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Insegurança e medo na área central da cidade


Por MICHELE MEIRELES SANDRA ZANELLA

01/12/2015 às 07h00- Atualizada 01/12/2015 às 09h56

Curiosos acompanham trabalho da polícia após bandidos tentarem roubar R$ 55 mil em loja (Olavo Prazeres/30-11-15)

Curiosos acompanham trabalho da polícia após bandidos tentarem roubar R$ 55 mil em loja (Olavo Prazeres/30-11-15)

Ladrão que fugiu pelo telhado foi preso na Rua Fonseca Hermes; comparsa foi pego no Ladeira (Olavo Prazeres/30-11-15)

Ladrão que fugiu pelo telhado foi preso na Rua Fonseca Hermes; comparsa foi pego no Ladeira (Olavo Prazeres/30-11-15)

Mortes motivadas por vingança ou por brigas de grupo rivais e assaltos ousados praticados em plena luz do dia. Conflitos que ocorriam com mais frequência em áreas periféricas, agora têm sido registrados em áreas movimentadas do Centro, onde passa uma média de 50 mil pessoas diariamente. Apenas nos últimos dias, foram registrados um assassinato e um assalto frustrado, seguido de cerco e perseguição aos bandidos, ambos na parte baixa da Rua Marechal Deodoro. O resultado dos episódios é a população assustada e com receio de circular em alguns pontos da área central. Para as polícias, mesmo com o monitoramento das câmeras e as prisões, os casos recentes demonstram ousadia dos criminosos. As polícias Civil e Militar garantem estar agindo e atentas aos episódios. Desde o último sábado, a PM reforça o policiamento no Centro, com a Operação Natalina.

No caso dos homicídios, a atuação dos criminosos na área ocorre principalmente em praças e corredores da parte baixa do Centro. De junho até agora, além do caso da Marechal, duas pessoas foram alvos de tiros na Rua Jarbas de Lery Santos, em frente à Praça do Riachuelo, resultando em uma morte e um ferido. O último caso aconteceu no dia 20 de novembro, quando um adolescente foi baleado ao lado de um ponto de ônibus.Na mesma região, a poucos metros, um homem abriu fogo em um salão de beleza, em outubro. O alvo era um cabeleireiro, que não foi atingido.

“A sensação é que posso ser ferida a qualquer hora. Sei que é impossível ter polícia o tempo todo em um só lugar, mas acredito que é necessário o reforço no policiamento”, disse Anne Assis, vendedora de uma loja de calçados do Centro. Uma comerciante da Rua Marechal, que não quis ter o nome divulgado, acredita que os casos ousados abrem precedente para outros. “A impressão é que eles (criminosos) perderam o medo de tudo. Não adianta prender, daqui a pouco estão soltos. Eu já penso em fechar aqui e me dedicar a trabalhos em casa.” A funcionária de uma lanchonete na Rua Jarbas de Lery pediu demissão após assistir a episódios de furtos, uso de drogas e brigas. “Não posso ficar exposta assim. Vejo muita coisa aqui, o medo uma hora fala mais alto, preferi sair.”

A preocupação de lojistas e funcionários é a mesma do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), que vem cobrando ações mais efetivas da PM na região central. O superintendente da associação, Sérgio Costa, afirmou que uma reunião esta semana vai alinhar pontos e discutir detalhes que serão repassados à polícia. “Sabemos que a polícia se esforça, faz o melhor que pode, mas ainda não tem sido suficiente. Recebemos sempre queixas dos lojistas, que estão preocupados com a questão da violência, principalmente os roubos. A nossa principal questão agora é com o fim de ano, quando aumenta a concentração de pessoas no Centro.”

Derrame de armas

Conforme o coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre Violência e Políticas de Controle Sociais da UFJF, André Moyses Gaio, a região central configura-se historicamente como local com a maior concentração de crimes na cidade. “Desde os primeiros dados já levantados sobre o assunto, há uma década, o Centro representa entre 65% a 75% dos crimes violentos em Juiz de Fora, principalmente no trecho entre a Rua Floriano e a (Avenida) Itamar.” Na visão do pesquisador, o principal influenciador da escalada história de homicídios na cidade está ligada ao derrame de armas de fogo ocorrido em 2013, quando foi descoberto o esquema de desvio de armamentos do Exército. “A partir de então, os crimes e homicídios ocorreram com maior frequência e maior letalidade. Crimes que antes eram praticados com arma branca foram substituídos, já que a venda de armas de fogo em Juiz de Fora ficou mais barata. A média de homicídios anuais foi, por muito tempo, 33 casos, e agora esse índice já não consegue ficar abaixo das cem mortes”, analisa.

Ainda segundo Gaio, normalmente os crimes ocorrem entre 20h e 2h na cidade, horário que ele acredita necessitar de um reforço policial maior. “Acredito que a PM precisa estar presente também fora do horário comercial, que é quando o crime acontece em maior quantidade. Deveria haver, neste momento, uma operação padrão, em que todas as motos que estivessem com passageiro fossem revistadas. Estes veículos têm sido muito usados nestes crimes, e é ali que as armas são escondidas”, sugere.

‘A morte é uma solução imediata’

De acordo com comandante da 30ª Companhia da Polícia Militar, responsável pelo policiamento na área central da cidade, capitão Herivelton Soares, o lançamento de policiais é feito a partir de análise de estatísticas criminais. As áreas com maior incidência de crimes recebem maior atenção. “Apesar destes casos pontuais recentes, a chamada parte baixa do Centro não tem uma concentração alta de crimes”, comentou. O oficial destacou que este ano houve redução de 39% nos crimes violentos na área central. “O que podemos dizer é que a ousadia e a vontade destes autores de homicídio estão fazendo com que estes crimes rompam as barreiras de bairros específicos. O assassinato é um crime no qual o autor espera a melhor oportunidade para surpreender a vítima. É importante destacar que nestes casos de homicídios os atiradores tinham alvos certos: não foram tiros a esmo. É claro que poderia ter acertado alguém, mas os disparos foram praticamente à queima-roupa”, pontuou.

O delegado de Homicídios, Rodrigo Rolli, acrescentou que, no caso do assassinato na Marechal, os autores já haviam tentado contra a vida da vítima na semana anterior. Ele acredita que a vítima vinha sendo monitorada. “Sem dúvida, estes casos mostram total ousadia dos criminosos, estão desafiando o poder estatal. Porém, não podemos dizer que há uma enchente de ocorrências no Centro. Realmente o que ocorre é o crime de oportunidade, e as motivações são vinganças ou brigas de bairros rivais. A resposta vem sendo dada, com diversas prisões feitas por nós e pela PM. Porém, é um ciclo difícil de se quebrar. Hoje a morte é uma solução imediata, e ódio gera ódio. Perdeu-se totalmente o valor pela vida.”

* colaborou Nathália Carvalho

Assalto volta a levar pânico na Marechal

A tentativa ousada de roubar mais de R$ 55 mil em uma loja de utensílios doméstico na Rua Marechal Deodoro causou aglomeração de curiosos, boatos de disparos e da presença de reféns no estabelecimento foram negados pela Polícia Militar. O caso aconteceu por volta das 10h30, quando já era intensa a movimentação de pessoas na loja e no vasto comércio da região. Dois criminosos chegaram ao local de moto, e um deles entrou armado, rendendo uma funcionária. Sob a mira do revólver, a mulher foi obrigada a seguir com o assaltante até a tesouraria, na sobreloja, onde ele já teria informações de haver quantia referente ao faturamento de sexta-feira e sábado. Outras duas funcionárias também foram rendidas. Clientes e outros vendedores não teriam percebido o crime inicialmente, mas a confusão aconteceu quando a PM chegou rapidamente e cercou a área, com apoio do helicóptero Pégasus. Desesperado, o ladrão tentou escapar fugindo pelo telhado, mas foi perseguido e pego na Rua Fonseca Hermes. O homem, 27, ainda portava o revólver calibre 32 usado na ação, carregado com seis munições.

“Assim que a Polícia Militar chegou ao local e fez um cerco total na frente da loja e adjacências, ele ficou encurralado, acessou a parte do telhado da loja e começou a transpor os obstáculos, chegando até uma galeria que dá na Fonseca Hermes. Ao tentar acessar a rua, foi capturado pelo pessoal da Rotam, imobilizado, juntamente com equipes que estavam em solo”, contou o comandante da Rotam, subtenente Webert Marques. Segundo ele, todo o dinheiro roubado, contabilizado em R$ 55.573, havia sido colocado em uma mochila, abandonada pelo ladrão na fuga.

Já o comparsa, 17, foi pego na Rua José Inácio Trindade, no Ladeira, Zona Leste. Ele chegou a abandonar a moto e tentar a fuga a pé. “Outro suspeito estava nas imediações da loja, aguardando o meliante fazer o assalto e dar a fuga na motocicleta. Com a chegada da polícia, ele evadiu, mas foi localizado e, após fugir da guarnição, foi feito cerco e bloqueio, sendo também capturado pela equipe da Rotam.” Conforme a PM, os suspeitos são moradores dos bairros São Benedito e Santa Rita, na região Leste.

Roubos

Em relação aos assaltos ousados no Centro, o comandante da 30ª Companhia da PM, capitão Herivelton Soares, ressaltou que acredita que muitos aconteceram por conta de informações privilegiadas recebidas pelos suspeitos. “O criminoso sabe exatamente quando é o melhor horário para agir, justamente por ter estas informações. Isto dificulta muito para a PM, mas, mesmo assim, como no caso de hoje (ontem), as prisões vêm sendo feitas. Pedimos aos comerciantes extremo cuidado com informações referentes a movimentações financeira. Percebendo qualquer movimentação estranha, a PM precisa ser acionada imediatamente”, pontuou.

A titular da Delegacia Especializada de Roubos, Patrícia Ribeiro, destacou que a Polícia Civil trabalha com a hipótese de os assaltos serem premeditados com base em informações obtidas pelos assaltantes. “Os casos estão sendo investigados, várias diligências e prisões estão sendo feitas”, comentou.