Ouça agora

PSC tem maior número de filiados


Por RENATO SALLES

01/03/2016 às 07h00- Atualizada 01/03/2016 às 09h17

eleitores-por-partido

Pela primeira vez nos últimos oito anos, o PP não inicia um ano de eleições municipais como o partido com o maior número de filiados com domicílio eleitoral em Juiz de Fora, de acordo com números disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Após liderar a relação no início de 2008 e de 2012, quando conseguiu eleger e reeleger o vereador Chico Evangelista (atualmente no PROS), a legenda tem hoje 4.440 filiados e aparece atrás do PSC, do deputado estadual Noraldino Júnior, nome considerado por muitos como certo na disputa pela Prefeitura. Em oito anos, o diretório municipal do Partido Social Cristão, que tem ainda dois vereadores na atual legislatura da Câmara Municipal – José Emanuel e Oliveira Tresse – cresceu muito acima da média, passando de 360 associados para 4.614. Com seus quadros ampliados em mais de dez vezes no período, o PSC desbancou o PP e o PTB para chegar ao topo da relação.

A despeito de Noraldino ainda não admitir ou desdizer publicamente se irá ou não disputar a Prefeitura, o crescimento da sigla na cidade tem relação visível com a trajetória política do parlamentar. De olho na disputa por seu primeiro mandato na Câmara, o então superintendente da Agência de Gestão Ambiental de Juiz de Fora (Agenda-JF) da Administração do ex-prefeito Alberto Bejani – à época no PTB, legenda com o terceiro maior número de filiados em Juiz de Fora – ingressou no PSC em setembro de 2007. A agremiação fechou aquele ano com 360 filiados e saltou para 4.100 inscritos no final de 2008, que culminou com a eleição para a Câmara de dois nomes da sigla: Noraldino, com 2.473 votos, e José Emanuel, com 2.535.

O salto no número de legendas de um ano para o outro não se estagnou, embora tenha tomado um ritmo mais modesto de crescimento. Enquanto PP e PTB davam sinais de desidratação, o PSC manteve crescimento contínuo até assumir a primeira posição na relação de filiados em 2013, um ano antes de Noraldino se eleger para sua primeira legislatura na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O avanço da legenda na cidade foi rápido e supera – e muito – o observado na esfera estadual. Entre o final de 2007 e o de 2015, o aumento do número de filiados no diretório estadual do PSC foi de 16% – muito distante dos mais de 1.000% observado no braço municipal da sigla.

Maior representatividade estadual

Com três deputados na ALMG, um deles de Juiz de Fora, a sigla parece ter na cidade um importante centro político e eleitoral. Com Noraldino ocupando a segunda vice-presidência do diretório estadual, a legenda tem aproximadamente 10% de todos seus filiados no âmbito estadual registrado na cidade. Esta á maior proporção na relação entre os números de filiados nos diretórios municipais em atuação na cidade em relação ao número de associados nos diretórios estaduais observados nas 35 agremiações que têm seus funcionamentos oficializados pelo TSE.

Filiados x eleitorado

O crescimento do PSC no período que vai do final de 2007 a dezembro de 2015 pode ser considerado um ponto fora da curva. Ao todo, durante o período, o número de filiados em partidos em situação regular na cidade saltou de 30.275 eleitores para 38.129, evolução de 25%. O percentual de crescimento no número de filiados nas agremiações juiz-foranas é maior do que o observado no eleitorado, que, no mesmo recorte histórico, aumentou 17% e saltou de 362.011 para 390.170 eleitores.

O cientista político ligado Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Urizzi Cervi, acredita que, por conta das contendas eleitorais, os diretórios de interior tendem a atrair uma proporção maior de filiados em relação aos grandes centros. “Se você comparar em termos proporcionais, perceberá que há uma tendência de encontrar maiores proporções de filiados em municípios pequenos. Isso porque ainda que seja uma pequena cidade, precisa ter um número proporcionalmente maior de candidatos do que o necessário nas localidades maiores.”

 

Legendas menores lideram em JF

Curiosamente, desde 2002 – primeiro ano em que há detalhamentos do número de filiados no sistema do TSE -, legendas menores sempre lideraram o ranking de registros em Juiz de Fora. Naquele ano, o PTB, que dois anos depois daria suporte à segunda eleição de Alberto Bejani (PSL) à Prefeitura, estava no topo da relação. A legenda voltou a ocupar o posto em dezembro de 2009. Entre 2004 e 2008 (não há dados de 2003) e 2010 e 2012, a primeira posição foi ocupada pelo PP, que perdeu o posto para o PSC a partir de 2013.

Com as legendas de menor potencial eleitoral ocupando as primeiras colocações entre os partidos com os maiores filiados em Juiz de Fora, grandes agremiações estaduais e nacionais como PMDB, PT e PSDB – que, respectivamente têm o maior número de registros nos âmbitos estadual e no nacional, onde o PP aparece na terceira posição, à frente dos tucanos – ocupam posições intermediárias. Cientista político da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Perlatto ressalta que comparações de diferentes esferas podem levar a generalizações simplistas e lembra que cada cidade, em especial as do interior, apresentam dinâmicas partidárias próprias “associadas às histórias locais, ao papel de determinadas lideranças políticas e à influência dos diretórios estaduais nos cenários municipais.”

Para o cientista político é preciso valorizar a estratégia de determinadas lideranças locais, que encontram nestas legendas consideradas de menor potencial eleitoral uma margem maior de ação e atuação do que em siglas maiores como o PT e o PSDB. Neste contexto, Perlatto cita o próprio exemplo do deputado estadual Noraldino Júnior (PSC), que, aos olhos do especialista, trabalha para se cacifar para uma disputa pelo executivo juiz-forano. “Tanto pela ausência de disputas internas mais significativas quanto por uma menor exigência de compromissos ideológicos fortes, partidos como o PSC e, em maior medida, o PP, acabam atuando como forças de atração para eventuais interessados em participar das disputas políticas, sobretudo em municípios pequenos.”

Fatores como o crescimento da participação de evangélicos na política brasileira também são vistos como porta de entrada para partidos menores, mas com viés religioso como o PSC. Essa é a a opinião da professora de ciência política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Maria do Socorro Braga. “De acordo com os dados do IBGE, de 190 milhões de brasileiros, 22,2% se declaram como pertencentes à religião evangélica. Em 1980, eram cerca de 6,6% da população. Estou especulando, mas acredito que pode explicar esse padrão destoante dos grandes centros.”

 

PMDB é hegemônico no país

A despeito do fato de que em Juiz de Fora o PSC seja a sigla com o maior número de filiados, seguido por PP e PTB, o PMDB é hegemônico e lidera a relação de registrados no Brasil e em Minas Gerais. No âmbito nacional, a sigla é a única a superar a marca de dois milhões de associados, da mesma forma que, na esfera estadual, já ultrapassou 200 mil registros. A capilaridade peemedebista é histórica, visto que a legenda se originou do extinto MDB, que abarcava os críticos ao governo durante o bipartidarismo que marcou o regime militar, de 1964 até o início da década de 1980.

“Esta capilaridade por todo o país é a grande força do PMDB, não apenas em estados importantes, mas, especialmente, nos municípios, chegando a localidades que PT e PSDB não alcançam”, considera Perlatto. Para o cientista político da UFJF, o PMDB tem outro trunfo na atração de associados diante da atual polarização da discussão política, pautada por PT e PSDB. “Os posicionamentos mais ideológicos e polarizados do PT e do PSDB, no que concerne, por exemplo, à relação entre Estado e mercado, acabam por afastar aqueles setores com posições mais ao ‘centro’, menos à ‘esquerda’ e à ‘direita’, que encontram no PMDB um partido com uma concepção mais moderada”, considera.

Outro filho distante do bipartidarismo do regime militar, o PP também mostra bastante capilaridade. Além de ser o segundo maior partido em número de filiados em Juiz de Fora e o terceiro na esfera nacional, mesmo não figurando no centro das discussões dos últimos governos. “Pelo perfil do PP, ex-Arena, ex-PPB, ex-PPR, o partido já começa com certa capilaridade herdada do período anterior. É de se esperar que onde os quadros desse partido se mantenham fortes eleitoralmente haja correspondente filiação. Aqui o trabalho de arregimentação deve ocorrer via vereadores, prefeitos e deputados”, aponta Maria do Socorro Braga.