Ouça agora

Vozes ativas


Por JÚLIO BLACK

25/12/2015 às 07h00

Coletivo de DJs do Vinil é Arte promoveu a releitura de diversos artistas em seu álbum de remixes lançado no bom e velho formato analógico

Coletivo de DJs do Vinil é Arte promoveu a releitura de diversos artistas em seu álbum de remixes lançado no bom e velho formato analógico

Dificuldades à parte, a cidade de Juiz de Fora encerra o ano de 2015 pensando no novo ano que virá, mas ao mesmo tempo olhando os quase 365 dias que se passaram para confirmar um fato incontestável: tem gente produzindo e afim de lançar seu trabalho para o mundo ouvir – seja por meio da independência ou com o apoio da Lei Murilo Mendes, sem contar os inúmeros shows e festivais que tomaram conta de bares, boates, casas de show, praças, ruas e centros culturais.

Um dos muitos artistas locais que mostraram serviço em 2015 é o quinteto The Basement Tracks, que lançou de forma independente o EP “Songs from the orange”, em que a psicodelia dos anos 60, o pós-punk oitentista e o brit rock deram o tom das composições. O projeto 4zero4 apresentou sua viagem e extravagância sonora no experimental contínuo, “Contínuo”, enquanto o 3, 2 Único finalmente marcou sua estreia fonográfica com o álbum “Três, Dois, Único”. Carlos Fernando Cunha seguiu sua jornada de sambista inspirada pelo que há de melhor no gênero em seu segundo trabalho, “Baobá”, produzido por meio da Lei Murilo Mendes – assim como o clarinetista, saxofonista, compositor, produtor e arranjador Caetano Brasil, que fez sua estreia fonográfica com o trabalho que leva seu nome. Quem também contou com o apoio da Lei para gravar foi Uiara Leigo (“Meu canto é segredo”) e o Duolhodágua (“Circo cigano”).

Voltando à seara do faça-você-mesmo, o Subefeito seguiu mostrando seu discurso sem meias palavras com o álbum “Dizer o que tem que ser dito”); o Audiocrew deitou suas rimas calcadas no rap, reggae, MPB e outros ritmos em “Descaso do destino”, e o Pathos divulgou na internet seu primeiro disco, “Elixir”, com influências de stoner rock, Black Sabbath e rock progressivo. Ampliando a amplitude de produção local, o grupo de pagode Alquimia lançou “SeguindoVC”, disco de estreia do quinteto juiz-forano. O reggae se fez presente com o Babylon Brasil, também debutante com o seu “Quarta-feira”.

Houve espaço, ainda, para se confirmar o velho ditado “a união faz a força”. Este foi o caso do coletivo de DJs Vinil é Arte, do qual faz parte o local Pedro Paiva, que lançou em vinil o seu trabalho de releitura de artistas locais (Audiocrew, Quinteto São do Mato, Silva Soul) e de outras paradas de Minas. E ainda houve o projeto “JF de cara com os novos”, que reuniu artistas veteranos com novíssimas vozes da cidade em um álbum gravado por meio da Lei Murilo Mendes.

Da Web para os ouvidos do povo

Hora de ir além das fronteiras locais. A crise no setor fonográfico continua feia, é difícil ver a luz no fim do túnel, mas artistas e gravadoras continuam a tentar encontrar uma solução para o nó que a internet deu no mercado há mais de 15 anos. Após diversas tentativas infrutíferas (processar sites, Napster, CDs com proteção contra gravação etc.), o serviço de streaming (audição de música pela internet) vem sendo nos últimos anos a aposta da indústria musical para tentar reverter um quadro que muitos ainda julgam irreversível. E até o Brasil tem entrado na onda, com cerca de 73% dos internautas utilizando o YouTube para ouvir música. Além disso, serviços que mesclam a audição gratuita com os benefícios da assinatura (ouvir música offline entre elas) vêm buscando espaço, com Spotify, Deezer, Google Play, Tidal e Apple Music tentando conquistar os corações e ouvidos da galera.

Apesar da ainda não ter fechado os números deste ano, a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) diz que a venda digital superou a venda dos discos físicos este ano. O mercado de streaming movimentou R$ 111 milhões em 2014, valor já superado em 2015. Em todo o mundo, as assinaturas do serviço de streaming movimentaram US$ 1,1 bilhão no ano passado, dentro do universo de US$ 6,9 bilhões do mercado digital, de acordo com a IFPI (International Federation of the Phonographic Industry). Mesmo assim, serviços como o Spotify ainda amargam prejuízo, e iniciativas como o Rdio já sumiram do mapa por não conseguirem sustentar a estrutura de negócios.

Se a contabilidade ainda não é das melhores, os amantes de música pelo menos não podem reclamar da quantidade de lançamentos que chegaram às lojas físicas e virtuais. Dos independentes aos medalhões, muita coisa boa – e ruim também – pôde ser ouvida nos aparelhos de som, tablets, celulares, computadores e outras pequenas maravilhas da tecnologia.

Música do Brasil

A produção musical brasileira em 2015 teve o lançamento de alguns dos medalhões de sempre (Djavan, Gal Costa) e uma Elza Soares com o primeiro álbum de inéditas em mais de 50 anos de carreira, além de alguns nomes em evidência a partir das últimas duas décadas (Lenine, Zélia Duncan) e outros de uma safra mais recente (Tulipa Ruiz, Maria Gadú) – sem se esquecer de André Abujamra com “O Homem Bruxa” e Odair José abraçando o rock no surpreendente “Dia 16”. Anitta, a atual aposta da pasteurização musical da indústria fonográfica, chegou às lojas com “Bang”. A turma que fica fora do eixo medalhões/pop descartável também se destacou: Karina Buhr foi bem elogiada por “Selvática”; Tiago Iorc abraçou as letras em português em “Troco likes”; o rapper Emicida lançou o aguardado novo trabalho, “Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa”; e BNegão & Os Seletores De Frequência fizeram bonito com “Transmutação”.

Clube dos milhões

A seara pop teve alguns dos lançamentos mais esperados de 2015 chegando apenas no final do ano. Cantora que vende milhões e milhões de álbuns, Adele voltou à ribalta com “25”; com shows marcados no Brasil para 2016, o Coldplay aposta no solar “A head full of dreams” para manter sua imensa legião de fãs. Mais para o início do ano, Madonna tratou de manter-se em evidência com “Rebel heart”, e Mark Ronson convidou meio mundo para o seu aguardado “Uptown special”. Outros nomes de destaque na música pop com novos trabalhos foram CeeLo Green (“Heart blanche”), o garoto-problema-de-laboratório Justin Bieber (“Purpose”) e Demi Lovato, que largou o Paramore e abraçou o pop mais descartável em “Confident”. Janet Jackson, por sua vez, tenta voltar aos dias de glória com um álbum que remete à megalomania de sua família: “Unbreakable”. Nenhum deles, porém, chega aos pés em matéria de polêmica do que Miley Cyrus, que se juntou aos malucos do Flaming Lips e distribuiu de graça o estranho – porém excelente – “Miley Cyrus and her dead petz”.

Alternativos, populares e medalhões internacionais

O pop mais alternativo e o rock em suas várias vertentes também tiveram espaço no ano que se aproxima do fim. Veteraníssimos como New Order, Duran Duran, Killing Joke, Giorgio Moroder e Gang of Four lançaram novos trabalhos, e o ex-Oasis Neil Gallagher apostou em sua nova banda, os High Flying Birds, em “Chasing yesterday”. Queridinhos do universo indie, Belle and Sebastian (“Girls in peacetime want to dance”), of Montreal (“Aureate gloom”), Tame Impala (“Currents”), Florence and The Machine (“How big how blue how beautiful”), The Vaccines (“English graffiti”) e Alabama Shakes (“Sound and colour”) também fazem parte da Turma de 2015 – até mesmo o Sleater-Kinney, sem gravar nada há mais de uma década, ressurgiu com o elogiado “No cities to love”. Antes de se envolver trágica e involuntariamente nos atentados de Paris, em 13 de novembro, o Eagles of Death Metal havia lançado o excelente “Zipper down”.

Uma das bandas que mais lota estádios atualmente, o trio britânico Muse lançou “Drones”, e o Mumford & Sons manteve os tons épicos – mas com menores doses de country e folk – no comercial “Wilder mind”. No Brasil, além do Scalene, o gaúcho Wander Wildner apresentou “Existe alguém aí?”, Cidadão Instigado lançou “Fortaleza”, o Nenhum de Nós manteve-se na atividade com “Sempre é hoje” e os promissores goianos do Boogarins apostaram em “Manual”. O mundo do metal comemorou o lançamento de “The book of souls”, primeiro álbum do Iron Maiden após o vocalista Bruce Dickinson se recuperar de um câncer na língua. Além do Iron, veteranos do rock pesado como Motörhead, Slayer, Angra, Napalm Death e Venom mantiveram as camisas pretas com novidades no aparelho de som.

Os beats e as batidas perfeitas ficaram por conta de gente como a dupla Chemical Brothers, que manteve os big beats em alta com “Born in the echoes”; Aphex Twin cuidou de manter o mundo mais do que estranho com o lançamento de “Computer Controlled Acoustic Instruments pt2 EP”, e o Prodigy promoveu a habitual pancadaria sonora com “The day is my enemy”. Já a canadense Grimes lançou o excelente “Art angels”, mostrando como o pop e a música eletrônica podem produzir um trabalho que consegue bom para os ouvidos sem apostar em fórmulas já desgastadas. No rap, Dr. Dre lançou o polêmico “Compton’, enquanto que o Public Enemy manteve sua verborragia revoltada em “Man plans God laughs”. Snoop Dog, por sua vez, colocou o swing e a simpatia da soul music e do rhythm and blues no elogiado “Bush”.

ÁLBUNS QUE PODEM SER COLOCADOS COMO DETALHE (REPRODUÇÕES NA MESMA PASTA DAS FOTO)

Björk, ‘Vulnicura’

Tame Impala, ‘Currents’

Wilco,’Star Wars’

The Prodigy, ‘The day is my enemy’

Anitta, ‘Bang’

Grimes, ‘Art angels’

Madonna, ‘Rebel heart’

Wander Wildner,’Existe alguém aí?’

Iron Maiden, ‘The book of souls’

BNegão & Seletores de Frequência, ‘Transmutação’

Belle and Sebastian, ‘Girls in peacetime want to dance’

Karina Buhr, ‘Selvática’

Natalie Merchant, ‘Paradise is there: The new tigerlilly recordings’