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Metáfora da vida


Por JÚLIA PESSÔA

20/11/2015 às 07h00

de noiva aline invade a cena na casa de cultura

De noiva, Aline invade a cena na Casa de Cultura

Sento-me para escrever como quem tenta recuperar a linearidade de uma noite regada a muita vodca. Imagens fortes vêm à memória, permeadas por uma sensação de envolvimento profundo com vários dos momentos, mas também a sensação de transitar entre uma lembrança e outra, levada apenas por estímulos que me arrastavam entre espaços. Um porre de vodca. Talvez seja a descrição mais honesta sobre a experiência de viver um ensaio do espetáculo “Quase nada é verdade”, indescritível de outra forma senão pelas sensações que provoca no espectador. Com estreia nesta sexta-feira, o projeto de pesquisa teatral, que tem o apoio da Lei Murilo Mendes, fica em cartaz até o dia 20 de dezembro, tempo suficiente para deslocar o juiz-forano de suas pré-concepções de teatro, arte, realidade, narrativas e de seu papel como público.

Cheguei às 20h35 no Victory Suites, onde escolhi começar a acompanhar a história, que teria início também em outros pontos da cidade: Casa de Cultura, Vaporetto do Alameda e a Praça Presidente Kennedy (no Paineiras, próximo à Olegário, perto de uma fábrica de plásticos com pintura de gosto duvidoso). “Inferno, tô atrasada!”. Cheguei à portaria, tem mais gente, ainda não começou. “Daqui a pouco, vocês sobem.” Guilherme, que fazia as imagens, me pergunta: “Será que a gente grava algum depoimento agora?”. Não deu tempo de responder, hora de subir. Esse primeiro momento seria bem intimista, em um dos quartos do hotel, e eu torcia internamente para não ter que interagir com o elenco, banana que sou.

Abre-se a porta, vejo o Vinícius Cristóvão, uma cara conhecida e querida. Respiro aliviada, sento-me no sofá, perco o medo dos atores, era só o Vi. Ele e Mia, a outra atriz em cena, interagem muito naturalmente, e tenho a sensação de estar na casa de um casal conhecido, enquanto fazemos hora para sairmos juntos. A atmosfera de conforto e de ‘vida real’ é interrompida por alguns momentos metalinguísticos, cenas dentro de cenas, grifadas por “Ih, ‘pera’, esqueci minha fala!”, e outras menções à dramaturgia no meio de um diálogo que, não fosse por essas intervenções, pareceria absolutamente cotidiano. De repente, o pau quebra. Vi e Mia começam a trocar gritos, insultos e empurrões pelo quarto afora, e começo a sentir um constrangimento quase físico de estar naquele lugar, na intimidade do conflito do casal. Vinícius bate a porta e leva três espectadores consigo. Fico ali, quis ver o que ia acontecer com a Mia.

Outro (s) espaço (s) cênico (s)

Quando me dou conta, estamos a caminho da Casa de Cultura, pela rua, e no trajeto questiono várias vezes: “Mas essa menina tá atuando ou não?”, e nunca consigo descobrir por completo. Chegamos à nova locação, Tairone está tocando “Help” no violão, e sei que faz parte da cena, mais uma cara querida no elenco. Sobre o resto das pessoas, fico tentando distinguir quem é ator e quem não é. Por um momento, volta a sensação de teatro (com “te” bem pronunciado, e não “tchi”, como se diz no dia a dia), de estar assistindo à encenação da abertura de uma exposição, da Licya. Ledo engano.

De noiva, Aline invade a cena na Casa de Cultura (Fotos: Divulgação)
De noiva, Aline invade a cena na Casa de Cultura (Fotos: Divulgação)

Mais personagens vão chegando e invadindo a cena: Carolina, Thiago, Aline, Bavuso, Rodrigo (nomes dos personagens e dos atores), no espaço da até então vernissage dramatizada. Reconheço alguns como atores, outros me surpreendem ao tomarem partido cênico: “Opa! Esse aí tá na peça!”. Do nada (sério, do nada), mil cenas explodem daquela única, para diversos cômodos, e começo a sentir uma ansiedade imensa, à mineira: “Oncotô? Proncovô?” e vou seguindo instintivamente ou os atores, ou um som, ou uma cena que me tocam, sem me dar conta de como as escolhas vão sendo feitas. Nas mudanças de ambientes, personagens se cruzam e histórias emaranham-se ou não, sempre de acordo com minhas escolhas: entrar ou não por tal porta, ficar ou não em uma cena, olhar ou não para um personagem. Tudo faz diferença.

A peça termina tomando a cidade e seus espaços pelo colarinho, dizendo-lhe: “isso aqui é meu, e dou o significado que quiser”. Tento fazer sentido da experiência. Desisto, e logo me lembro de Clarice: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” Abandono a compreensão, lembro-me dos sentimentos, constato que vivi. Percebo ter assistido a uma precisa metáfora da vida: é impossível controlar e vivenciar tudo, tanto quanto o desejo de fazê-lo é inalienável. E cada escolha representa uma consequente renúncia, com as perdas e ganhos inerentes ao processo.

Trabalho em contínua construção

Inenarrável a não ser pela vivência, “Quase nada é verdade” é um projeto de pesquisa iniciado cerca de um ano atrás, como explica o diretor Rodrigo Portella. “Já tinha essa vontade de trabalhar com espaços não convencionais de uma maneira que fosse, também, não convencional, buscando uma aproximação entre as linguagens do teatro e do cinema. Daí pensei em fazer em Juiz de Fora, onde a circulação entre os lugares seria mais executável, pensando em um espetáculo com custo baixo. Daí usarmos o próprio ambiente como cenografia, a roupa do elenco como figurino, os sons e luzes locais como ambientação”, conta o diretor, também cineasta.

Segundo o diretor, a iniciativa já dava seus primeiros passos depois da aprovação na Lei Murilo Mendes sob o nome de “Cartografias”, trabalho conjunto dele com Zezinho Mancini, Tairone Vale, Marcos Bavuso e Samir Hauaji, quando, em uma residência em Buenos Aires com a diretora Mariana Percovich, Rodrigo conheceu o conceito de hiperdrama. “Neste formato, em linhas gerais, o espectador é coautor, pode fazer escolhas que afetam a dramaturgia em todos os níveis. Com isso, foi (é) preciso pensar em cada possibilidade de intervenção e as combinações em termos de dramaturgia, que vão para mais de 300, e ainda assim pode haver ações imprevisíveis, porque a peça se pauta pelas subjetividades e experiências, o que, às vezes, é angustiante para um diretor como eu, que procura ter sempre o controle de tudo. Então é um exercício novo para mim também. E nem posso dizer que o que está sendo apresentado é o resultado destas pesquisas, porque a pesquisa continua acontecendo, com essa experimentação de linguagens e espaços.”

Como conta o diretor de produção Zezinho Mancini, o hiperdrama requer a aplicação de algumas técnicas específicas para que sua execução seja possível, sobretudo em uma montagem como esta, que se desdobra por espaços distintos. “Usamos muito os ‘dispositivos de espera’, uma preparação que os atores sigam com a cena caso haja alguma falha na sincronia, o que pode acontecer muito nos trajetos pela cidade. Outro recurso são os dispositivos sonoros: uma cena que termina com palmas indica para as outras que elas precisam se encerrar. Os atores então correm, caso estejam atrasados, para a conclusão. E tem muito improviso também, um momento que a gente abre para a interação com o espectador. Os atores têm uma base de respostas, conhecem o personagem e sabem, de alguma maneira, como eles se portam”.

 

Conexões não lineares

Zezinho explica que a elaboração do espetáculo foi não linear. Da escolha das locações (pela viabilidade delas), veio a escolha dos personagens, com o tema central já definido: “A instabilidade da verdade. A ideia de que a verdade só existe quando acontece, e que depois disso tudo vira versão. Partimos para estereótipos que fossem contrários em si: uma estudante ‘esquerda caviar’, um político honesto etc”. Fechada a lista de personagens, o grupo partiu para experimentações textuais. “Foi um período bacana, em que trabalhávamos on-line. Sempre tínhamos dois atores/personagens, cada um em um espaço da cidade, no chat do Facebook, com um terceiro integrante fazendo as vezes de diretor/motivador, que dava objetivos para a cena, e os atores iam escrevendo um diálogo. O diretor interferia quando achava necessário, seja mandando um link de música a ser ouvida no momento ou uma imagem que criasse outra motivação para a cena.”

Para Rodrigo, a maneira como o projeto foi e está sendo elaborado é essencial para a vivência individual do espectador, e está muito menos ligada à concepção tradicional de “entender a arte” atribuída ao teatro. Por isso mesmo, os ingressos só são vendidos antecipadamente, sob o limite de 36 pessoas por sessão. “Espero que as pessoas saiam daqui com uma sensação de terem vivido uma forte experiência sensorial, afetiva. A preocupação com o entendimento não é uma questão desse projeto. Quero que elas saiam daqui e falem ‘Nossa, que experiência, que viagem, tive a sensação de estar dentro de um filme’. Porque é tudo muito real, muito concreto.” Exatamente como a vida.

 

“QUASE NADA É VERDADE”

Estreia nesta sexta-feira, às 20h30. De sexta a domingo, às 20h30, de 20 de novembro a 20 de dezembro

Casa de Cultura da UFJF (Av. Rio Branco 3.372)

Ingressos à venda no mesmo endereço, das 16h às 20h