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Roubos de carros amedrontam


Por MARCOS ARAÚJO E SANDRA ZANELLA

08/04/2016 às 07h00- Atualizada 08/04/2016 às 08h23

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Uma mulher de 38 anos foi rendida com arma de fogo e teve sua caminhonete Toyota Hilux preta roubada, na manhã de ontem, nas imediações da praça do Bairro Bom Pastor, na Zona Sul de Juiz de Fora. Este é o sétimo roubo de veículos em Juiz de Fora em cerca de uma semana. O curto intervalo de tempo entre os crimes faz acender o sinal de alerta a respeito destes delitos no município, onde já aconteceram, desde o início deste ano, pelo menos, 35 casos de assaltos, conforme levantamento realizado pela Tribuna (ver quadro). Chama atenção a concentração de casos nos bairros Bom Pastor, Alto dos Passos e São Mateus, onde foram registradas seis ocorrências. As zonas Sul e Norte concentram a maior parte dos roubos. Entre os modelos, a Hilux foi a mais levada pelos ladrões este ano, com quatro ocorrências. Entre as vítimas, nove são mulheres, a maioria rendida em plena luz do dia.

Em 26 casos, houve uso de armas de fogo. Para especialistas, a presença de armamento nos delitos confirma uma tendência que já havia sido detectada há cerca de dez anos, quando estudos apontaram que o crime na cidade se tornaria mais violento. Em contraposição, a Polícia Militar afirma que operações para retirada de armas das ruas vêm acontecendo em maior número e contribuindo para o aumento das apreensões.

No roubo registrado ontem no Bom Pastor, pouco antes das 8h, a motorista estava a pé na Rua Cristóvão Malta, perto de uma das entradas do Clube Bom Pastor, quando foi abordada por um criminoso com o rosto coberto pelo capuz de um casaco de moletom vermelho. De acordo com informações da PM, o assaltante exigiu a chave do veículo, que teria acabado de ser estacionado pela vítima e, quando ela tentou recuar, sacou a arma e apontou em sua direção.

Assustada, a mulher entregou a chave da caminhonete. O ladrão seguiu até a Hilux e assumiu a direção, deixando o local em alta velocidade. A PM foi acionada e mobilizou várias viaturas no rastreamento, com apoio do helicóptero Pégasus. Militares chegaram a montar um cerco no Vila Ideal, Zona Sudeste, após o rastreador do celular também roubado da vítima apontar um endereço naquela região. Apesar das buscas, nenhum suspeito foi encontrado, e o veículo não foi localizado.

O caso aconteceu no mesmo local do Bom Pastor onde outra mulher, 42, sofreu sequestro relâmpago e teve seu Honda City roubado no dia 23 de março. Ela foi abordada por um bandido armado quando estacionava o carro na Rua Cristóvão Malta. A vítima ficou sob o controle dos bandidos armados por cerca de uma hora, período em que ela foi obrigada a fazer saques, que somaram R$ 4 mil, em caixas eletrônicos da cidade.

Carros são usados em outros crimes

Para o titular da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos, Carlos Eduardo Rodrigues, não é possível ignorar o fato de essa ser a quarta Hilux roubada este ano (ver quadro). “Temos informação de que a caminhonete recuperada em Igrejinha, com as placas clonadas, era encomenda de um traficante. Ele iria mandar esse veículo para fora, em troco de drogas. Tanto que já estava com placa do Mato Grosso. Em relação a outra Hilux, roubada no Jardim do Sol, chegamos à autoria e pedimos o mandado de prisão do rapaz para ver se a vítima consegue reconhecê-lo. Outra, roubada no Nova Era, foi recuperada no mesmo dia.”

O delegado acrescentou que a maioria dos veículos roubada este ano foi recuperada, confirmando que os assaltos estariam sendo realizados para cometimento de outros crimes com o uso dos carros ou motos, muitos deles abandonados posteriormente. “Não temos informação ainda do HB20 roubado no Alto dos Passos. Tentamos rastrear. Estamos coletando todas as informações para podermos chegar a esses autores.”

Segundo ele, há suspeita de que um Fiat Palio roubado no Mundo Novo, perto do Alto dos Passos, tenha sido desmanchado. “Chegamos a um dos autores, mas não conseguimos localizar nenhuma peça que pudesse identificar o veículo.”

Diante das investigações, Carlos Eduardo não acredita na ação de uma quadrilha, embora admita que os mesmos autores possam ter participado de mais de um caso. Para ele, não há uma causa específica para esta explosão de casos. “Os criminosos querem praticar roubos e acabam buscando um instrumento para isso, no caso o veículo.” Ele lembrou que o jipe Suzuki roubado no Aeroporto e usado no roubo do arsenal de uma empresa de segurança no Monte Castelo foi achado intacto. “A Polícia Civil está fazendo seu trabalho, que é buscar a autoria após o crime. Até tentamos atuar na prevenção com operações, mas nosso foco é a investigação.”

O delegado Regional de Juiz de Fora, Eurico Cunha, ressaltou que a Polícia Civil está preocupada com a frequência dos roubos e que será realizado, no próximo dia 27, um simpósio no qual será discutida a questão da existência de estabelecimentos de ferro-velho na cidade. “O objetivo será encontrar com os proprietários destes locais para haver uma adequação de conduta. Assim, esperamos que haja a inibição dos casos de roubos de veículos destinados ao desmanche. Além deste trabalho, a Polícia Civil vem investigando, a fim de identificar e prender os autores deste tipo de crime.”

Polícia diz que intensificou operações

A 4ª Região de Polícia Militar (4ªRPM) realiza operações específicas para combater o roubo de veículos na cidade. De acordo com o assessor de comunicação da corporação, major Marcellus Machado, as viaturas têm a atenção voltada para a prática destes crimes, realizando abordagens, com ênfase nas motocicletas com ocupantes em atitudes suspeitas. Segundo o oficial, a PM não tem dados sobre a motivação desta onda recente de assaltos. “Havendo quadrilhas, vamos trabalhar para desmantelá-las”, ressaltou o militar, lembrando que, na última terça-feira, a PM conseguiu êxito ao apreender dois adolescentes que roubaram o Jeep Renegade no Marilândia.

Do total de casos deste ano, em nove deles as vítimas eram mulheres. “O autor busca uma forma fácil para praticar o crime, e isso independe do sexo. Se o motorista age de forma displicente, com vidro aberto, braço para fora e bolsas à mostra colabora para facilitar o crime. É preciso também alertar para a compra de veículos e de peças, que deve acontecer sempre em locais autorizados, a fim de não contribuir para casos de desmanche e receptação de peças.”

Sem apresentar números, o militar afirma que cresceram as apreensões de armas na cidade em razão do aumento de operações. “Isso é favorável, pois menos uma arma em circulação, é menos uma possibilidade de cometimento de crime contra a vida e contra o patrimônio”.

Pulverização da violência

Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFJF e pesquisador da área de segurança pública, André Gaio, reflete que a onda de casos de assaltos na cidade com uso de arma e violência já tinha sido detectada há cerca de dez anos. “Quando fiz o diagnóstico de criminalidade violenta de Juiz de Fora, isso já estava presente, mostrando que iria impactar nos números de homicídios, tentativas de homicídios e roubos. O que está acontecendo agora é uma pulverização destes crimes em todas as partes da cidade, com acentuado uso de meios, como motocicletas, para a prática de assassinatos e roubos, como os de veículos”, ressalta o professor.

Para ele, o município sofre com o déficit de agentes. “Durante muitos anos, os policiais fizeram campanhas para aumento de salário. Os estados membros da federação concederam os aumentos, e, agora, não conseguem contratar mais. Outro ponto sério é que não há prioridades. A sociedade espera explicações e não encontra. Hoje não se sabe mais em que setor é preciso concentrar esforços para combater a criminalidade. Implantaram o Olho Vivo, como último recurso para tentar resolver, mas se tivesse dado certo, já teriam mostrado os resultados. Não sabemos quantas prisões foram efetivadas a partir do Olho Vivo, quantos inquéritos foram concluídos utilizando imagens das câmeras, quantos crimes já foram prevenidos. Não há complexidade para entendimento dos dilemas da segurança pública de Juiz de Fora. Eles traduzem-se na falta de efetivo e de prioridades. Estamos à mercê de uma suposta promessa de segurança que, na verdade, não se efetua”, conclui.

Cuidado nos semáforos e no portão de casa

A Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) elaborou uma cartilha com dicas sobre situações de perigo que possam trazer danos à vida e ao patrimônio, lembrando que, em caso de assalto, jamais deve-se reagir. Conforme as orientações, é preciso manter a calma e entregar os objetos pedidos. A vítima não deve fazer gestos bruscos e pedir permissão para movimentar-se.

Muitos roubos acontecem em frente a portões de casas ou entrada de prédios, quando os motoristas estão menos atentos. Por isso, a orientação é procurar medidas para evitar a ação de assaltantes, tais como: avisar alguém de que está se aproximando para que o portão seja aberto e, assim, não tenha que ficar com o carro exposto na rua; se tiver que abri-lo manualmente, retire a chave da ignição ao sair do carro. É importante reparar também em pessoas paradas próximas à entrada, atrás de árvores ou do outro lado da rua.

Transitar com vidros fechados, sempre que possível, e com as portas travadas. Não é recomendado parar o veículo por pedido de estranhos e não oferecer caronas a desconhecidos. Os semáforos também são locais visados por bandidos. Por isso, o condutor deve diminuir a velocidade ao se aproximar deles, de forma que não tenha que parar e possa seguir ao sinal verde. Outra dica é ficar atento aos retrovisores e distante do carro da frente o suficiente para desviar, caso alguma atitude suspeita seja identificada. A FenSeg ainda alerta sobre cuidados com falsos mecânicos, sempre solícitos, que aparecem milagrosamente para ajudar em locais ermos tão logo o carro entre em pane.