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Sua família mandou um beijo


Por MAURO MORAIS

13/02/2016 às 07h00

Autismo e morte percorrem trama sobre contradições familiares

Autismo e morte percorrem trama sobre contradições familiares

Tairone Vale, de costas, integra elenco da peça

Tairone Vale, de costas, integra elenco da peça

Irmãs brigam após morte de outra irmã

Irmãs brigam após morte de outra irmã

Aos 10 anos, o mundo ruiu. Ou apenas se descortinou em sua crua realidade. Repentinamente, o pai viu duas portas se fecharem: a da empresa onde trabalhava, a Companhia Industrial Santa Matilde, em Três Rios, e a da casa da mãe, que precisou ser partilhada após a morte da matriarca. Rodrigo Portella, pequeno, precisou se despedir da avó, da casa e, por consequência, de alguns familiares. “As questões financeiras e sociais criaram perdas irreparáveis para nós. Vi minha família se dissolver a partir da morte dela”, conta ele, que com os destroços íntimos edificou “Alice mandou um beijo”, espetáculo que estreia neste sábado, no Espaço Sesc de Copacabana, no Rio de Janeiro, e segue em cartaz até 13 de março, de quinta a sábado.

Ainda que sirva como inspiração, não é a família do diretor quem ocupa a cena. Mas a de Alice. A montagem começa com os parentes da personagem retornando de seu funeral. A ausência, então, pouco a pouco vai desconstruindo todo o núcleo. O pai se ressente da perda da filha querida. A irmã mais velha resolve investir no cunhado. E a irmã mais nova sofre com a solidão e os cuidados com o pai e o filho autista. Sob os holofotes, contradições de pais e filhos, despertadas pela morte.

“Os conflitos familiares fazem vir à tona o que há de mais complexo no ser humano, trazem as contradições”, comenta Portella, que divide a direção com Leo Marvet. “Não tive, em momento algum, o desejo de colocar no palco a minha história. Acho que é mais interessante partir de questões que são particulares para avançar. E à medida em que não tenho o compromisso de traduzir minha história para o teatro, posso criar os personagens da maneira que quiser, potencializando alguns embates e investindo mais em algumas discussões”, completa.

Porque falar de família? Portella responde indagando: “Qual o papel da família na vida do homem contemporâneo, que tem tempo para pouca coisa e está cada vez mais buscando sua individualidade? Que força é essa que mantém essas pessoas unidas? Será que é amor? Apego? Tem relação com afetividade ou com o cumprimento de uma ordem social?”. No fim das contas, a peça acerta contas com o passado? “Sinto que através desse processo de escarafunchar lá atrás, consigo me entender melhor. E assim acabo me aceitando mais. Ver as coisas com mais nitidez me faz permitir ser quem sou”, responde, certo de que teatro é, acima de tudo, espelho.

À luz do interior

Quando “Alice mandou um beijo” irromper a cena, trará consigo a força do interior. Tanto pelo diretor e dramaturgo, quanto por sua Cia. Cortejo, de Três Rios, além da presença de dois atores residentes em Juiz de Fora. José Eduardo Arcuri, cuja última aparição na cena local foi com o emocionante monólogo “Uma pátria que eu tenho”, de 2013, dá vida ao pai de Alice, a morta. “Sempre alimentei o desejo de trabalhar com ele. Em cena, ele tem pouco texto, mas uma presença muito importante. E está fazendo lindamente”, pontua Rodrigo Portella.

Já Tairone Vale, que esteve com Portella no recente “Quase nada é verdade”, curiosa montagem itinerante, interpreta o cunhado. “É um parceiro, de uma lealdade absurda, um talento impressionante. Ele tem a capacidade de falar qualquer coisa e parece que é vida real”, comenta o diretor, sobre o amigo com quem também esteve em “Uma história oficial”, trabalho que rendeu a Portella indicação de melhor direção no Prêmio Shell de 2013. A outra indicação, no mesmo prêmio e no mesmo ano, foi com “Antes da chuva”.

Mesmo tendo vivido por mais de dez anos na capital fluminense, o estabelecimento de Portella no interior, onde dirige o Off Rio – Multifestival de Teatro de Três Rios, é prova de que há uma pulsante produção nas bordas. “Avançamos muito nesse processo de descentralização da produção cultural no Brasil, mas ainda é tímido. As pessoas ainda investem pouco na possibilidade de fazer uma carreira sólida e reconhecida no interior. Hoje vivo confortavelmente e exclusivamente de teatro”, orgulha-se.

E estão todos atentos ao beijo de Alice. A carreira premiada – sempre alinhada com Juiz de Fora, onde desenvolve diferentes projetos – cerca o novo espetáculo de expectativas, que o diretor diz desejar romper. “Não quero que as pessoas vejam o que querem ver. Tento, a cada trabalho, desafiar a mim mesmo”, diz. “Neste espetáculo o desafio é não ter um caráter espetacular, é ir para algo menor, mais simples e mais contido. E esse é um lugar muito arriscado para o teatro, que, diferente da TV e do cinema, necessita de um contorno de maior expressividade”, completa ele, que desta vez lançou mão de uma narrativa ordinária, com canções que vão de Stevie Wonder a Gretchen, passando pela Xuxa. Para falar de família, Portella optou pelas trivialidades familiares, pelo o que é “de casa”.