os 12 times da Superliga. Parece que este ano haverá uma divisão ainda maior entre os quatro primeiros e o restante das equipes: o Sada não vai diminuir o investimento, Campinas, que foi vice-campeão, vai fomentar, o Sesi já está acenando com contratações de Bruninho e Lucão. E ainda tem o Taubaté. Então estes quatro estão vivendo num mundo à parte. A vantagem é que os demais times, que correm o risco de não jogar, não são de empresas, e sim de pessoas que gostam de voleibol. Vamos ver como isso vai se desenhar. Queremos continuar a fazendo voleibol, cada vez melhor. E acaba que vamos ficando mais cascudos também, com a razão comandando o processo. O Toledo (Heglison Toledo, supervisor do JF Vôlei) diz que agora, mais do que nunca, atingimos a nossa maturidade. Nos outros anos foi assim, mas esse último ano, mais do que nunca, aprendemos a fazer vôlei com pouco.









