Conflitos, o retorno
Era 1988 quando Carapiru nasceu para o Brasil. Para a vida, contudo, já havia desabrochado há tempos. Fugido de sua aldeia após um forte ataque de fazendeiros, o índio andou pela região central do país, até ser encontrado pelo indigenista Sydney Possuelo, parceiro dos irmãos Villas Boas. Carapiru se tornou símbolo de luta e retrato dos muitos extermínios a índios no Brasil. Mesmo regressando aos seus, no Maranhão, ele nunca mais reconheceu sua tribo. “Carapiru é uma lição de vida. Seu drama é tão triste como o de Jó”, defendeu, certa vez, em entrevista à Unisinos, Possuelo. O conflito de Carapiru é íntimo. É, também, de todos os brasileiros. E, ainda, universal. Os conflitos, de Carapiru e do mundo, estão no centro de “Serras da desordem”, último filme de Andrea Tonacci, lançado em 2006 e que abre a 19ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, nesta sexta-feira, às 21h, na cidade histórica.
Os conflitos estão em Carapiru e suas “Serras da desordem”, em “Campo grande”, de Sandra Kogut, em “Quase memória”, de Ruy Guerra e na grande maioria dos filmes que ganharão as telonas do festival. Tema do seminário que acontece durante a mostra, reunindo 71 profissionais em quase 30 debates, os espaços de conflitos também refletem, ocasionalmente, na seleção dos 35 longas exibidos até o dia 30 de janeiro. De acordo com o curador da mostra, Cléber Eduardo, o tema surgiu antes da escolha e dizia de uma análise dos últimos anos. “Parti de um pressuposto meu de que estávamos vivendo uma espécie de recuo dramático. Nosso cinema se abrandou dramaticamente a partir de 2005. Mas os inscritos dão uma guinada nisso”, comenta.
Cadê os filmes indiscutíveis?
Ainda não há um diagnóstico exato, mas, para Cléber Eduardo, parece se encerrar um ciclo iniciado há uma década, quando os investimentos em cinema no Brasil se ampliaram e impulsionaram uma produção superlativa. Desde 2000, o país exibiu, em circuito comercial, 1.046 longas-metragens, “um volume nunca visto na história cinematográfica brasileira”. Só em 2015, foram 124 produções. “Com esse volume, temos um aquecimento muito grande, mas não temos produções paradigmáticas, que estão mais concentradas entre 2000 e 2005”, pontua o curador, também jornalista e crítico, além de editor da revista “Cinética”.
“O cinema atual do país não vive de cânones, de filmes indiscutíveis. Nos últimos dez anos, é difícil encontrar um que se destaque dos demais. Temos grande volume de filmes interessantes, antenados com o contemporâneo, mas sem se tornarem linhas de frente de discussões de linguagem ou estética”, avalia Cléber Eduardo, chamando atenção também para a grande presença, na mostra, de primeiros longas e um retorno de São Paulo. “Parece haver uma espécie de recuperação da diversidade do cinema paulista, que andava acanhado.”
Mudaram as tramas e também algumas linguagens, como a do curta-metragem, que tem ganhado grande destaque em festivais internacionais, como o de Cannes. Seguindo tendência, a Mostra de Tiradentes ampliou a duração das produções, no edital, de 25 para 30 minutos. “Hoje a estreia no longa acontece mais cedo em termos de faixa etária média. Os curtas, então, passaram a ser ensaios para futuros longas, e isso faz com que fiquem como esboços. Eles estão perdendo a característica das narrativas mais sintéticas”, defende o curador, que assistiu a 500 produções, selecionando 82.
Diferentemente dos outros anos, não há uma regionalidade gritante na nova edição. Não há um Nordeste pulsante, nem um Sudeste dominante. O que pulsa são os muitos filmes “que lidam com personagens em crise, desde as sociais até as subjetivas”, figuras que não encontram saídas ou superações em seus conflitos.
Experimental sim, e daí?!
Com uma agenda extensa, que reúne pré-estreias nacionais e mundiais, três exposições, dez oficinas, sete lançamentos de livros, cortejos, teatro de rua, performances audiovisuais e intervenções artísticas, além de shows, a 19ª Mostra de Tiradentes parece driblar muito bem qualquer sinal de crise. Com grandes patrocinadores, o evento promovido pela Universo Produção – responsável por outros festivais, como o Cinema Sem Fronteiras, o CineOP, o CineBH e o Brasil Cinemundi – mantém seu lugar na pauta dos cinéfilos.
Conforme defende o curador Cléber Eduardo, tal feito não é nada mais que um tiro certeiro no alvo. “Estamos há dez anos com um perfil que se consolida e não mostra crise. Ao contrário dos outros festivais de cinema, de Brasília e de Gramado, por exemplo, que oscilaram de perfil, não mudamos nossa linha estratégica”, diz. “Não entramos em crise se será que é esse o festival que queremos fazer”, acrescenta. Experimental demais? Talvez, mas e daí?!. “O que não tem algum nível de experimentação não se inscreve em Tiradentes, nem em outra mostra, porque já nasce com distribuidoras e cronogramas de lançamentos que impedem a presença em festivais”, conta. “O experimentalismo não é buscado pela mostra, mas consequência do que nós é oferecido.”
Preste Atenção!
Pocket show com Pequeno Cidadão
• Após a exibição do filme “O que queremos para o mundo?”, no dia 24, às 12h15, a banda Casa da Árvore apresenta a música-tema “Polifonia amor”, trilha sonora original do filme, com participação da banda paulista Pequeno Cidadão
Dez! Nota dez pra JF
• A cidade estará representada na mostra por dez curtas-metragens, sete deles exibidos no domingo (24), nas sessões das 15h e das 17h. A cidade tem o maior número de filmes em Minas, à frente, até, de Belo Horizonte
Teatro de JF na mostra
• A Cia. Academia começa o ano em Tiradentes, apresentando seu cortejo de “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, no sábado (31), às 16h, no Largo das Forras
O novo de Ruy Guerra
• O diretor de “Ópera do malandro”, 1986, apresenta seu novo filme, “Quase memória”, neste domingo (24), às 22h, sobre um homem que recebe um embrulho do pai, morto há anos e, assim, é transportado ao universo de boas lembranças












