Aids avança entre população jovem

Coordenador do Programa DST/Aids em JF, Oswaldo dos Santos, alerta contra a banalização do sexo desprotegido (guilherme arêas)
A doença que já foi chamada de “câncer gay” já não atinge mais só homossexuais, travestis marginalizados ou usuários de drogas injetáveis. O vírus HIV e a doença que ele causa, a Aids, circulam nas várias classes sociais, tribos, gêneros e faixas etárias. Uma, em especial, chama a atenção: a dos jovens entre 15 e 25 anos. Foi para este público que o Ministério da Saúde lançou a última campanha. São nessas pessoas que o vírus mais se propaga atualmente. O alerta é feito hoje, Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Essa geração não teve contato com o início da epidemia, na década de 1980, quando capas de revistas exibiam a imagem magra e débil do cantor Cazuza, enquanto a sociedade ainda tentava entender que doença era aquela. E, hoje, a informação direta e correta sobre a doença parece ainda não circular massivamente na sociedade. Sem contar que os portadores do vírus ainda não encontraram espaço para assumir sua sorologia publicamente. O resultado é a falsa sensação de que a Aids não existe.
[Relaciondas_post] “O aumento do número de casos, principalmente entre os jovens, indica a não credibilidade das pessoas no vírus e a pouca importância que elas dão ao uso de preservativo. É como se as pessoas se achassem imunes ou que o HIV não existisse. Existe sim. A casa aqui está lotada. Recebemos de duas a três pessoas novas por semana”, alerta a psicóloga Rachel Renault, presidente do Centro de Apoio e Solidaried’Aids (Grupo Casa). A ONG do Bairro Vila Ozanan funciona durante o dia e atende, em média, a 50 pessoas diariamente. Elas são beneficiadas com café da manhã, almoço e jantar, além de assistência de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais. Os atendidos ainda podem participar de oficinas de artesanato e cuidar de uma horta.
Mobilização
A Aids foi uma das primeiras doenças a provocar uma intensa mobilização por parte das próprias pessoas acometidas, que passaram a lutar pelo direito aos exames, aos tratamentos específicos e, acima de tudo, por respeito. A Profilaxia Pós-Exposição (PEP), por exemplo, é um importante avanço oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), desde 2010. Ao mesmo tempo, vem causando a perigosa sensação de que pode ser substituída pelos métodos de prevenção, como o uso de preservativo. A PEP é o tratamento indicado para pessoas que transaram sem camisinha ou nos casos em que o preservativo se rompeu. Também é usada para profissionais da saúde que acidentalmente tiveram contato com sangue contaminado. Em até 72 horas após a relação sexual ou contato com o sangue, o cidadão que se sentir em risco pode requerer ao SUS os medicamentos antirretrovirais, que são administrados por 28 dias. O tratamento pode reduzir quase a zero o risco de transmissão do HIV.
“Muitas pessoas banalizam o sexo desprotegido, por conta de acreditar que a PEP é uma pílula do dia seguinte. A PEP são 28 dias de medicação pesada, que pode ocasionar diversos efeitos colaterais, como diarreia severa, mal-estar, alucinações, entre outros sintomas. Tem pessoas que estão vindo duas ou três vezes para receber essa profilaxia, o que não é o correto. Estamos tentando controlar isso”, alerta o coordenador do Programa DST/Aids em Juiz de Fora, Oswaldo Alves dos Santos.
Mais preocupação ainda traz a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), na qual o coquetel é administrado antes de a pessoa realizar a relação sexual desprotegida. Esse tratamento é oferecido pelo SUS, mas é bastante restrito, aplicável, por exemplo, quando uma mulher que não tem o vírus quer engravidar do parceiro soropositivo. O surgimento dessas profilaxias é um avanço, mas o temor dos especialistas é que o acesso aos procedimentos seja banalizado.
Teste de HIV em farmácia
Apesar do aumento do número de tratamentos de HIV iniciados no Serviço de Assistência Especializada (SAE), a quantidade de novos diagnósticos de HIV apresentou queda no serviço municipal. De 1º de janeiro a 5 de novembro de 2014, 3.058 pessoas foram testadas no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), sendo 108 resultados positivos para HIV. Este ano, no mesmo período, foram 3.267 testes, com 102 diagnósticos. Do total de 210 diagnosticados com HIV nos últimos dois anos, 77 eram homens entre 15 e 29 anos.
Em breve, a testagem poderá ser feita por qualquer pessoa, por meio da saliva. Na semana passada, a Anvisa permitiu o registro no Brasil de autotestes para a triagem do vírus HIV e que poderão ser vendidos na farmácia. O país passa a ser um dos poucos do mundo a adotar esta estratégia. O resultado obtido no teste, seja positivo ou negativo, deverá ser confirmado por um serviço de saúde especializado e em testes laboratoriais, pois há chance de erro.
A chegada dos testes de farmácia pode ajudar o Brasil a cumprir a meta 90-90-90 perante a ONU. O acordo prevê que, até 2020, o país tenha 90% das pessoas com HIV diagnosticadas; deste grupo, 90% seguindo o tratamento; e, dentre as pessoas tratadas, 90% com carga viral indetectável. A meta mundial prevê ainda novas infecções limitadas a 500 mil ao ano e zero discriminação. Estimativas do Ministério da Saúde apontam que cerca de 143 mil brasileiros desconhecem ser portadores do HIV.
O caminho para o fim do preconceito parece distante. A maioria dos soropositivos ainda teme expor sua condição, apesar de ter direito ao sigilo. “É um direito do paciente contar ou não para alguém. Por isso, temos equipe multidisciplinar para orientá-lo nessa necessidade, que é de cada um. Quando a pessoa tem o risco de contaminar o parceiro, parceira ou até os filhos, trabalhamos para que ele conte e siga no tratamento”, explica o coordenador do Programa DST/Aids em Juiz de Fora, Oswaldo Alves dos Santos.
Na visão da psicóloga Rachel Renault, o primeiro ato de resistência vem do próprio paciente. “A própria pessoa começa a se colocar como diferenciada. Ela se discrimina. O autopreconceito é muito comum, principalmente nos primeiros meses após o diagnóstico.”
Prevenção
Hoje não se fala mais em “grupo de risco” e sim em “comportamento de risco”. O principal comportamento de risco é fazer sexo sem camisinha. Logo, a melhor forma de prevenir ainda é o uso do preservativo. Apesar de as chances de contaminação serem maiores no sexo anal do que no vaginal e nesse do que no oral, o Ministério da Saúde preconiza o uso de preservativo em todas as relações sexuais.
No site da Tribuna, o leitor encontra um glossário explicativo com os principais termos relacionados ao tema.









