Quentin Tarantino Acerta de novo

Kurt Russell e Samuel L. Jackson são dois caçadores de recompensas em ‘Os 8 odiados’, oitavo filme de Quentin Tarantino
Desde que surgiu na galáxia de Hollywood com o surpreendente “Cães de aluguel” (1992), Quentin Tarantino já foi acusado de ser um mero repetidor de fórmulas, abusar de referências cinematográficas e fetichista da violência pela violência – principalmente entre cineastas fracassados que posam de “críticos” e defensores de um cinema “puro”, ressentidos pelo fato de suas produções “de arte” serem ignoradas pelo grande público. Mas o tempo passou, e Tarantino continuou escrevendo e dirigindo suas histórias que abarcam diversos gêneros, resultando em clássicos como “Pulp Fiction”, “Bastardos inglórios”, “Django livre” e a obra-prima contida nos dois volumes de “Kill Bill”. Para o ódio e recalque dos “puristas”, Tarantino volta à tela grande com “Os 8 odiados”, que tem estreia oficial nesta quinta-feira, carregando ainda mais nas tintas dos seus maneirismos – mas sem perder a mão em momento algum.
Assim como “Django livre”, de 2012, “Os 8 odiados” é mais um filme ligado a um dos gêneros preferidos do diretor, o western. Mas, como convém a uma obra de Tarantino, não se trata de um faroeste convencional, em que há índios, mocinhos contra bandidos, tiroteios e duelos ao pôr do sol: o filme mostra uma América inóspita, brutal, ainda curando as feridas da Guerra Civil e expandindo-se para o Oeste na base da força e da bala. Uma terra em que não se pode confiar em ninguém e que chegar vivo ao final do dia é uma questão de ser mais rápido, forte e esperto.
É este o cenário em que John Ruth (Kurt Russell), um caçador de recompensas, segue para a cidade de Red Rock para entregar a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) e receber sua recompensa enquanto ela é enforcada. Nem tudo será fácil, porém: além da nevasca que castiga o estado do Wyoming, ele encontra no meio do caminho outro caçador de recompensas, o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que transporta os corpos de três criminosos; após aceitar, a contragosto, dar uma carona para o sujeito, é forçado horas depois a ceder mais um lugar na carruagem para Chris Mannix (Walton Goggins), um notório criminoso que alega ser o novo xerife de (adivinha?) Red Rock e que também estava perdido após seu cavalo ser sacrificado.
O quarteto, mais o cocheiro O. B. (James Parks), consegue chegar a tempo na Hospedaria da Minnie, onde encontram mais quatro figuras estranhas e pouco confiáveis – o que aumenta a desconfiança de Ruth de que alguns deles esteja ali para resgatar a criminosa: o general sulista Sandy Smithers (Bruce Dern), o cowboy Joe Gage (Michael Madsen), o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o mexicano Bob (Demián Bichir), que alega estar tomando conta do local enquanto a proprietária foi visitar a mãe. Com tanta gente estranha e diferente no mesmo lugar, não demora para a desconfiança mútua surgir, e a tensão se tornar mais ameaçadora que a neve e o frio que castigam o local. Assim como outros filmes do diretor, muitos ali têm motivos para se vingar de alguém, mas não é o mesmo desejo com foco específico de – por exemplo – um “Kill Bill” ou “Django livre”. Ali, naquela cabana, não há um verdadeiro herói por quem torcer; todos, à sua maneira, têm seus crimes pelos quais precisariam pagar.
Para quem gosta de diálogos
Com liberdade total para escrever e filmar, Quentin Tarantino fez de “Os 8 odiados” o mais longo filme de sua carreira, se contarmos os dois volumes de “Kill Bill” como produções separadas. Livre das amarras, o diretor leva praticamente três horas para contar sua história, sendo que os dois terços iniciais são marcados quase que exclusivamente pelos diálogos, eventuais silêncios, a vastidão branca e gelada do Wyoming e a excepcional trilha sonora composta pelo italiano Ennio Morricone.
Para a geração “Transformers”, acostumada à ação hiperbólica e megalomaníaca, com explosões a cada 30 segundos, “Os 8 odiados” pode ser um suplício de 24 quadros por segundo, mas para os fãs do cinema em geral e Tarantino em particular será exatamente o contrário. Mestre em elaborar diálogos afiados, espirituosos, engraçados e contundentes, Quentin Tarantino sabe abusar da falação durante todo o filme, que não parece ter os 180 minutos em que se fica sentado à sala escura apesar de não haver, praticamente, um tiroteio verbal. O diretor parece ter colocado no longa metragem todas as falas que imaginava no roteiro, sem que nenhuma parecesse fora de contexto.
Mas não poderia faltar, claro, a violência típica das produções do diretor, mesmo que ela fique basicamente restrita ao terço final e não seja uma tour de force como a vista no embate de Beatrix Kiddo com os 88 Lunáticos no primeiro “Kill Bill”. Os tiros, as cabeças explodindo, braços decepados etc., são de uma brutalidade ímpar e aumentarão o recalque dos detratores na mesma medida que fazem a alegria dos discípulos do cineasta americano.
Sangue, tiros e flashbak
Para quem conhece a obra do diretor, “Os 8 odiados” mostra que Tarantino sabe lidar com o seu legado ao colocar vários ovos estilísticos em uma mesma cesta: um grupo heterogêneo – e desconfiado uns dos outros – confinado em um mesmo lugar (“Cães de aluguel”); os diálogos (a cena inicial de “Bastardos inglórios”, “Pulp fiction”, “Kill Bill”, mais uma vez “Cães de aluguel”); a divisão por capítulos (“Kill Bill”); flashbacks (que, no caso de “Os 8 odiados”, justificam o que costuma ser imperdoável em qualquer filme: a introdução de um novo personagem no terço final da história); sangue, tiros e carnificina tratados de forma realista (“Django livre”, “Cães…’) ou satírica (“Bastardos…”, “Kill Bill”). Todas essas assinaturas visuais/orais, juntas, conseguem ser ao mesmo tempo auto-referenciais e coerentes com a história que se deseja contar, passando ao largo de um preguiçoso pastiche de ideias e estilos. E ainda há espaço, ao direcionar seu olhar mais uma vez para a América do século XIX, para Tarantino refletir sobre o povo que construiu os Estados Unidos, retratando o racismo, as diferenças culturais e um país ainda se recuperando da guerra como uma metáfora para a nação em que se vive no século XXI.
Pode parecer contraditório – e na verde é -, mas “Os 8 odiados”, mesmo comprovando a maturidade de Quentin Tarantino como diretor, não é o melhor trabalho do cineasta. É uma obra vasta, complexa, mas que ainda precisa lutar contra as sombras que produções como “Kill Bill” e “Pulp fiction” provocariam na carreira de qualquer realizador. Mas, ao se arriscar numa produção densa, que se desenvolve com paciência, sem atropelos e dentro do que sabe fazer melhor, Tarantino continua merecendo estar entre os mais importantes cineastas surgidos nos últimos 25 anos, e entre os melhores de todos os tempos.
OS 8 ODIADOS
UCI 5: 18h e 21h20. Cinemais 3: 16h10 e 21h30
Classificação: 18 anos









