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‘Quem é cristão está do lado de Maria’


Por MARISA LOURES

29/12/2015 às 07h00- Atualizada 29/12/2015 às 14h02

Rodrigo Alvarez está entre os mais vendidos com

Rodrigo Alvarez está entre os mais vendidos com “Maria”

Na tarde em que conversou comigo, às vésperas do Natal, Rodrigo Alvarez, correspondente da Rede Globo em Jerusalém, preparava uma reportagem sobre o nascimento de Jesus Cristo, ao mesmo tempo em que produzia outra, para o “Fantástico” do último domingo, sobre os refugiados da Síria, do Iraque e do Afeganistão que estão indo para a Europa. “Entre a cruz e as bombas, eu vivo aqui”, contou ele, por telefone, sugerindo que a cabeça deveria ter uma chave para se ajustar às rápidas mudanças de um extremo ao outro. “Daqui a pouco, vou ter que falar do Estado Islâmico de novo. São palestinos atacando judeus, outra hora são soldados israelenses atacando palestinos. Por outro lado, é interessante perceber como a história de Jesus Cristo e de Maria, essa história bíblica, cristã, tem relação com o conflito que acontece hoje aqui”, analisa o jornalista, autor de “Maria” (Globo Livros, 206 páginas), lançado em outubro e, há 11 semanas, entre os mais vendidos na categoria não ficção, segundo a revista “Veja”.

Para escrever “a biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, viveu um inferno, dividiu os cristãos, conquistou meio mundo e é chamada de mãe de Deus”, conforme anunciado no subtítulo da obra, Alvarez visitou oito países diferentes, recorreu à Bíblia, a documentos históricos, pesquisas arqueológicas e relatos não reconhecidos pela Igreja Católica. Sua intenção não era trazer certezas, mas apresentar várias versões, algumas delas contraditórias, para compor um amplo retrato de Maria. Por meio de um texto jornalístico e não devocional, como o autor faz questão de enfatizar, o leitor se depara com temas curiosos e até polêmicos, como virgindade e o suposto adultério associado a Maria.

Meu convidado do próximo “Sala de leitura” (sábado, às 10h30, com reprise na segunda, às 14h30) tornou-se best-seller, em 2014, (mais de 180 mil exemplares vendidos em um ano), com o livro “Aparecida” (Globolivros) e, sem folga, emendou na escrita de “Maria”. “Ajudou muito nisso o fato de eu conviver com toda esta história. Passei a morar ao lado de lugares sagrados. Quando eu falo do lado, é do lado mesmo, um quilômetro, dois quilômetros. Acabou sendo natural continuar nesse assunto. Ele entrou na minha vida de uma forma que não tinha mais saída.”

Tribuna – Você disse que a história de Jesus Cristo e de Maria tem relação com os conflitos existentes hoje…

Rodrigo Alvarez – Mostro no livro que o templo onde Maria teria passado a infância, o templo de Jerusalém, é o mesmo em que Jesus criou uma confusão com aqueles vendedores, os cambistas, e disse que eles estavam transformando a casa de Deus num covil de ladrões. Aquele mesmo templo foi destruído pelos romanos e foi o que levou os judeus a saírem, praticamente, em definitivo de Jerusalém por quase 2000 mil anos. Eles voltaram recentemente, depois da Segunda Guerra Mundial, depois do holocausto, o massacre que Hitler fez com os judeus, matando seis milhões de pessoas. Com essa volta, apoiada pela ONU, a criação de Israel, surgiu esse novo conflito na Palestina, e até hoje se discute o que fazer com aquele templo. Agora existe uma discussão entre judeus, extremistas, que querem reerguê-lo numa área que pertence aos árabes. A história está viva. Dois mil anos se passaram, mas a gente está contando a mesma história de outras formas, normalmente, nos mesmos lugares.

– Escrever o livro mudou o seu modo de ver Maria e interferiu na sua fé?

– Interferiu na maneira como eu aprecio, admiro e me aproximo da devoção. Tenho uma visão sempre muito jornalística de tudo, uma visão histórica. Entendi muito mais do que é Maria e me sinto muito próximo, à minha maneira, dela.

– A sensação é a de que você se coloca do lado de Maria…

– Maria representa a mãe, seja você católico, cristão de outras religiões, ateu. Na história da humanidade, Maria é o símbolo da palavra mãe. Então, não dá para dissociar, não tem como não estar do lado dessa mãe. Eu parto da história para buscar quem é essa mãe, de onde veio, onde nasceu. Foi realmente em Jerusalém? Parece que há dúvidas. Onde ela morreu? Foi em Jerusalém mesmo ou foi na Turquia, em Éfeso, para onde muitos brasileiros, inclusive, vão? O livro tenta responder, mas eu também não quero dar certeza sobre isso. Fui buscar saber quem era essa mãe que, depois de um tempo, por causa de muitos movimentos dentro da igreja, virou a mãe de Deus para uma grande parte da humanidade. Ela viveu o inferno, dividiu os cristãos. Pode não soar tão positivo, mas ela dividiu sem querer. Dividiu depois de morrer. Os cristãos se dividiram por causa de Maria ao discutir, por exemplo, se ela merecia o título de mãe de Deus ou Mãe de Jesus, que, teoricamente, é um pouco menor na hierarquia. Essa discussão gerou morte, gerou uma série de problemas que resistem até o nosso tempo. Estou falando de 1500 anos. Depois, dividiu de novo. Dividiu quando houve a reforma protestante. A discussão sobre Maria virou, muitas vezes, o centro do problema, porque Maria representava a Igreja Católica, o Vaticano. Os reformistas queriam bater no Vaticano e acabaram batendo em Maria. Literalmente, quando quebraram a santinha em 1978, em Aparecida, foi um choque para o Brasil. Foi manchete para os jornais a destruição de um símbolo nacional motivada por uma disputa religiosa.

– Como foi trabalhar com tantas incertezas e controvérsias?

– Eu precisei abrir mão da necessidade que o jornalista tem, às vezes, de chegar a conclusões. O escritor gosta de bons finais para histórias, finais felizes, dramáticos, tristes. Às vezes até tem, mas eu preciso sempre ressaltar que muitas histórias têm duas, três versões, e que, talvez, nenhuma delas seja a verdadeira. E aí preciso explicar: “Olha, essa hipótese se sustenta na arqueologia, essa outra se sustenta na tradição”. Vou dar um exemplo. Maria, realmente, deu à luz ao Menino Jesus em Belém, na atual Cisjordânia, aqui perto de Jerusalém, ou foi lá em cima na Galileia, numa outra cidade que também se chamava Belém, em Belém da Galileia? Terá sido ainda em um terceiro lugar, chamado Catisma, que fica perto de Belém, aqui de Jerusalém? A arqueologia aponta para Belém da Galileia e para Catisma, mas não para a famosa Belém, onde todo mundo vai visitar a Basílica da Natividade. A tradição aponta para lá porque, no ano 312, 315, aproximadamente, vieram aqui alguns enviados do Imperador Romano procurar saber onde tinha sido. Como é que vai se ter certeza de que era naquele ponto? O evangelho diz que foi em Belém da Judeia que Jesus Cristo nasceu. O mesmo evangelho discute se foi em Nazaré. Como é que alguém de Nazaré pode ser o Messias? O livro tenta esclarecer, sem tirar os mistérios da fé, mas, sim, contar a história do mistério.

– Você se tornou best-seller com “Aparecida” e agora já está nos primeiros lugares na lista de mais vendidos com “Maria”. Esse dado demonstra a força do catolicismo no Brasil?

– Não tenho a menor dúvida. Representa a força do catolicismo, mas representa, também, a força da religião, o interesse do brasileiro pela fé. Acho importante destacar, também, o interesse do brasileiro pela leitura. O brasileiro gosta muito de ler. É preciso ter livros que interessem. E, claro, nem todo brasileiro tem dinheiro para gastar com livro, então eles não podem ser muito caros. Precisa ser também numa linguagem acessível. Imaginei diversos brasileiros lendo o livro sem se cansar ou achar complicado. A experiência de televisão, de conversar ao vivo, me ajudou muito.

– A Igreja Católica recebeu bem a publicação?

– Muito bem e melhor do que eu imaginava, porque tem polêmicas tratadas a sério no livro e com detalhes, incômodos, ainda que as polêmicas possam facilmente ser resolvidas. Algumas soam como conversa de manicure, que aconteceram ao longo da história, falando mal de Maria, tentando mostrar que ela talvez tivesse sido adúltera por ter um filho do Espírito Santo. Essa hipótese surgiu por volta do ano 300 e ganhou força lá pelo ano 500, num livro judaico. Esse detalhe já foi até apagado do livro tanta era a discussão, e o problema que isso criava sem nenhuma base teológica ou teórica. Mas a discussão houve, está no livro “Maria”. Também tem as respostas para essa discussão. Hoje, a Igreja Católica no Brasil, a quem me reportei depois do livro pronto, tem uma postura muito aberta e entende que é importante que escritores não religiosos falem sobre a religião para que mais pessoas possam entender e julgar por si próprias. Por exemplo, o bispo auxiliar de Aparecida (Dom Darci José Nicioli), com quem eu já mantinha uma relação por causa do primeiro livro, disse que gostou muito do livro, e as edições novas têm saído com uma frase dele. Ele diz que o livro é recomendável não só para quem está aprendendo pela primeira vez estas histórias, mas também para teólogos, porque tem informações precisas, trata com seriedade os assuntos. Não tem desrespeito.